O que é sórdido?

Humberto Dantas

25 Fevereiro 2015 | 09h05

Aos microfones da Rádio Estadão, faz algumas semanas, o prefeito de São Paulo disse que existe uma campanha sórdida contra a modernização da cidade quando o assunto são as ciclovias. De acordo com Haddad, movimento semelhante em benefício do uso da bicicleta já teria tomado conta de diversos locais pelo mundo e, portanto, não parece caber discussão – tenho viajado bastante nos últimos anos e realmente vi muita ciclovia bacana por aí. Nesse sentido, em nome do progresso, o prefeito manda pintar ruas e calçadas de vermelho (não tenho NADA contra a cor), o que infelizmente não representa que ficou moderno nem tampouco bacana. Em alguns locais fica a impressão nítida de que tudo é feito de qualquer jeito e sem apego ao razoável. Na Rua Artur de Azevedo (Pinheiros), por exemplo, a via inaugurada em novembro do ano passado já está descascando. Em Perdizes, tem logradouros em que nem o campeão do principal evento esportivo de Kailua-Kona percorrerá a íngreme ladeira sem colocar a língua para fora. Para quem não sabe, o citado local fica no Hawaii e cedia a mais relevante competição de Ironman do planeta, com quase quatro quilômetros de natação no mar, 180 de ciclismo e mais de 40 de corrida. Dá para crer? Não? Então vai dar um rolê de bike em Perdizes. Truco!

Mas a despeito de toda a polêmica sobre as vias, o que mais incomoda talvez seja a forma como o prefeito se dirige a quem discorda de suas ideias. No mundo acadêmico é assim: por vezes os professores têm dificuldade de lidar com o contraditório, sobretudo quando a opinião vem de quem consideram “menos sabidos”. Mas isso é absurdo, e se tripudiar de críticas em sala de aula já é trágico, imagina na vida pública!?! Como representante eleito! Assim, ao que tudo indica o desafio maior do prefeito não é impor vontades e “verdades”, mas fazer um exercício da humildade, de reconhecimento de que todos sempre poderão mostrar caminhos e discordar, sem precisarem ser agredidos por isso. Pense nisso prefeito! O senhor está numa posição pública e sempre receberá críticas, e o cidadão não age com sordidez ao discordar do que vê na cidade…

Assim, a realidade é que Haddad não parece muito afeito à prática do diálogo – os acadêmicos em geral têm dificuldade pra isso. Nesse caso: verdades inquestionáveis sob a batuta de quem se acha dono do poder só pode gerar truculência. E o cenário se torna pior se considerarmos onde ele lecionava até o instante em que optou por se dedicar à vida pública: o Departamento de Ciência Política da USP. Palco de grandes personagens públicos entre seus docentes, a despeito de partidos e ideologias, é de lá que deveríamos esperar os mais lúcidos agentes capazes de compreender que não existe sordidez alguma no ato de discordar e criticar. Pelo contrário: é da Democracia, um conceito caríssimo a este universo da academia. Claro que o prefeito pode, e talvez deva, defender as ciclovias: mas ajo de maneira sórdida toda vez que critico ou discordo? E se eu estivesse elogiando? Seria um gênio ou estaria apenas cumprindo com minha obrigação? Pobre democracia. Mas vamos deixar de discursos e falar em exemplos. Trarei mais dois, ambos no Morumbi.

O primeiro na Av. Lineu de Paula Machado, atrás do Jockey Club. Por lá existe a ciclovia à direita. E aos domingos foi mantida a parceria com um banco para a delimitação das ciclofaixas à esquerda. Resultado: direita e esquerda reservadas para as bicicletas. A reserva é nobre, mas precisa mesmo interditar duas pistas para as bicicletas? Claro e óbvio que não. O segundo caso é mais bizarro. Numa rua do bairro acima citado a ciclovia termina num muro. Isso mesmo. Ela atravessa a rua, para na sarjeta e quando olhamos para a frente temos calçada e muro. Deve haver algo reservado para quem leu Harry Potter ali. Como não o fiz, não sei o que tenho que dizer ou que varinha mágica devo apontar para mudar de dimensão. Se a prefeitura preferir me corrigir e dizer que ali é o começo, fica a dica: escreva “início”. Não daria certo! A via tem duas mãos. O ideal, nesse caso, seria fazer um balão ou uma circular. Mas na calçada? E por falar em fazer, o que não falta é ciclovia refeita por conta de árvore sufocada, calçada inviabilizada e dúvidas associadas a travessias de trechos perigosos – tudo isso gasta dinheiro público. E diante desses pontos, a despeito da importância do estímulo ao uso das bicicletas, fica a pergunta: sou sórdido por reclamar tanto? Por criticar a cidade onde nasci e moro até hoje? Se sim, como fiz graduação (Ciências Sociais), mestrado e doutorado no departamento de Ciência Política da USP lamento não ter tido a sorte de ser aluno do prefeito. Uma pena…

Ps. Antes que qualquer pessoa sonhe com o fato de eu ser contrário ao uso de bicicletas, registro que meu nariz, tão torto e feio, é assim porque em agosto de 1990 fui atropelado na Rua Morato Coelho por um carro quando voltava de bicicleta da escola. Tudo o que quero é o respeito aos ciclistas…