Existe lógica política em São Paulo-SP? Uma mera tentativa de explicação.

Existe lógica política em São Paulo-SP? Uma mera tentativa de explicação.

Humberto Dantas

13 Fevereiro 2017 | 07h09

Num exercício capaz de render algo do ponto de vista acadêmico, seria possível afirmar que a cidade de São Paulo, a despeito de toda influência que pode sofrer dos cenários estadual e federal, tem uma lógica própria marcada por uma divisão entre o PT, a direita mais conservadora e o PSDB. No gráfico abaixo é possível verificar o quanto esses três grupos oscilam, e o enfraquecimento de um ou outro finda representando a ascensão de algum adversário. Nesse sentido, perceber os vazios deixados por grupos relevantes pode explicar campanhas com mensagens bem sucedidas. Os pontos pretos que marcam alguns grupos em determinados anos representam rupturas ou possíveis divisões de votos entre candidatos que arbitrariamente, para os fins da análise, foram somados em um mesmo grupo. São os casos de: em 1992 Aloysio (PMDB) e Feldman (PSDB); em 2000 Marta (PT) e Erundina (PSB – na célebre chapa que teve Temer como vice pelo PMDB), também em 2000, Maluf (PPB) e Tuma (PFL) e; em 2016 Haddad (PT) e Marta (PMDB). Em 2008 o ponto em destaque do PSDB tem como objetivo lembrar o racha do partido entre seu candidato Geraldo Alckmin e o então prefeito do DEM, Gilberto Kassab, reeleito após ter sido escolhido como vice na chapa de José Serra em 2004.

A trajetória do PSDB mostra que a cidade se dividia, na década de 90 entre a direita mais conservadora e o PT. Apenas em 2004 os tucanos se mostram efetivamente competitivos e vencem com José Serra, passando para o segundo turno com larga vantagem depois de ameaçarem Paulo Maluf em 2000 com Geraldo Alckmin. Na eleição seguinte o racha interno enfraqueceu fortemente a legenda, que vai se recuperando nos anos seguintes, fenômeno marcado de forma emblemática pela vitória de João Dória em primeiro turno em 2016.

Por sua vez, o PT tem resultado negativo após o governo de Erundina nos pleitos de 1992 e 1996, mas diante do desbaratamento da máfia dos fiscais durante o governo de Celso Pitta, e a exploração da má imagem de Maluf atrelado ao seu aliado, vence em 2000. Erundina saíra do partido e disputara a prefeitura pelo PSB, e somada à Marta atingem quase 50% do eleitorado no primeiro turno. A partir de então, a legenda só perde espaço de forma lenta e gradual: cai em 2004, perde mais espaço em 2008, desoxigena no primeiro turno de 2012 – apesar de vencer as eleições na segunda rodada, talvez mais pela rejeição a Serra – e em 2016 vê a ex-prefeita Marta (PMDB) deixar a legenda e mesmo com a soma de seus votos aos de Fernando Haddad (PT) – em mero exercício exploratório – aponta nova e discreta redução.

Por fim, o que se costuma chamar na cidade de uma direita mais conservadora. Extremamente forte em 1992 e 1996, perde potência e racha nas eleições de 2000 com as candidaturas de Maluf, que vai ao segundo turno, e Romeu Tuma – que se apresenta naquele ano como xerife. Em 2004 apresenta seu pior resultado com um enfraquecido Paulo Maluf, mas volta graças ao racha do PSDB com o fortalecimento de Gilberto Kassab – que aparecia como uma “nova forma do conservadorismo paulistano” se manifestar. O que poderia ser um ressurgimento desse perfil na cidade se perde nos esforços de o ex-prefeito fundar o PSD. Em seu segundo governo, perante o senso comum, sua imagem se associa mais à energia despendida com o novo partido que com a administração da cidade. Assim, já sob a figura de Russomanno (PRB), há queda expressiva em 2012 (onde Kassab apoia Serra do PSDB) e outro duro golpe em 2016.

A direita conservadora foi quem mais perdeu espaço nas últimas duas eleições, sobretudo porque parte desse grupo foi capturada pelo PSDB. Mas aparentemente o PT foi a legenda que não soube se manter unida e acentuou seu desgaste com a saída de Marta Suplicy para o PMDB – uma insatisfação que já se mostrava clara quando ainda de dentro do PT mandou Haddad gastar sola de sapato para conquistar votos em 2012. Os tucanos, e nesse caso João Dória Jr. e seu padrinho souberam se aproveitar muito bem desse cenário. Primeiro porque o governador de São Paulo drenou parte expressiva das legendas de direita para a aliança que garantiu maior tempo de TV numa campanha curta, em momento de desgaste político onde o “novo”/”diferente” fez a diferença. Segundo porque o discurso e as atitudes de Dória agradam parcelas mais conservadoras da cidade, sendo que alguns analistas já o comparam atitudinalmente a outro conservador que conquistou a cidade: Jânio Quadros, prefeito pela última vez nos anos 80.

Para 2020, a grande chave da cidade pode estar associada ao sucesso ou não do atual prefeito. Se for bem, com a desorganização simultânea dos dois outros grupos políticos, tem tudo para permanecer no poder. Se for mal, a cidade pode estar prestes a desvendar nova lógica política, ou ressuscitar grupos desgastados. Com quem? A direita conservadora será capturada por Dória? Ou ainda tem representantes? O PT pode reverter sua queda gradual? Ou a esquerda terá que repensar suas lideranças e reinventar discursos e grupos políticos?

SP eleições

Interessante que no exercício só existem três, das sete eleições, disputadas sem qualquer alteração de cor nos marcadores do gráfico – que indicam rachas ou saídas recentes de políticos importantes dos grupos considerados, se tornando adversários eleitorais. Em 1996 ganhou Pitta no segundo turno, com Erundina (PT) e Serra (PSDB) atrás na primeira rodada. Em 2004 ganhou Serra (PSDB) no segundo turno, com Marta (PT) e Maluf (PPB) atrás no giro inaugural. Em 2012, Serra (PSDB) passou ao segundo turno em primeiro lugar, mas foi Haddad (PT) quem venceu as eleições, com Russomanno (PRB) em terceiro.

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