Gesto simples, essencial e POLÍTICO

Humberto Dantas

20 Março 2017 | 07h43

Caixas do Sul é um monstro de cidade. Grande, interessante, próspera, o maior município do Rio Grande do Sul com exceção da capital, quase 500 mil habitantes. Foi lá que o atual governador do estado alavancou sua carreira política – e não elegeu seu indicado. Caxias é uma baita cidade.

Seu atual prefeito conseguiu reavivar, em vídeo que ganhou as redes sociais nos últimos dias, um debate que se arrasta faz décadas no Brasil. Trata-se de algo simples, óbvio, quase banal. Um gesto que deveria servir de exemplo para os vereadores, os promotores públicos (que a reportagem a ser citada mostra que tentam fazer algo) e, por que não, para os cidadãos em geral – esses precisam se organizar e reclamar veementemente a questão.

O prefeito resolveu peitar parte de uma das classes mais corporativistas que existem nos municípios brasileiros. Digo isso porque no final de 2012 fui convidado por uma ONG para participar de um curso de capacitação para prefeitos eleitos do PSDB. Meu objetivo era captar junto a esses escolhidos a percepção deles sobre políticas sociais. E o maior problema era: como dialogar com os médicos do serviço público desarmando verdadeira indústria de privilégios e pouco caso com o compromisso assumido a partir de concursos? É ÓBVIO, e não nasci ontem, tampouco sou otário, que as condições técnicas nas cidades são tristes em muitos locais: falta equipamento, faltam insumos básicos, por vezes faltam até mesmo pagamentos. Mas isso em NADA tem a ver com o direito de parte – eu disse PARTE – dos médicos se organizarem e utilizarem tais problemas como justificativa para a criação de um mundo paralelo de descaso e corrupção com o compromisso essencial de servir à sociedade. Estão insatisfeitos? Só existem três caminhos óbvios: organização respeitando a lei, justiça ou pedido de demissão. Mas não: parcelas dos médicos, eu disse PARCELAS, entram em um jogo de conivências absolutamente lastimável onde quem costuma perder é o cidadão, e obviamente a saúde. O Distrito Federal desbaratou escândalo dias desses, e exemplos não faltam.

Mas minha pesquisa com prefeitos não se restringe aos mais de 300 com quem tive a oportunidade de conversar em 2012. Em 2015, pela mesma ONG, tive a oportunidade de dialogar com mais de dez prefeitos ou ex-prefeitos em entrevistas em profundidade para um projeto. Todas as conversas duraram ao menos 30 minutos, algumas mais de duas horas. E novamente veio a insatisfação: a imensa maioria dos entrevistados fala na dificuldade de dialogar com médicos. Algo difícil, algo complicado.


Pois então vamos terminar essa conversa entendendo o que de tão simples e essencial fez Daniel Guerra, do PRB, eleito com mais de 60% dos votos em segundo turno em 2016 para governar Caxias do Sul. Ele simplesmente foi a uma UBS, telefonou para um médico que deveria estar no plantão atendendo a 16 pacientes naquele seu turno, e perguntou o motivo da ausência. Seu gesto foi intencionalmente filmado, o ato virou peça de comunicação e viralizou. Simples assim. Na verdade, não tão simples. O gesto carrega uma limitação. Quando perguntado pela reportagem da Folha de S. Paulo sobre a atitude, Daniel disse que é gestor, foi contratado pela população e estava fazendo valer as expectativas. Ótimo! Mas fechou de forma trágica: não sou político! Ahhhhhh é sim. E é político demais. A exemplo de tantos outros que têm afirmado isso, se não for político o gesto de enfrentamento da aparente BOA política vai ser rapidamente engolido pela má política. Pode apostar. Assim, que fique claro: prefeito é POLÍTICO, e esse tipo de gesto é político. É a boa política, de quem resolve enfrentar o que a má política construiu nesse país.

Para não deixarmos de dar a versão de parte dos médicos de Caxias, o ausente alegou que estava em greve. A reivindicação do sindicato não está associada, como o prefeito afirma no vídeo, à falta de pagamento. Eles estão em dia. E convenhamos: mais de cinco mil reais por 20 horas semanais é um valor razoável  em nossa realidade. Não está satisfeito? Lute na justiça, se organize sem sacrificar o cidadão de acordo com a lei ou peça demissão – vá lá! Coragem! Mas não é disso que estamos falando: parte dos médicos está revoltada porque não quer bater ponto, bater cartão, cumprir horário, dar expediente completo, honrar o compromisso. E fazem greve por isso. Querem se livrar dos pacientes e fugir da UBS, ignorando o plantão e, aparentemente, faltando com a qualidade. As consultas têm, em média, 15 minutos. O que é isso? Termino com algumas outras perguntas: quantos desses profissionais da saúde devem reclamar de corrupção? Quantos devem chamar os políticos de bandidos? Quantos devem afirmar que têm muito ladrão na esfera pública? Quantos afirmam que não são políticos pra fugirem da pecha de corruptos? Se TEMPO é DINHEIRO, quem está roubando? Um dia a gente avança, e por enquanto: que prefeitos, vereadores, promotores e cidadãos enfrentem os maus profissionais da saúde, que no caso dos médicos têm um impacto negativo terrível sobre a saúde da sociedade. Só isso…