Humberto Dantas

29 Fevereiro 2016 | 07h09

As últimas semanas nos reservaram notícias tenebrosas no campo da aviação. Em Cumbica, uma aeronave da VASP leiloada faz três anos e da qual diversas peças já haviam sido roubadas sumiu. Isso mesmo: desapareceram com a carcaça de um Airbus A300. O arrematante de outro avião teme que sua compra se esvaia pelo mesmo ralo. Na verdade, a reportagem da Jovem Pan mostra que o cidadão usou o verbo “abduzir” para tratar de seu temor – lembremos que a palavra não está exclusivamente associada à subtração por meio de ações extraterrestres.

Num outro capítulo preocupante, a companhia aérea Azul informou que a crise a faz rever custos, e devolver 20 aviões. Não se trata de abdução, mas sim do efeito da crise e consequente desaparecimento de demanda. Triste realidade.

Deixando o campo dos aviões, sem abandonar a esfera da aviação, lembremos que em 2014 um aeroporto, construído faz anos na cidade de Cláudio, interior de Minas Gerais, chacoalhou os debates entre presidenciáveis. Aécio Neves (PSDB) foi acusado de favorecer um tio com a desapropriação de terras familiares pelo estado que governava para a construção de uma pista asfaltada (e estrutura básica) de R$ 14 milhões. O familiar, à época, contestava os valores e as reportagens afirmavam que as chaves do local ficavam com ele. Aécio, inclusive, utilizava-se do aeroporto quando visitava a região, mas a pista de pouso recebia, quando muito, um voo por semana.

Se esta estrutura era pouco utilizada, tem casos por aí em que efetivamente o aeroporto é fantasma. Em meio à crise econômica mundial iniciada na década passada, os cidadãos espanhóis se revoltaram com os gastos extraordinários com o que chamaram literalmente de “aeroportos fantasmas” espalhados pelo país. Estruturados, prontos pra uso, lindos e: inoperantes. Segundo reportagem, com belo material fotográfico, do portal ABC, em tradução livre: “grandes projetos financiados pelos contribuintes com dinheiro gerado no auge econômico da Espanha, agora simbolizam o esbanjamento que contribuiu para uma queda espetacular”. O destaque, mas não a exclusividade, era o aeroporto de Cuidad Real. Com uma das pistas mais largas da Europa e pronto para receber 2,5 milhões de passageiros por ano a reportagem nada localizou além de uma estrutura moderna, quase sem qualquer movimento.

Voltando ao Brasil e aos últimos dias, o cenário espanhol parece se repetir em São Raimundo Nonato, Piauí. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, 12 anos de obras, R$ 18 milhões torrados pelo estado e pela União e quatro meses de inaugurado, o local NUNCA viu um voo comercial. A pista ficou para cerca de 25 chegadas e partidas de aeronaves particulares, com um total de 80 transportados. Turisticamente falando o intuito era atender ao deslumbrante Parque Nacional Serra da Capivara, com potencial estimado em cinco milhões de visitantes por ano – mas que recebe 18 mil. O número sonhado é uma aberração, um disparate, um descontrole. Alguns dados mostram o motivo: o Museu do Vaticano, um dos mais importantes e movimentados do planeta, recebe cerca de seis milhões de visitantes por ano e o Louvre cerca de nove milhões. Em 2013, nos nove primeiros meses do ano, os dez parques naturais mais visitados do Brasil não tinham atingido, somados, quatro milhões de visitantes. Assim, se o aeroporto da Serra da Capivara esperava esse contingente potencial, ou foi justificado em otimismo cegado pela incompetência: micou! E o fato é que está lá: às moscas, e quem sabe aos mosquitos, com muito dinheiro público. Tanto quanto o parque: que de 270 funcionários tem hoje 40. A alegação maior é a crise. Mas nesse caso anda difícil acreditar apenas nisso. Voltando na reportagem espanhola, em falas que tratam de entender a cultura local: “quando se mesclam os políticos e os empresários temos uma má notícia (…) o aeroporto foi um total roubo (…) Ciudad Real é demasiada pequena para o que construíram. Era um roubo para fazer rico rapidamente um conjunto de políticos e empresários”. Qualquer semelhança é coincidência que o tempo mostrará.