O que os partidos terão em mãos nas cidades

O que os partidos terão em mãos nas cidades

Humberto Dantas

05 Dezembro 2016 | 07h01

Com participação especial de Leandro Monteiro – Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Goiás e aluno do programa de Liderança e Gestão Pública (MLG) do Centro de Liderança Pública – CLP. Atua como consultor em gestão e é cientista de dados.

 

PMDB e PSDB foram os grandes vencedores das eleições municipais de 2016, se é que nesse instante da economia e da política nacionais seja possível comemorar algo. O primeiro manteve sua expressiva marca de mais de mil prefeituras conquistadas, algo que se repete faz anos sem interrupções. Por vezes são cidades menores em termos populacionais, mas a relação entre essas conquistas e suas bancadas legislativas em estados e na Câmara dos Deputados é significativa, e para muitos analistas é isso o que mantém o partido tão forte nacionalmente.

Por sua vez, o PSDB conquistou o que poderíamos chamar de a outra face dessa moeda valiosa. O partido abocanhou quase 30 das pouco mais de 90 cidades em que poderia haver segundo turno. Em 2012, já fizera a maior marca, com 18, enquanto o PT havia ficado com 17. Agora terá 28, enquanto os trabalhadores ficaram com apenas uma. Assim, para além do crescimento, o PSDB assiste à desoxigenação de seu maior rival no plano nacional. A figura 1 é capaz de mostrar o que PSDB, PMDB e PT governarão nos municípios em termos de riqueza. Trata-se de uma representação do tamanho da soma do PIB de cada cidade sob o futuro controle de cada uma dessas três legendas. Claro que o peso de São Paulo é imenso nessa representação, mas Manaus, Porto Alegre, São Bernardo-SP e Barueri-SP ajudam ainda mais os tucanos – lembrando que o PIB paulistano é dez vezes maior que o porto-alegrense. No caso do PMDB a maior conquista econômica é Goiânia, com riquezas inferiores àquelas de Barueri, e no caso do PT sobrou como maior potencial Rio Branco-AC, Rio Grande-RS e Maricá-RJ, por exemplo, que têm cerca de um quinto das forças goianienses cada uma.

 

Figura 1 – PIB municipal de acordo com partidos no poder a partir de 2017 (PSDB/PMDB/PT)

Figura 1

 

Para adensar essa análise faz sentido lembrar que alguns estudos sobre partidos políticos mostram que esse tipo de organização sobrevive à custa de dinheiro público e cargos nas máquinas que governam, ou onde apoiam governos. Como maiores vencedores nessas eleições, mas com cidades de perfis um pouco diferentes, é interessante notar como PSDB e PMDB controlarão fatias bem distintas de orçamentos municipais e suas máquinas de servidores. Não pensemos que a sobrevivência financeira de uma legenda se dá apenas pelo que elas recebem do Fundo Partido – dinheiro público. A grandeza de um partido também se verifica nas fatias orçamentárias e nos departamentos de RH que controlam, e as razões para utilizar tais variáveis para entender a força de uma legenda, infelizmente, não se limitam a aspectos legais e morais.

Longe de fazer qualquer acusação específica sem fundamento, mas quem controla mais dinheiro atrai mais parceiros, o que complementa a lógica da primeira figura sobre a riqueza. Ademais, máquinas pesadas e recheadas de cargos de livre provimento também ajudam demais no funcionamento das organizações, sem querer dizer que todo comissionado terá sua nomeação associada a uma questão eleitoral, partidária etc. A despeito de tais aspectos, a relação de forças municipais partidárias está apresentada na figura 2, ou seja: o que os partidos tomados nessa análise controlarão com as eleições de 2016 e o que controlavam a partir dos pleitos de 2008 e 2012 – essa análise complementa texto publicado recentemente por nós no portal Open Democracy.

 

Figura 2 – Recursos políticos / econômicos governados pelos partidos (PSDB / PMDB / PT / PRB) como resultados das eleições de 2008, 2012 e 2016

Figura 2

 

O gráfico aqui é bastante claro: o PMDB mantém sua força com milhares de cargos e faixa orçamentária pesada. O PSDB se descola positivamente de suas conquistas passadas e dispara para se tornar a legenda que mais controlará maior orçamento e volume de cargos semelhante ao do PMDB, restando saber se isso possibilitará que tucanos convertam tamanha força em fortuna eleitoral em pleitos seguintes. Em sentido inverso é possível notar a mais absoluta desoxigenação do PT, perdendo espaço expressivo como organização capaz de manter controle sobre recursos essenciais aos partidos – orçamento e cargos de confiança nas máquinas. De quebra, para ilustrar certo crescimento, colocamos no gráfico o PRB, que conquistou a segunda maior cidade brasileira com Crivella no Rio de Janeiro. A legenda controlará fatia orçamentária superior à do PT, ficando aqui a dimensão do que de fato ocorreu com os trabalhadores.