Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Política

Politica » Não tinha ninguém na Câmara Municipal

Política

0

Humberto Dantas

25 Janeiro 2016 | 07h21

O Brasil, a despeito de outros países que não me interessam em nada abordar aqui, aceita acordado e de olhos bem abertos a corrupção. O Judiciário, poder visto por muitos como o bastião da moralidade, não pune certas práticas. O parlamento considera, do auge do corporativismo de seus membros e da sensação de que a grande maioria da sociedade é idiota, que ninguém enxerga ou calcula os absurdos que fazem com o dinheiro público.

O Legislativo em geral ignora a ideia de crime quando o assunto é o uso da máquina administrativa em benefício de campanhas, por exemplo. Assessores viram cabos eleitorais, deputados e vereadores somem dos gabinetes nas eleições, os ritmos refluem e tudo isso é eufemisticamente chamado de recesso branco sem que ninguém faça nada contra. A cultura, nesses casos, serve de venda (no sentido de objeto utilizado para tapar os olhos) para a justiça? Torço pra que seja só isso, pois ignorância tem cura, cumplicidade é mais difícil. Mas tragamos exemplo concreto para tornar essa minha aparente destilaria de ódio mais objetiva.

A questão é simples: e quando o cidadão quer se aproximar da Câmara Municipal? Visitar e fiscalizar o parlamento? O que ocorre? Depende. Se for um dos milhares de eventos festivos que homenageiam verdadeiras barbaridades e idiotices paroquiais pelo país a fora, tudo estará lá montado. Sessão solene é o que não falta nesse país. Câmaras Municipais são verdadeiros salões de festas públicos de vereadores que se tornam mestres de cerimônias de interesses eleitoreiros e pouco afeitos ao que a política efetivamente deveria representar. Mas se estivermos falando de uma visita de cidadãos dispostos a mostrarem o que desejam como ativos sujeitos de uma sociedade que sonha em mudar sua postura passiva diante dos políticos, a história é outra. Nesse caso, a casa estará fechada. Ao menos é o que ocorreu em Antonina do Norte, interior do Ceará.

Na Marcha Contra a Corrupção, evento marcado pelo desejo de cidadãos conhecerem as realidades de suas cidades, a Ação Cearense de Combate à Corrupção e à Impunidade protocolou no dia 18 de dezembro de 2015, sem necessidade legal, mas de forma respeitosa e endereçada ao presidente Antonio Ribeiro Sampaio, solicitação de visita ao local para o dia 11 de janeiro de 2016, uma segunda-feira. Claro que os vereadores devem estar em seus longos recessos, mas as perguntas que não querem e não devem nunca calar: onde estão os funcionários? Por que a porta estava fechada? Na fachada da casa legislativa uma placa informa que o horário de funcionamento da repartição é das 8h às 14h – algo já bastante tranquilo e controverso, pois mostra que o cidadão que cumpre expediente formal de trabalho dificilmente verá, um dia sequer, a Câmara Municipal funcionando. A despeito de tal fato, a marcha estacionou por duas horas na frente do parlamento, das 9h às 11h, sem qualquer notícia oficial, sendo informalmente alertada para o fato de que o presidente estava hospitalizado. O que significa? NADA! Estimamos a melhora do cidadão, mas ele fica doente e o Legislativo para? Fecha? Desmobiliza? Desorienta? Mica?

Assim, voltemos às perguntas centrais: onde estava o povo que trabalha? Que recebe dinheiro público? Que faz funcionar a casa de leis da cidade? Lembremos que em novembro do ano passado teve concurso público para agente administrativo e auxiliar de serviços gerais com cargas horárias de 40 horas semanais. Balela? Como a prova foi no final do ano, talvez os classificados não tenham tomado posse. Seria o sinal de uma revolução na história administrativa da Câmara? Ou ganharam o dia pra comemorar o sucesso? Para completar o gesto de comprometimento da cidade com sua cidadania, a pérola final. Um dos líderes da marcha, o advogado Arimatéia Dantas Lacerda, que apesar do sobrenome, infelizmente não é meu parente, arremata a descrição do ambiente encontrado: “Câmara Municipal de Vereadores: Legislativo com participação”. Não precisamos nem dizer que esses são os dizeres contidos em placa no prédio. Mais um item da série: hipocrisias da política no país da piada pronta.

 

Ps. Se fosse, sinceramente, pra cravar uma hipótese eu diria que o presidente, doente (ou não), mandou lacrar a casa pra evitar a visita. Político quando se depara com povo consciente tende a tremer de medo. Mas isso é apenas uma hipótese.

Comentários