O deputado “banqueiro”

O deputado “banqueiro”

Humberto Dantas

19 Outubro 2015 | 07h40

Dia desses terminei rapidamente de ler o livro “O Banco Medici” de Tim Parks. A história relata que na “Florença do século 15, emprestar dinheiro e cobrar juros dava direito a uma vaga no inferno. Mas, com artifícios que incluíam ganhos com câmbio de moedas, além de amizades e favores prestados à Igreja, uma família construiu um império que durou quase um século” segundo um bom resumo no portal do Guia do Estudante. O que se torna mais claro na narrativa é a cumplicidade entre banqueiros que corrompiam as regras presentes (e a moral vigente) e membros da Igreja que desejavam enriquecer nas sombras da própria religião. Assusta ver o nível de complexidade de algumas ações. Por exemplo: um banqueiro guardava o dinheiro de um religioso e lhe pagava os proibidos juros (usura). O religioso, por vezes, o ameaçava de excomunhão. O banqueiro rogava perdão e prometia a reforma de uma dada Igreja, e para tanto, por vezes, contratava um artista. Nos tetos adornados mandava pintar, entre dezenas de anjos, a face de seus familiares banqueiros. Era um pacto de cumplicidade. Era uma forma de se amarrar ao religioso.

Cumplicidade é uma palavra que representa bem o sentido de certas capacidades de desafiarmos lógicas presentes. Parlamentares, por exemplo, criam métodos próprios para trafegarem em terrenos que para alguns são imorais ou pouco afeitos à ética. Deputados federais (alguns) sonham mais em distribuir dinheiro de suas emendas a prefeituras, em troca de apoio político, do que propriamente em realizarem trabalhos de legisladores e fiscalizadores do Poder Executivo. Pudera: você conhece algum eleitor que em meio à campanha pergunta para o deputado quantas ações de fiscalização ele promoveu ao longo do mandato? Pois é, mas inúmeros eleitores comparecem às inaugurações de ações que contam com a presença do “deputado financiador”. E nesse tipo de atividade a criatividade parece ser a marca dominante. Em 2014, por exemplo, elegemos deputados federais. Quando assumiram o mandato, em fevereiro de 2015, o orçamento já deveria estar aprovado para o exercício vigente, mas o Congresso só o finalizou em março. O que isso representa? Teria dado tempo de os novos parlamentares incluírem seus desejos paroquiais na peça? Aparentemente sim, mas isso é secundário diante do que relataremos aqui. Num ímpeto de cumplicidade entre seu primeiro mandato e uma dada prefeitura, o deputado federal Capitão Augusto (PR-SP) “criou” o próprio banco – por sinal ele é um dos líderes da criação de um novo partido, o PMB (Partido Militar Brasileiro). Assim, em uma atividade de marketing questionável visitou Ourinhos, interior paulista, e entregou um daqueles cheques gigantes à prefeita Belkis Fernandes (PMDB), que se mostrava feliz com a conquista – a foto abaixo é do Facebook do próprio deputado. E note que no corpo do cheque tem até a imagem do “banqueiro”. Lá está o sorridente parlamentar que se notabilizou por usar farda de policial militar no Congresso Nacional. A polêmica da vestimenta ganhou os jornais, agradou alguns, incomodou outros, mas sinceramente não entendo ser isso um problema.

Voltemos então para a “ordem de pagamento”: ali, estampado, bonito, e no espaço comumente destinado à instituição financeira os dizeres “Capitão Augusto / deputado federal” ao lado da foto (verifique). Praticamente um banco! É isso mesmo: as questionáveis emendas parlamentares foram transformadas em folha de cheque e distribuídas. A foto da entrega, nessa caso pequenina, também está no portal da Prefeitura de Ourinho-SP – pelo menos estava até o dia 22 de setembro. E na reportagem a promessa de que os recursos chegariam até agosto – ou seja, tratava-se de um cheque pré-datado? A data é de 23 de março, ou seja, faltou o “bom para”. Mas há quem garanta, no entanto, que os recursos não chegaram efetivamente em razão da situação caótica do país – ou seja, as contas públicas federais transformaram o cheque num borrachudo sem fundo? Pois é! Diante de tudo isso, faltou apenas entender porque não há numeração no cheque, verificar se efetivamente o nome do “correntista doador” é o do deputado, como parece ser, e sugerir que o troquemos por  “povo brasileiro”. Faltou também verificar onde está aquele discreto “cliente desde…”, atestando a duração da cumplicidade.

“Cheque” do Deputado entregue à prefeita (centro) de Ourinhos – foto retirada da conta do parlamentar no Facebook.