O que significa depender tanto do poder público no mundo do trabalho

Humberto Dantas

25 Setembro 2017 | 06h38

Faz alguns anos me tornei fã incondicional do filme “Porta a Porta – a política em dois tempos” do pernambucano Marcelo Brennand, de quem eu me tornaria amigo com muito orgulho. Trata-se de um documentário com roteiro absolutamente fiel à parte do que explica claramente a lógica política nacional. Passei, a partir de então, a utilizar o material em palestras, cursos e treinamentos. Devo ter assistido ao filme mais de 100 vezes, a ponto de reconhecer precisamente as falas e passagens, e brincar com muitas delas entre amigos e familiares. A percepção sobre o conjunto de fatos se tornou tão razoável que o diretor me chamou para gravar um dos extras do DVD. Aceitei com muita honra.

Numa dessas ocasiões em que mostrei o filme tive mais um dos grandes exemplos dessa riqueza cultural numa conversa informal de estrada. Por uma ONG fui levado para Guajará-Mirim, interior de Rondônia, fronteira com a Bolívia. O motorista da Prefeitura que me pegou no aeroporto contou ao longo do trajeto, no final de 2011, que o prefeito não podia perder a eleição de forma alguma. Se isso ocorresse era o seu fim, sua desgraça econômica: “motorista de prefeito é cargo da maior confiança doutor” me disse ele. E continuou: “eu tenho mais tempo sozinho com o prefeito do que qualquer secretário, as pessoas então me veem como o agente de pedidos dos mais diferentes. Além disso, sei tudo: aonde ele vai, o que pede pra eu fazer na base da confiança etc. Que adversário me daria emprego?” Nada mais fantástico em matéria de percepção e complementariedade ao material de Brennand. Como essa declaração foram centenas de outras colhidas pelo mundo ao longo dos últimos anos. A prefeitura é, efetivamente, um agente econômico dos mais expressivos. Sua capacidade de empregabilidade tem peso econômico, social e político nos mais diferentes lugares do Brasil. É por isso que eu queria tanto fazer um cruzamento que ainda não fiz com dados oficiais: quantos empregos formais existem em cada cidade brasileira? Quantos estão ligados às máquinas municipais? E quantos desses postos são de livre provimento? Ou seja: quantos estão nas mãos de conchavos, acertos, posições técnicas, acordos políticos e tantas outras motivações que colocam o prefeito no centro da economia local? Qual o peso disso tudo?

Pois bem, não sei se eles chegaram a esse número tão preciso que me motiva a pensar nisso, mas é fato que o levantamento da FIRJAN (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) nos leva para uma resposta quase precisa acerca desse incômodo. De acordo com reportagem de sexta-feira do Estadão, baseada nos números colhidos pelo pessoal do Rio de Janeiro para o Brasil, existem cidades “onde só há emprego na Prefeitura”. O estudo mostra que em ao menos 530 cidades brasileiras, ou seja, cerca de 10% de nossos municípios, 80% ou mais do mercado de trabalho formal (o formal fica por minha conta, e imagino que seja isso) está conectado às prefeituras. E 96% dessas cidades estão no vermelho. Se considerarmos que o pouco de empregabilidade restante deva depender fortemente dos rendimentos desses servidores seria possível dizer que somos insustentáveis em parte de nossas realidades locais. O que fazer diante de tamanho problema? Os especialistas se dividem entre acabar com alguns municípios e/ou promover uma reforma que tenha como principal preocupação redefinir a lógica tributária no país, ofertando mais sustentabilidade às cidades. Enquanto nada disso ocorre, é fato que o clientelismo, a dependência absoluta, as trocas pouco republicanas e o desenho político nacional vão se mostrando mais claros a cada dia. Isso não impacta apenas a lógica local, isso tem consequências claras na forma como elegemos os políticos estaduais e federais a partir dessas localidades. A revolução, nesse caso, parece menos associada à mudança das regras e desenhos territoriais, e expressivamente associada à forma como enxergamos e vivemos, culturalmente, a nossa política. Falta muito!