Colocando a mãe no meio

Humberto Dantas

09 Fevereiro 2015 | 07h15

Desde criança aprendemos que envolver a mãe em discussões é apelar para um expediente que termina em guerra. Recentemente, até mesmo o Papa Francisco disse que se xingassem sua mãe ele partiria para a ignorância, buscando mostrar que se trata de um “homem comum”, com sentimentos que extrapolam aquilo que muitos esperam de um líder religioso e chefe de Estado.

Proteger a mãe, no entanto, não significa coloca-la onde quisermos. Sejamos claros: uma coisa é zelar pela imagem de quem nos “pôs no mundo”, a outra é confiar a ponto de desafiar a barreira entre público e privado. Infelizmente, quando essa separação não é clara, a sociedade tem “o direito” de criticar a mãe alheia. E começamos assim pela pergunta: mãe pode ser nomeada por prefeito? Depende. Decisões do STF apontam que para determinados cargos políticos tais indicações não significam nepotismo – já tratamos disso quando falamos de uma cidade cuja realidade foi retratada pelo programa semanal CQC. Assim, se o cargo é de confiança, nada mais razoável que pensar que o prefeito confia em sua mãe – maldita confusão que fazemos entre o público e o privado. Mas vamos lá: digite no Google “prefeito nomeia a mãe” e em menos de um quarto de segundo terás quase meio milhão de referências.

Na primeira delas o RD News mostra que em 2014 a prefeita de Barra dos Garças-MT nomeou sua mãe para a pasta da Assistência Social. A atividade da contemplada? Empresária. De qual ramo? Loteria! Pra sorte de quem sonha em contar com algum tipo de política de assistência. E ninguém poderá reclamar que a escolhida não entende de sorteio, se é que essa é a forma ideal para disseminarmos políticas dessa natureza. A ação é inspirada na tradição, não apenas brasileira, mas local. A prefeita alegou que sua escolha estava pautada na experiência de acompanhamento. Sua mãe observava de perto as ações de sua avó, que pelo visto ocupou o mesmo posto quando seu tio foi prefeito. Tradição total!

E enquanto o mandonismo local colocava na boca da prefeita o sentimento de que nada ocorreria, de que não seria punida, o mesmo não se passava em Jussara, interior do Paraná. Por lá, no final do ano passado, um ex-prefeito foi condenado a pagar multa ao município por nomear a mãe para cargo comissionado – o que pode, de acordo com a Súmula Vinculante 13 do STF, realmente resultar em punição. A defesa vai recorrer e alega que tão logo a justiça definiu os parâmetros para nomeação a mãe foi exonerada – deve ser difícil demitir a mãe, né? Mas paciência, o fato é que ela ficou por lá durante três longos anos.

E a despeito da necessária separação que resistimos em fazer com relação à lógica pública e privada, os exemplos seguem aparecendo. Em Mafra, interior de Santa Catarina, o mais jovem prefeito do Estado, nomeado com menos de 25 anos, mostrou que essa história de esperarmos muito da juventude cai por terra se não debatermos e educarmos nossos cidadãos. Por lá, a mãe foi parar na mesma pasta que a colega de Garças. Mas o menino foi além e completou a fatura agradando sua companheira: colocou a sogra na pasta de Obras. Afinal de contas: sogra também é mãe, né? Fecha a fatura a mãe do prefeito de Franco da Rocha, São Paulo, que estampa publicação em entrevista onde fala dos desafios de ser secretária de governo. Com foto e tudo o mais, para orgulho do filhão, fica claro que o principal desafio da secretaria é estratégico: coordenar ações, planejar o município e buscar alternativas para os problemas da cidade. E assim, com tamanha responsabilidade, em quem mais poderíamos confiar? Na mamãe! É claro.

Ps. Note que não falamos no nome de mãe alguma, em respeito à essa tradição de não envolvermos o nome da mãe alheia em críticas, mesmo que estas estejam associadas ao universo público.