Sobre o inevitável fim do papel moeda

Sobre o inevitável fim do papel moeda

REDAÇÃO

20 Março 2017 | 12h34

Eduardo Diniz, professor da FGV EAESP e pesquisador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV

Lauro Gonzalez; professor da FGV EAESP e pesquisador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV

Mario Aquino Alves, professor da FGV EAESP e pesquisador do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo da FGV

 


Em artigo recente (Folha,05/03/2017) Helio Schwartsman abordou o tema de um mundo sem papel-moeda, ou desmonetizado, no qual pagamentos e recebimentos seriam executados por meios eletrônicos. Embora pareça menos importante atualmente, trata-se de um tema central nas discussões sobre o futuro do sistema financeiro e as inevitáveis mudanças que as tecnologias trazem para as relações envolvendo moeda. A ideia de um futuro próximo sem papel-moeda é consensual. A controvérsia passa a existir quando se discute os possíveis caminhos para esse futuro.

 

Apesar da complexidade do assunto, uma discussão inicial pode ser organizada a partir de duas visões divergentes sobre o tema. A primeira,que parece ter mais influência sobre o artigo de Schwartsman, defende um modelo centralizado, com um controle absoluto sobre todos os pagamentos realizados, o que traria um impacto positivo na eficiência dos meios de pagamento. A centralização implicaria  alta concentração de operações nas mãos de um número relativamente reduzido de empresas e uma estrutura de governança  com forte papel regulador e interventor dos bancos centrais e dos governos. A maior parte dos atores do sistema financeiro tradicional é adepta dessa visão, na qual, sem dúvida, a garantia do direito à privacidade seria um desafio.

 

A outra visão pensa a desmonetização não com base nos sistemas centralizados mas sobre diversos sistemas de pagamento funcionando em paralelo, com mecanismos de governança independentes. Essa visão compartilha uma postura crítica sobre o excessivo grau de concentração se o caminho trilhado for aquele geralmente defendido pelos bancos. As questões ligadas à privacidade são uma das críticas mais veementes, prova disso é que novos sistemas de pagamento estão sendo propostos por diversos grupos libertários e/ou ligados a movimentos sociais nos mais diversos cantos do planeta.

 

 

Se por um lado é possível argumentar que a escala desses movimentos alternativos é reduzida, se comparada ao gigantismo do sistema financeiro atual, por outro não se pode ignorar as muitas centenas de moedas digitais criadas apenas nesta década (ver uma lista em https://coinmarketcap.com), majoritariamente inspiradas na tecnologia utilizada pelo Bitcoin, que consolidou milhões de usuários com uma plataforma relativamente segura. Somem-se a essas também as milhares de “moedas sociais” existentes, tais como aquelas operadas pelos diversos  bancos comunitários no Brasil ou pelos bancos de tempo como os Fureai Kippu, no Japão.

 

Em relação à população mais pobre, vale uma observação em relação ao artigo de Schwartsman. Embora  a disseminação quase universal de celulares seja promissora, cumpre lembrar que bancarização não sinônimo de inclusão financeira. Tanto é verdade que pesquisa recente do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV e da Plano cde revela que 57% dos brasileiros das classe CDE possuem conta em banco, mas apenas 7% destes a utilizam mais de uma vez por mês.Inúmeros outros exemplos forneceriam evidências semelhantes,  ressaltando a necessidade de aumentar a qualidade dos serviços financeiros.

 

Enfim, como dito no início, o tema terá importância crescente na vida de todos, sobretudo pelo crescente acesso a tecnologias digitais por parte dos mais pobres. Ao mesmo tempo, haverá controvérsias devido aos interesses por vezes divergentes dos múltiplos atores envolvidos em atividades de pagamento. Grupos com visões sociedade distintas estão disputando a hegemonia sobre quais devem ser os caminhos para o inevitável fim do papel-moeda. Cabe às partes interessados debater e lutar o bom combate para que os caminhos trilhados produzam mais qualidade nos serviços e bem-estar social, ao invés de apenas aumentar a concentração em um mercado já carente de novos concorrentes.