Em Campo Limpo Paulista não bastou ser PROS, pois muitos são “do contra”

Humberto Dantas

18 Setembro 2017 | 07h07

Existe um partido que tem hino oficial. Sinceramente não sei quantos mais tem. Curiosamente o PROS, Partido Republicano da Ordem Social, tem música de 2013 que fala em prol do povo e em prosperidade, fazendo trocadilhos ou identificando a música com a sua sigla. Mas uma parte da música é “genial”: “eu sou do PROS, não posso ser do contra”. O que isso significa? Ser do contra, por vezes, é transformar, é mudar, desafiar, coisas que partidos precisam pregar. Mas paciência, governismo é traço cultural, e vai ver a canção carrega mensagem velada de apoio.

Na prática a música por vezes é outra. E lá se vai mais um prefeito cassado por câmara municipal na história do Brasil. Pelo Legislativo que as pessoas insistem em ler como FRACO. Fraco nada! Pode se vender, pode ser dissimulado, pode se enredar em tramas maiores que suas cercanias, mas não existe essa de cooptado. O Legislativo tem força e quando menos se espera ele mostra as garras. Seja para o bem, seja para a interpretação de que faz o mal.

Em Campo Limpo Paulista, cidade com mais de 80 mil habitantes entre Jundiaí e Francisco Morato, encrustada entre a Grande São Paulo e a Grande Campinas, o prefeito perdeu o mandato depois de a Câmara abrir comissão processante, ou comissão especial de investigação (o equivalente à CPI) pedindo a sua cassação. O médico Japim Andrade, foi eleito em 2016 com uma vantagem de 12 votos. Derrotou um ex-prefeito e teve como vice um ex-vereador. Conquistou mais votos em 2012, quando foi o segundo colocado, que em 2016 quando venceu com pouco mais de 30% dos votos. Em 2016 deixou o PT – não sei se por conta da imagem negativa da legenda, ou porque em cidades os partidos pouco importam, pois até do PSDB já foi – ingressou no PROS, mas o hino da legenda de nada lhe serviu, pois a Câmara foi contra seu mandato.

As matérias mais frias sobre o caso dizem que ele foi removido do comando da cidade porque um cidadão protocolou denúncia em que ficava comprovado que um funcionário da Prefeitura era usado para levar sua mulher ao salão de beleza e seu filho à escola. A defesa alega que o servidor estava em horário de almoço, mas a sustentação parece frágil nesse sentido. Assim, o motivo aparenta ser bastante republicano, mas deveria servir para todo tipo de político no Brasil. Pensar que na década de 90 trabalhei numa fundação em que o motorista de um deputado estadual, com carro oficial, buscava quase todos os dias a esposa do parlamentar na porta do escritório. Qual o limite para isso?

Como defesa, encontrei um texto no site do PT, de onde Japim saiu para “ser PROS, sem ser do contra”, defendendo que o ex-prefeito foi vitima de uma grande armação envolvendo o vice e um conflito entre os dois. As versões são sempre variadas, e todas devem ser respeitadas. Mas o fato é que a trama, ou o fato que envolveu o legislativo mostram que o parlamento tem força sim. Na votação, que concedeu placar mínimo necessário à saída de nove dos treze votos, um vereador que deveria ser considerado como faltante, pois apenas fez uma viagem, foi substituído pelo suplente. Essa posse é legal? O caso se assemelha, em termos de possibilidade de irregularidade na decisão, àquele de Sorocaba que já relatamos aqui. E que fiquem mais algumas lições: ser PROS por vezes é enfrentar quem é do contra;  Legislativo é forte, ou ao menos tem poder para ser e; vice é algo que está entalado na goela de muito titular por aí – fiquem atentos aqueles que desejam compor ano que vem. E respondam a pergunta: foi golpe ou não?