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Política, cooperação e empatia

Eder Brito

06 novembro 2014 | 12:54

Cooperação é uma palavra que quase não combina com a esfera pública e com a esfera político-partidária no Brasil. O tempo inteiro parece existir algum tipo de competição ou conflito. O clima é este entre partidos, eleitores, integrantes dos mesmos partidos, vereadores da mesma Câmara e às vezes até entre servidores que trabalham no mesmo órgão público. A falta de cooperação e empatia também chega ao exercício dos mandatos, com os grupos eleitos para as Prefeituras. Em muitos casos, parece que existe uma disputa entre Prefeitos de uma mesma região. Quem é que tem o maior “capital político”, a ponto de merecer mais atenção (e mais emendas) do Deputado ou do Senador da região? Quem é que tem um “trânsito” melhor nos Gabinetes das secretarias estaduais e mais acesso ao Governador para garantir repasses e dar uma engordada nos normalmente mirrados orçamentos municipais? O Prefeito da cidade vizinha é um inimigo, que influencia problemas em seu território e não se dispõe a ajudar na solução?

Esta disputa ocorre no sudoeste piauiense, com quatro municípios na região do Alto Médio Canindé, pertinho de Juazeiro do Norte, quase na divisa com o Ceará. A ética profissional infelizmente não me permite citar o nome dos municípios, mas são quatro municípios que poderiam cooperar muito mais. Dentre os quatro prefeitos, dois são do PSB, um do PT e outro do PMDB. O Prefeito do município governado pelo PMDB conseguiu que sua equipe aprendesse a elaborar projetos e captar recursos junto ao Governo Federal para a instauração do programa Ponto de Cultura em nível municipal. Ótimo para a cidade. Procurado por outros gestores e políticos da região, o Prefeito preferiu apenas dizer que “eles que descobrissem sozinhos o segredo”. Péssimo para a região. O que impediria esta equipe de compartilhar com as outras Prefeituras a metodologia de elaboração de projetos necessária para que todas as cidades tivessem acessos a mais recursos? Falta uma cultura de cooperação? Quanta interferência vem da esfera partidária e acaba influenciando na qualidade de serviços e bens públicos que poderiam ser oferecidos pelo município?

Na região metropolitana de São Paulo, outro caso dá um pouco de esperanças. A Prefeitura de Campo Limpo Paulista abriu uma licitação e contratou bastante asfalto. Tinha o material, mas não tinha mão-de-obra e nem máquinas suficientes para recapear uma estrada do município. A solução nasceu quando um dos diretores municipais na Secretaria de Serviços Urbanos percebeu o óbvio: a estrada era “compartilhada” com Jundiaí, outra cidade da região. Jundiaí não tinha asfalto, mas tinha máquinas e funcionários. Fizeram a obra juntos. O “modelo” deu tão certo que Campo Limpo Paulista vai repetir a parceria com a Prefeitura de Jarinú, para dar conta de outra demanda parecida.

A cooperação intermunicipal ainda está longe de ser compreendida pela maioria dos políticos e gestores brasileiros. A lei 11.107/2005 permite que sejam criados Consórcios Intermunicipais, mas pouca gente ainda entende por onde começar e porque fazer consórcios. Resolver problemas comuns a várias cidades, fomentar uma cultura de planejamento regional e cooperar com o Prefeito vizinho ainda é um exercício pouco comum. Mas precisa crescer. É um caminho para diminuir a dependência financeira e política e, quem sabe, começar a falar de uma autonomia municipal mais concreta e legítima.