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A paixão e a lei

Humberto Dantas

16 junho 2014 | 08:09

Quando eu era moleque ficava encantado com as ruas pintadas para a Copa do Mundo, e não eram poucas não. O primeiro torneio que minha memória registra com clareza foi o de 82 na Espanha. Debutei bem: vi um dos times mais espetaculares da história jogando com a camisa amarela. Cada gol narrado por Luciano do Valle na Rede Globo a assinatura do jogador na tela. Muito legal! Mas também sou da geração que cresceu odiando, no “bom sentido”, o italiano Paolo Rossi. Isso até o natal daquele ano, quando um amigo de minha mãe me presenteou com uma camisa da Itália e eu corri marcando gols em série nas peladas e na sala: “é de Paolo Rossi”! Paixão é assim. Mas voltemos às ruas.

 

A Copa do Mundo no Brasil foi tão contestada que as ruas enfeitadas sumiram. Foi isso? O Fla x Flu da política nacional tirou do brasileiro a paixão pelo torneio? Ou teriam sido os manifestos? Não acho que seja esse o motivo único. Mas afirmo que nos entristecemos e passamos a desconfiar de que algo poderia dar errado na exposição de nossas emoções. Alguém depredaria uma casa enfeitada? Pode ser que sim. Então nos retraímos? Pode ser que sim. Ademais, alguns dirão que o dinheiro deu uma encurtada, e a desconfiança de alguns indicadores pode estar servindo de barreira. Será? Entre as copas de 1982 e 1994 a desconfiança também não existia? Na economia era fato. Assim como é fato também que nitidamente a alegria de 2007 em receber os jogos não é condizente com o clima presente. Se isso é bom ou ruim, as mais diferentes interpretações serão capazes de dizer. Fiquem à vontade.

 

Mas que não digam que morador de rua alguma não “deu um talento” no logradouro. O problema é que a coisa ficou tão rara e, ao mesmo tempo tão boa, nesse exemplo, que todo mundo está de olho na Rua 3, no bairro Alvorada, em Manaus. Ficou bacana mesmo! Por lá a galera se enfeita desde 2006, e dessa vez a estreia da seleção na Copa colocou, segundo estimativas, cinco mil pessoas ali pra ver o jogo. Uma beleza. Uma alegria só. Ou “só alegria”? Alegria de torcedor, mas também de pessoas que entenderam que isso poderia se tornar bom negócio. Moradores improvisaram vendas em suas garagens e parece que faturaram bonito. Faça uma conta meramente hipotética: 5.000 x R$ 10 (de consumo) já daria um belo dinheiro. Assim, os R$ 60 mil arrecadados e investidos na decoração não é coisa só de gente alegre com a Copa não. Tem a mente empreendedora fazendo negócio no passeio público. E aí os “mais chatos” diriam que muito do que se viu, e ainda veremos por ali, é fruto de pequenos desvios da lei. Em São Paulo de Kassab, por exemplo, a Lei Cidade Limpa permitiria tamanha “descaracterização viária”? Pode ser que não. E o comércio informal? Deixe de “ser chato”! Estamos num país em que a rua é a extensão das casas, e a paixão pelo futebol contagia até mesmo o Judiciário. Lembremos o magistrado paulista que entendeu que os marginais que invadiram o CT do Corinthians no começo do ano fizeram isso por amor e mereciam o perdão. Comparações exageradas à parte, a hora é de torcer, mas sem deixar de lado uma necessária análise do que é paixão e do que é a lei. Vai Brasil!