A volta dos militares?

Humberto Dantas

03 Novembro 2014 | 07h18

Quando o PT chegou ao poder federal em 2002 uma combinação de dois fatores teve papel decisivo. O primeiro está associado ao desejo de mudança que encontrou resposta numa tentativa histórica da legenda e de seu candidato (Lula) se apresentarem como alternativa. Ou seja, o PT pode ter vencido pela insistência, pelo fato de se colocar como clara alternativa, por vezes radical. O PSDB teria feito o mesmo nos últimos anos de forma consistente? A eleição desse ano tinha tudo para cair no colo de quem plantou, mas quem não plantou não colheu. A presidente venceu sob a lógica do “muda mais”, ou seja, sem sair do lugar apontou que podia mudar. Se houvesse clara oposição teria sido diferente?

O segundo fator está associado à capacidade de o PT caminhar para o centro do ringue, aproveitando a insatisfação dos brasileiros em 2002. Arrefeceu radicalidades e criou um exército de órfãos de uma esquerda radical que findou se alocando em partidos pequenos. O combate numa lógica bipolarizada costuma ocorrer no centro. Mas o PSDB se deixou levar à direita – e olha que nasceu de centro-esquerda. E na direita não são poucas as tentativas de grupos pregarem aberrações, como a volta dos militares ao poder por meio de golpes infundados – para o bem da verdade o PSDB não dialoga com esses ideais. Mas as incertezas e ansiedades desse debate fazem com que alguns poucos milhares marchem carregando certezas. E são elas que precisarão ser deixadas para trás se o PSDB pretende efetivamente se firmar como a verdadeira oposição que deve ser construída e sentida pelos eleitores para o pleito de 2018. A parte que manda no PT abraçou pragmatismos e deixou radicalismos de lado – apesar de alguns “fantasmas do passado” ainda “estarem vivos” no partido. Ao PSDB caberá o mesmo. E olha que o governo de Dilma deu chances de sobra para os tucanos se consagrarem. Faltou o primeiro fator, e agora resta saber se haverá o segundo. O segredo assim é se opor, mas encontrar termos precisos e razão estratégica. Não parece possível aceitar com naturalidade gente pedindo a volta dos militares ao poder. Isso é uma aberração, que o PSDB parece reconhecer.

Assim, devemos reforçar que a única forma de um militar voltar ao poder é por meio de eleições – não à toa estamos assistindo à formação do PMB, o Partido Militar Brasileiro, que em seu hino fala em “soberania, democracia, igualdade e segurança”. As regras para estes cidadãos são um pouco diferentes, mas ainda assim nada impede que um membro da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica, respeitando limites institucionais, se candidate e governe. Foi o que ocorreu, por exemplo, com 33 vereadores em 2012, das mais diferentes patentes: de sargento a coronel, de cabo a capitão – e nas mais diferentes regiões do país. Tudo dentro da lógica democrática, como mostra o Blog Montedo, que acompanha a vida dos militares. Numa das cidades, Tabatinga (AM), a Câmara recebeu quatro militares: um cabo, dois sargentos e um capitão – três da reserva. Pudera: militares fazem parte da vida local, que fica na fronteira tríplice com o Peru e a Colômbia. Assim: organismos de defesa existem na cidade, e lá estão cidadãos das forças armadas e suas famílias.

Mas e prefeitos eleitos? O blog do Montedo diz que foram dois em 2012. O sargento Júlio Cesar, pelo PTB, venceu o pleito em sua cidade natal, Domingos Mourão, no Piauí. Bizarramente, em 2013 comeu uma quentinha e foi hospitalizado. Recuperado, acusou: “tentaram me matar, e foi gente próxima, pois não tenho relação com meus adversários”. O artefato utilizado teria sido veneno de rato. E a vida na cidade realmente não é simples: o ex-prefeito era um padre, acusado em 2011 de pedofilia.

Mas para os fins do que se discute atualmente no Brasil tudo indica que o segundo militar eleito prefeito em 2012, deste feita em cidade de fronteira com a Bolívia, merece mais atenção. Falamos especificamente do major da reserva Dúlcio Mendes, escolhido em pleito equilibrado na rondoniense Guajará-Mirim. Mas o que Dúlcio teria de tão especial no debate sobre manifestações que sonham com militares voltando ao poder contra o PT? Exatamente isso: ele é do PT. Algo contra? Imagina! Mais de sete mil cidadãos apostaram nele em 2012. E viva a democracia, enquanto ela está aí para ser vivida.