O protetor de gatos sertanezinos

Humberto Dantas

12 Outubro 2015 | 08h32

Com participação especial, e inspiração absoluta, de Eduardo Seino.

 

Sertãozinho, interior de São Paulo, deveria ser alvo de um “estudo de caso”. A política local nos oferece muitos elementos, no mínimo, curiosos. Nesse ano, já tratamos aqui da polêmica relacionada ao aumento do salário do prefeito, cujo valor estabelecido era maior do que o salário da presidente da República! Ademais, no final do ano passado, o então presidente da Câmara Municipal, Rogério Magrini dos Santos (PTB), causou polêmica ao decretar dois pontos facultativos para o Legislativo local nos dias 20 e 21 de novembro. Respectivamente, foram estabelecidos o “Dia da Consciência Negra” e a “Homenagem à Consciência Branca”. Na ocasião, a insatisfação veio tanto dos vereadores da casa, que disseram não terem sido consultados a respeito do decreto, quanto de representantes do movimento negro, que consideraram a “homenagem” uma afronta. Pudera: com toda a razão. Que trapalhada!

 


Diante de tais bizarrices poderíamos achar que era suficiente, mas, como ensinado pela famosa história de Joseph Climber: “a vida é uma caixinha de surpresas”. E Sertãozinho volta em “grande estilo” ao noticiário – veja aqui. O mesmo Rogério Magrini dos Santos (PTB), mais conhecido como Zezinho Atrapalhado, está em seu quinto mandato como vereador e já foi duas vezes presidente da Câmara. Trata-se do que chamamos de candidato “bom de voto”. Na última eleição, em 2012, foi disparado o vereador mais votado da cidade com 3.203 adesões. Sua história de vida, seu apego às causas das pessoas com deficiência e às crianças em geral são marcantes. Mas…

 

Dessa vez, por meio do Projeto de Lei 104/2015, que começou a tramitar em 02 de junho e ainda permanece sem deliberação, Atrapalhado propõe a proibição do ensino de uma cantiga tradicional nas escolas públicas municipais. O artigo 1º do PL diz o seguinte: “Fica proibido, nas escolas da rede pública municipal de Sertãozinho, o ensino da cantiga “Atirei o Pau no Gato”, devendo a mesma ser substituída por versão que aconselhe a não atirar nada no animal”. A ideia pode até ser interessante, no entanto o parecer da Procuradoria Jurídica da Câmara foi pela inconstitucionalidade do PL, uma vez que, por censurar a cantiga, fere a liberdade de expressão – preceito básico da Constituição Federal. A recomendação final da Procuradoria foi que Magrini elaborasse então uma proposta sugerindo às escolas de ensino infantil a substituição da versão original da música por outra que incentive “a não atirar nada no animal”.

 

Ora, se for assim devemos lembrar que essa música já existe. Poderia constar no PL a canção “Não atirei o pau no gato”, da apresentadora infantil Eliana – aquela mesma dos dedinhos. A bela letra diz: “Não atirei o pau no gato tô tô / Porque isso sô / Não se faz faz faz / O gatinho nhô / É nosso amigo gô / Não devemos maltratar os animais (2x) / miau”.

 

Trapalhadas ou não à parte, chama atenção a aparente falta de sensibilidade política para prever que algo desse tipo poderia gerar uma ampla repercussão negativa. O projeto foi alvo de críticas ácidas em vários canais de imprensa. Fica a sensação de despreparo, de baixa qualificação, ou de algo que nos faz lembrar aquele velho político que pregava o famoso “falem mal, mas falem de mim”. Ou ainda do quanto as ações “protetoras” dos bichos têm angariado votos nas cidades em geral. Sem considerar esse aspecto, talvez, o vereador Zezinho ande meio atrapalhado mesmo. Em seu rol de iniciativas, ações relevantes como o projeto que destina parcela de recursos para a educação chamada de “especial” convivem com o PL contra o “pau no gato”. Atrapalhado? Estratégico? Duvidamos que Zezinho não se atrapalhe com a enxurrada de votos que receberá em 2016: pela dedicação ao mandato, mas também pela superexposição que já o levou, em outrora, até mesmo ao programa do Jô Soares – onde foi aplaudido de pé.

 

Ps. Sertanezinos são cidadãos de Sertãozinho, antes que alguém possa imaginar que seja uma raça de gatos…