Porque todo empreendedor deveria amar Geografia (e porque isso não acontece)

Porque todo empreendedor deveria amar Geografia (e porque isso não acontece)

REDAÇÃO

11 Outubro 2017 | 15h58

Eduardo Freitas é editor do MundoGEO, instrutor do GEOeduc e sócio-fundador do MDI e geoXchange.

Eduardo de Rezende Francisco é professor de Métodos Quantitativos, Geoinformação e Big Data da FGV-EAESP e da ESPM, fundador do Meia Bandeirada e do GisBI

 

A cena é típica: alguém fala sobre qualquer país um pouco ‘fora da caixa’ e ninguém sabe nem mesmo em que continente se situa: Belize, Georgia, São Tomé e Príncipe e por aí vai. Se perguntar a capital, então, o negócio fica pior ainda.


 

Formações de relevo, estações do ano, fenômenos climáticos, tudo isso faz parte do nosso dia-a-dia, mas é ‘grego’ para a maioria das pessoas.

 

Talvez pareça que isso não tem relação alguma com a forma como aprendemos Geografia nos bancos escolares. No entanto, ao avaliar a implantação de um novo ponto de venda, um empreendedor – não importa o tamanho do negócio – geralmente não sabe nem por onde começar uma análise usando dados de localização e sociodemográficos.

 

Mas por que isso acontece? Onde está o erro ao longo dos últimos anos de ensino de Geografia, seja no ensino básico, médio ou superior?

 

Bom, vamos por partes. Apesar de experimentarmos ‘fisicamente’ muito do que é ensinado nas aulas de Geografia – por exemplo, a passagem do dia e da noite, as mudanças no clima, etc – a maioria do conteúdo é repassada de forma mecânica, sem gerar engajamento e visão crítica dos alunos.

 

Salvo algumas raras e nobres exceções, os professores de Geografia ainda atuam de forma meramente expositiva, ‘despejando’ matéria para que os alunos decorem, usando depois o ultrapassado artifício da prova e – ainda – considerando que todos os estudantes aprendem no mesmo ritmo.

 

Mas se isso não funcionou nos últimos 10 ou 20 anos, por que daria certo agora, com alunos cada vez mais conectados?

 

A realidade é dura, mas estamos formando profissionais do século 21, usando ferramentas do século 20 e metodologias dos séculos 19, 18, 17 e por aí vai…

 

E mesmo que alguns professores até tentem ‘hackear a Matrix’ e subverter este modelo antigo, a burocracia do sistema e a falta de recursos acaba inibindo qualquer iniciativa de modernização da forma de ensino de Geografia no ensino básico.

 

No ensino médio, com a mais recente reforma, a Geografia perdeu ainda mais força e será diluída em outras disciplinas. Já no ensino superior, se não for um curso com uma ligação mínima com Geo, aí sim que essa ciência passa a ser totalmente ignorada.

 

E olha que todo curso deveria ter noções de Geotecnologia: Administração, Economia, Direito, Biologia, Arquitetura e praticamente todas as Engenharias são somente alguns exemplos. Além disso, mesmo quem atua em empreendimentos mais ‘simples’ também depende de um bom ponto, circulação de pessoas… Ou você acha que um carrinho de pipoca sobrevive em qualquer lugar?

 

Falamos sobre isso na conversa neste mesmo blog em Agosto de 2015, “Inteligência Geográfica – Por que os líderes deveriam aprender Geografia?”, em que discutimos o desafio cultural de dar “consciência geográfica” para os líderes, agora mais especificamente os empreendedores. Disponibilidade existe, proatividade talvez nem tanto.

 

Estamos passando por uma mudança radical no mercado de trabalho, na qual os profissionais vão deixar de trabalhar em empregos formais e cada vez mais serão empreendedores ou trabalharão por projetos. Informação geográfica em nossos tempos de Big Data existe aos borbotões, e cabe ao empreendedor saber tirar proveito disto para tomar melhores decisões. A perspectiva espacial é fundamental e potencializa a visão holística do território.

 

Empreendedores da área de Geotecnologia já possuem uma ‘inteligência geográfica natural’, pois para eles é intrínseco usar dados e ferramentas geoespaciais para analisar um novo negócio, ponto de venda, expansão… Além disso, sabem trabalhar com matéria-prima gratuita (imagens de satélites, dados vetoriais secundários, modelos digitais de terreno) e softwares livres que estão a disposição de qualquer um.

 

Mas e para todos esses empreendedores de outras áreas que estão entrando e vão entrar no mercado, sem um mínimo de base, desde a Geografia básica até noções de análise geográfica?

 

A má notícia é que, pelo andar da carruagem, no longo prazo essa realidade tende a se manter. A boa notícia é que, no curtíssimo prazo, dá para os empreendedores retomarem essa paixão perdida pela Geografia…

 

Como? YouTube, blogs, vlogs, webinars, cursos online, moocs: o que não falta é conteúdo disponível na web, gratuitamente ou por um valor bem em conta, para que qualquer pessoa comece, hoje mesmo, a amar a Geografia e contar com todo o poder da inteligência geográfica.

 

Vamos juntos?