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O Brasil que protesta

camilatuchlinski

20 junho 2014 | 08:00

As grandes manifestações de junho de 2013 completaram um ano. O primeiro protesto da semana do dia 17 daquele mês saiu do Largo da Batata, na região de Pinheiros, e tomou a Brigadeiro Faria Lima. Eu estava lá, narrando tudo o que se passava. Era impossível ver o chão da avenida. O canteiro central e as calçadas também estavam repletos de brasileiros inconformados não só com o aumento do preço da passagem de transporte público, mas com a corrupção, a saúde e a educação precárias no País e a violência. O povo brasileiro, depois de anos de aparente ostracismo político, voltou a gritar. ‘Oh, povo acordoooooou… o povo acordoooooou’, berravam as pessoas, que carregavam cartazes muitas vezes improvisados.

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Meninos protestam nas ruas de São Paulo em junho de 2013

(foto: Camila Tuchlinski) 

Há exatamente um ano, a ‘ficha’ do brasileiro sobre os gastos da Copa caiu. E o tema também ganhou os protestos de rua.

 

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O público das manifestações era diverso. A maior parte era composta por estudantes, mas famílias inteiras, inclusive crianças, também estavam lá. Encontrei aqueles que saíram às ruas na época do impeachment do ex-presidente Collor. Encontrei também gente que participou do movimento pelas Diretas Já! ‘Essa juventude estava muito parada com relação aos problemas do Brasil. Fico feliz que acordou e incentivo os protestos’, afirmou Isabel Vieira, emocionada ao se lembrar que enfrentou a ditadura militar.

As pessoas repudiaram a presença de bandeiras de partidos políticos como PSTU e PCO, que participaram dos primeiros movimentos meses antes. Naquele momento, era nítido que o brasileiro estava irritado com a política. O PT tentou ‘apoiar’ os movimentos e foi rechaçado. O PSDB fingiu que não viu. Após o repúdio de qualquer sigla, os partidos se afastaram. Em São Paulo, pela primeira vez, PT e PSDB se uniram para anunciar a queda no aumento da tarifa do transporte. O prefeito Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin, lado a lado, deram a coletiva de imprensa para consumar o ato.

Naquele dia 17 de junho de 2013, a avenida Paulista foi tomada pelos manifestantes por toda a extensão. Além dos representantes do Movimento Passe Livre, de servidores públicos e de pessoas sem nenhum vínculo com instituições, houve espaço para a presença de grupos nacionalistas e anarquistas (apesar da rivalidade, não foi registrado nenhum confronto).

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Grupo protesta na Paulista (foto: Camila Tuchlinski – junho 2013) 

Naquele momento, os protestos ganharam a mídia brasileira e internacional. Não se falava em outra coisa a não ser a ‘bela manifestação democrática e pacífica’, muito diferente de atos de vandalismos cometidos por pequenos grupos em dias anteriores. Porém, a população começou a dispersar e a se perguntar: ‘e agora?’.

A falta de algum representante, um líder que pudesse dar voz às reivindicações de todos, foi sentida. E, no meio da multidão, um rapaz sacou um megafone da mochila e tentou juntar pessoas em prol de um País melhor. ‘Vamos montar uma página no Facebook para trocar ideias. Nosso grupo vai se chamar Movimento Brasil Unido!’. O perfil na rede social até foi criado, mas não vingou.

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 Sentimento de patriotismo expressado por jovem na Paulista,

em junho de 2013 (foto: Camila Tuchlinski)

Um ano se passou. A Copa chegou. Aqueles grupos todos que se uniram para protestar em junho de 2013 estão em silêncio. Horas antes do jogo entre Brasil e Croácia no último dia 12, abertura do Mundial, a avenida Paulista foi palco de torcedores vestidos com a camisa da seleção. Ao mesmo tempo, um pequeno grupo fazia barulho no vão livre do Masp. Integrantes do movimento ‘Revoltados Online’ paravam os carros no farol para distribuir adesivos com os dizeres ‘fora Dilma’. Poucos carros passavam pelo local. Alguns aceitaram colar os adesivos nos veículos, entre taxistas, carros de passeio e um motorista de ônibus confessou: ‘Não posso colar aqui, senão, bem que colocaria’. O protesto ficou por ali mesmo.

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 Grupo ‘Revoltados Online’ prepara protesto

(foto: Camila Tuchlinski, 12 de junho de 2014)

Na era da comunicação via internet, pequenos grupos encontram, com facilidade, uma ideologia para lutar. Pode ser contra a corrupção, a pedofilia, a falta de saúde ou educação, etc. O grande desafio agora é tirar a luta do mundo virtual. Isso também é política! Se enganam aqueles que pensam que a política é feita só nas Casas legislativas como Congresso, Assembleias estaduais e Câmaras Municipais. A política é feita por todos nós. E todos os dias. Como diria Humberto Dantas, avança democracia!