Temer já vai tarde (para a Ásia)

Temer já vai tarde (para a Ásia)

REDAÇÃO

01 Setembro 2017 | 10h27

Dawisson Belém Lopes é professor de política internacional da UFMG, onde integra o comitê coordenador do Centro de Estudos da Ásia Oriental.

O mundo está marchando aceleradamente para o oriente. Isso não é uma novidade. Mas se você não está preocupado com as consequências daí decorrentes para o Brasil, talvez seja porque – ouso conjecturar – ainda não está prestando a devida atenção.

Nos Estados Unidos, Barack Obama instituiu, nos primeiros anos da sua presidência, uma doutrina do “pivô asiático”, com balizas para a estratégia internacional de Washington.  Admitia-se tacitamente que a Ásia se tornara o novo centro de gravidade global, econômica e militarmente. Não tardou para que Laurent Fabius, chanceler da França, anunciasse a intenção de equipar as suas embaixadas na Ásia, de maneira que houvesse, já em 2017, mais diplomatas lotados em Pequim do que em Washington – medida sintomática do deslocamento de eixo de poder no século 21.

No Reino Unido, os diálogos diplomáticos com a Índia subiram de patamar. De forma inédita, Nova Délhi parece agora dar as cartas no relacionamento. As manifestações dos dois países, por ocasião do aniversário da partição do subcontinente índico, corroboram a visão sobre um novo equilíbrio de forças. Na Alemanha, a reaproximação com Moscou passou a ser perseguida como objetivo central da política exterior. Ao mesmo tempo, Berlim emite sinais inequívocos de que quer acercamentos com Pequim e Nova Délhi, recebendo com fanfarra os seus dignitários em viagens recentes à Europa.


E o Brasil?

Nesta semana, Michel Temer desembarcou na China, sob o argumento de que pretende alavancar as relações com a Ásia e os países BRICS. Trata-se, possivelmente, do mais elevado gesto de diplomacia presidencial de Brasília desde o impeachment de Dilma Rousseff.

Convém resgatar, no entanto, o pano de fundo contra o qual ele acontece.

O Brasil vem mantendo, em termos gerais, uma orientação tímida na sua política externa para o Sul e o Leste da Ásia. O subinvestimento afere-se por métricas diversas, que vão desde a relativa escassez de diplomatas lotados nas principais embaixadas e consulados da região até a ausência de representação ministerial em eventos pontuais – como no caso do Fórum “Belt and Road”, anfitrionado por Xi Jinping.

A falta de diretrizes claras e articuladas para a Ásia rendeu, inclusive, um puxão de orelha de embaixadores do Brasil em Tóquio, Nova Délhi e Pequim. Em carta encaminhada há cerca de um mês ao Ministro das Relações Exteriores, os experimentados diplomatas reivindicaram melhores condições para o exercício de suas funções.

Um dado eloquente sobre a baixa densidade das relações interestatais entre Brasil e Ásia está, por exemplo, na educação superior: entre os países contemplados pelo extinto programa Ciência Sem Fronteiras, um destino como a Hungria recebeu mais estudantes brasileiros do que a China, a Coreia do Sul e o Japão somados.

No tocante à composição das pautas de comércio externo com os mesmos três Estados orientais, a situação atinge o paroxismo. Numa reedição do pacto colonial em pleno século 21, o Brasil torna-se crescentemente um provedor de minerais e de proteína (soja, carne) para a Ásia, ao passo que importa todo tipo de manufatura – das mais simples e com baixa agregação de valor às mais sofisticadas e intensivas em tecnologia.

Finalmente, no referente ao BRICS, a falta de entusiasmo do governo brasileiro com a coalizão é perceptível, tendo sido relatada até por delegados estrangeiros, que cogitaram a provável saída de Brasília da iniciativa – tratada como “Braxit” – em artigos na imprensa internacional. A guinada retórica de Temer talvez não sobreviva a um exame amparado em empiria, que leve em conta os declinantes indicadores da cooperação intrabloco.

Dadas as macrotendências internacionais, já passou da hora, pois, de despertar do profundo sono diplomático e adaptar rapidamente as estratégias da política externa brasileira para o mundo “asiático” que vem por aí.