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Amor politicamente correto

Eder Brito

19 junho 2014 | 12:09

O amor tem razões que a própria razão desconhece. O amor na política é ainda mais complicado. Quando se misturam dois assuntos tão passionais, certamente o bicho ganha contornos mais indecifráveis, com muito mais de sete cabeças. Não deve ser extremamente difícil encontrar casos representativos dessa complicada relação na política nacional. Mas existem dois municípios paulistas em que esta ligação é mais forte.

Em Suzano, na região metropolitana de São Paulo, há um casal famoso na história política da cidade. O Deputado Estadual Estevam Galvão (DEM) está no terceiro mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo, mas já foi Prefeito da cidade por quatro vezes. Graças aos laços matrimoniais, Estevam continua tendo presença forte e garantida no governo municipal. Sua esposa, Viviane Galvão Domschke de Oliveira (também filiada ao DEM) foi eleita vice-prefeita de Suzano, na chapa que alçou Paulo Fumio Tokuzumi (PSDB) ao cargo de prefeito. Além de vice-prefeita, Viviane acumula também a função de coordenadora do SASPE – Serviço de Ação Social e Projetos Especiais de Suzano. Casada com o Deputado desde 1976, a vice-Prefeita ainda confunde alguns funcionários que estão há mais tempo no serviço público municipal. O número de pessoas que ainda se dirigem a Viviane como “primeira-dama” nos corredores e dependências da Prefeitura não é pequeno. O constrangimento é ainda maior, quando o “primeira-dama” é dirigido à Viviane na presença de Nilce Ramos Tokuzumi, esposa de Paulo, esta sim a atual ocupante da posição na hierarquia do município. Força do hábito. Força dos laços políticos.

Em Queluz, ainda em São Paulo, mas ali na divisa, quase no Rio de Janeiro, há mais estórias envolvendo casais locais famosos. A atual prefeita Ana Bela Costa Torino, a Bela é esposa de José Edison Torino, prefeito de Queluz por três mandatos nos anos 80 e 90. Bela se candidatou em 2012, depois de uma tentativa frustrada em 2008. O marido também havia se frustrado em 2004 e 2000. Foram três eleições frustradas, até que o casal conseguiu “tirar” o PSDB de Mário Fabri Filho e José Celso Bueno da Prefeitura e voltar ao poder executivo em 2013. Ainda que corram na cidade os boatos de que o relacionamento entre os dois é problemático, o amor pela política venceu barreiras e voltou à Prefeitura. Razões que a própria razão desconhece.

Não há como julgar tão rapidamente se aumenta a eficácia ou a influência negativa da ação política quando ocorre este tipo de laço, principalmente porque estamos falando de apenas dois municípios. Mas será que o eleitor vê isso com bons olhos? Considerando o histórico eleitoral dos pombinhos aqui citados, parece que sim. E eles só chegam lá com votos. Votos de continuarem juntos, na alegria, na tristeza, na saúde, na doença, na campanha, na Câmara Municipal, na Secretaria, na Prefeitura, na Assembleia. E com votos dos queluzenses e suzanenses, neste caso.