História cinematográfica

Humberto Dantas

23 Fevereiro 2015 | 07h16

A sensação que tenho ao olhar para diferentes casos, de tantas cidades que aparecem no noticiário ou são trazidos por leitores desse blog é que o Brasil é um empilhamento de histórias que se repetem. Esse é o peso das instituições, sobretudo informais, de um país que carrega uma cultura tirana em matéria de desapego republicano e subdesenvolvimento democrático. Muita coisa mudou nos últimos anos, tivemos avanços importantes. Mas ainda assim fatos ocorridos nas cidades assustam. O caso que trago aqui extrapola esse sentimento de Dèjá Vu e tem contornos cinematográficos. Você vai logo entender porque.

Quantas cidades você conhece que tiveram o pai e o filho como prefeitos? Muitos vão dizer que isso é natural no planeta, e não há nada de ilegal. Os Estados Unidos, que vive se vangloriando de ser a maior e mais sólida democracia do mundo, já teve pai e filho na Presidência da República. Nesse caso, devemos considerar que famílias de políticos poderiam influenciar e pesar de forma mais decisiva para a perpetuação dos seus filhos no poder, formando com maior clareza essas lideranças. Isso é aceitável se considerarmos que o povo tem o direito de escolher. Mas tais famílias têm mais recursos? Influenciam mais o eleitorado? Pode ser, mas essa questão não se restringe às famílias, mas sim a grupos encrustados no poder.

Paulínia-SP fica no interior de São Paulo e tem o orgulho de ostentar a marca de “a maior renda per capita do Brasil”. Seus menos de 90 mil habitantes têm média de ganhos anuais que superam os R$ 12 mil. A cidade de São Paulo não supera R$ 4 mil. Tal cifra não indica que os paulinenses vivam na moda da ostentação de forma generalizada. Lembre-se que vivemos num país desigual, e nem sempre a cidade sabe o que fazer quando arrecada bem ou quando gera riqueza. A segunda posição nessa lista, por exemplo, pertence a Cubatão-SP, e por lá problema de toda ordem associado à exclusão é o que não falta.

Mas Paulínia também é marcada por um roteiro (!!!) de obviedades em nossa política. Por lá, em 1983 um piracicabano de nome José Pavan foi indicado prefeito – eram os anos do autoritarismo e nem todas as cidades podiam eleger seus mandatários. Morto em 1987, não teve a chance de ver seu filho, Junior, prefeito da cidade eleito em 1988 pelo PFL. Sucedido por Edson Moura (cujo filho vai aparecer logo mais), eleito em 1992, viu o político do PMDB ser eleito novamente em 2000 e reeleito em 2004. Em 2008 Pavan voltou ao poder, e a despeito de um período de afastamento em 2009, governou até 2012.

Naquele ano tivemos novas eleições e Junior venceu o pleito. Quem? Pavan? Não: Edson Moura Junior, que entrou no lugar do pai na véspera do dia da votação e venceu a disputa com 41% dos votos. Mas o povo votou no pai ou no filho? De quem era a foto na urna eletrônica? Do pai, e o povo deve ter votado nele. Esse tipo de “golpe” era relativamente lícito (o termo “relativamente” aqui é bem brasileiro) até decisão recente da Justiça Eleitoral. Mas mesmo antes da resolução dos magistrados, quando adversários entravam com representações, a justiça oscilante costumava produzir resultados diversos. Um deles ocorreu em Paulínia, na verdade ainda vem ocorrendo. Assim, com 35% dos votos quem findou sendo considerado vencedor, e empossado prefeito, foi Pavan. Assumiu o poder em janeiro de 2013, mas em julho o entregou a Moura Junior por determinação legal. Desde então as idas e vindas na prefeitura se tornaram comuns, sobretudo entre os amigos que são inimigos, ou entre os inimigos que já foram amigos – falamos obviamente de Moura e Pavan, cujo relacionamento familiar oscila tanto quanto o Poder Judiciário, e é retratado com ironia por críticos da cidade. O fato é que ao longo dos últimos dois anos o total de cassações de Moura Júnior, se somarmos a própria eleição, é igual a sete. Isso mesmo: SETE cassações! E juro que isso não é conta de mentiroso, tampouco ficção. No último capítulo conhecido dessa série, no começo do mês, o prefeito foi afastado e o presidente da Câmara, Sandro Caprino (PRB), tinha a incumbência de transmitir o poder a Pavan. O evento foi tumultuado na Câmara e sobrou até para o ex-vereador Gordura, detido com um gaveteiro pesado no porta malas de um carro, tentando deixar o parlamento.

Até o fechamento desta edição (sempre quis escrever isso!) o prefeito de Paulínia, segundo o site oficial do município, em 13 de fevereiro de 2015, era Pavan Jr. E nem precisamos lembrar que Paulínia é conhecida por ser a terra do cinema. Com um roteiro desses, e para fazer jus ao título desse texto, a cidade realmente sabe, como poucas, protagonizar o espírito maior da “dramática e fantasiosa democracia brasileira”.

Ps. Abraço especial àqueles que ficaram acordados assistindo ao Oscar ontem e adoram cinema…