O G20 e a oportunidade do Brasil retomar a parceria estratégica com a China

O G20 e a oportunidade do Brasil retomar a parceria estratégica com a China

REDAÇÃO

31 Agosto 2016 | 07h44

Ligia Maura Costa, Advogada e Professora Titular do Departamento de Fundamentos Sociais e Jurídicos da FGV-EAESP

 

Nas últimas décadas, profundas mudanças transformaram a geopolítica mundial. A atual ordem internacional enfrenta desafios e questões cada vez mais complexas, tais como, instabilidade financeira, mudanças climáticas, segurança alimentar, desenvolvimento econômico sustentável, protecionismo comercial, apenas para citar essas. Em 2008, com a crise financeira mundial, despontou uma nova estrutura de governança global: o G20 (Grupo dos Vinte). Nos dias 4 e 5 de setembro, a China sediará a reunião dos líderes do G20, na cidade de Hangzhou, com a presença do atual presidente Michel Temer, que terá um encontro bilateral com o presidente chinês Xi Jinping. Nessa ocasião, será de importância vital para o Brasil retomar e fortalecer as bases da parceria estratégica com a China, iniciada em 1993.

 


No final dos anos 90, durante a crise financeira asiática que se alastrava pela Rússia e pela América Latina, surgiu a necessidade da melhoria na coordenação das políticas econômica e financeira, a nível mundial. A criação do G20 em 1999, como um fórum informal, tem na sua base os esforços para restaurar a estabilidade financeira internacional. Além disso, sua concepção foi uma primeira resposta ao surgimento de um mundo mais multipolar. Num curto período de tempo, melhor dizendo desde a crise financeira de 2008, o G20 saiu de uma fase de quase total obscuridade para uma posição central do palco em tema de governança econômica global. Hoje, o G20 é uma plataforma eficiente para os líderes mundiais na discussão de análises econômicas e políticas globais.

 

Relação estratégica significa desenvolver uma parceria estável de cooperação mútua de longo prazo. O modelo de relação estratégica entre países engloba uma série ampla de encadeamentos bilaterais: da defesa à educação, da saúde ao desenvolvimento, das relações econômicas e comerciais aos investimentos, sem esquecer de questões relacionadas à defesa e segurança. Embora diferentes em várias formas, Brasil e China compartilham algumas identidades comuns de países emergentes interessados em promover suas próprias ascensões econômica e política na arena internacional. Ainda, ambos são atores regionais e com grande potencial global. Há outras áreas de cooperação entre os dois países, mas o conceito de parceria estratégica requer fundamentos mais sólidos e realistas. Embora uma relação estratégica tenha sido iniciada em 1993 entre a China e o Brasil, considerada como um modelo de cooperação Sul-Sul, o fato é que essa parceria hoje é uma relação assimétrica e pode inclusive ser considerada como um modelo de cooperação Norte-Sul, no qual a China desempenha o papel do Norte, como país exportador de capital e de manufaturados enquanto o papel do Brasil é de proporcionar recursos naturais. De fato, o Brasil exporta para China commodities – em especial soja em grão e minério de ferro – e adquire manufaturados. O constante desequilíbrio comercial é apenas uma das evidências da assimetria que se afirma aqui. Até o momento, a relação comercial entre ambos foi mais relevante para o Brasil do que para a China, já que o Brasil sequer faz parte da lista dos dez maiores parceiros comerciais da China; enquanto que, já há algum tempo, a China é o maior parceiro comercial brasileiro. No longo prazo, o Brasil não pode continuar com esse padrão de relação bilateral, embora no curto prazo as exportações de commodities para China tenham ajudado o país no processo de estabilização econômica.

 

Num ambiente internacional altamente competitivo, no qual as negociações de acordos preferenciais de comércio se intensificam a cada dia e alteram o panorama do comércio mundial, intensificar parcerias estratégicas é uma atitude necessária. Como o Brasil e a China não fazem parte do Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento (TTIP) nem do Tratado de Associação Transpacífico (TPP), os chamados mega acordos preferenciais de comércio, há uma janela de oportunidade para que a parceria entre eles possa voltar a ser realmente estratégica. Não há, porém, tempo a perder, já que o real objetivo do TPP ainda não foi alcançado, que é a criação de uma área de livre comércio Ásia-Pacífico, incluindo todos os países da região, inclusive a China e a Índia.

 

Uma verdadeira parceria estratégica entre Brasil e China seria uma oportunidade relevante para ambos os países de mostrarem sua vontade de promover a cooperação num amplo conjunto de áreas, que transcendem o campo econômico exclusivamente, embora a intensificação da relação entre eles, em decorrência de investimentos cruzados entre empresas por exemplo, possa promover um impacto econômico muito maior do que o de alguns acordos preferenciais de comércio. Para o Brasil, uma parceria estratégica com a China colocaria o estado chinês numa posição hierarquicamente superior em relação a outros parceiros brasileiros. Por sua vez, para a China ter o Brasil como parceiro estratégico, colocaria o país num grupo de ação prioritária para os interesses chineses. A próxima reunião de Cúpula do G20 é uma oportunidade de ouro para o Brasil e, também, para a China, de enfrentarem o desafio de retomar a parceria estratégica e criarem condições efetivas para que essa relação prospere simetricamente.

 

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