Contra o ódio político e em defesa da crítica democrática

Contra o ódio político e em defesa da crítica democrática

REDAÇÃO

27 Outubro 2015 | 15h27

Marcos Fernandes, Economista e professor do Departamento de Planejamento e Análise Econômica da EAESP/FGV.

Marco Antonio Carvalho Teixeira, Cientista Político e professor do Departamento de Gestão Pública da EAESP/FGV onde é vice-coordenador do curso de Administração Pública.

 

Aprendemos com o professor Oliveiros Ferreira, polêmico, gramsciano em seu pensar, conservador no seu agir (apoiou o golpe de 1964 com uma visão reformista à direita, castelista) a entender um livro que é pouco lido, mas o desempoeiramos. O livro chama-se Psicologia de Massas do Fascismo, de Wilhelm Reich (1897-1957), mais conhecido como médico e psicanalista, discípulo rompido de Freud e propositor de polêmicas e interessantes teorias sobre sexualidade e poder (recomendo a leitura de A Revolução Sexual, onde o autor já critica o conservadorismo bolchevista, como no primeiro livro citado, onde chama o bolchevismo de fascismo vermelho). No primeiro livro ele tem como foco principal, contudo, o nazi-fascismo. Por que nos lembramos dele? Bem, que falem os fatos antes do ensaísmo pretencioso que por ora propomos.

No sábado (24/10), um grupo de orientação notoriamente antipetista ao saber que Fernando Haddad seria sabatinado acerca dos três anos de sua gestão pela Rádio CBN no auditório da Livraria Cultura, se dirigiu ao local para protestar contra o prefeito. A principal autoridade do município tem tido dificuldades em se movimentar pela cidade e até mesmo participar de eventos públicos sem que seja hostilizado. As razões do ódio e da tentativa de eliminação simbólica se iniciam na discordância ideológica, passam pelo problema da corrupção (de percepção apenas moralista) e chegam também a restrições sobre escolhas de políticas públicas por parte da gestão municipal. Divergências que se resolveriam no debate, ou no processo eleitoral, encontram a violência e a irracionalidade como respostas imediatas. O ápice desse episódio ocorreu quando o secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Eduardo Suplicy, foi verbalmente agredido por manifestantes quando chegava ao local: os manifestantes aos gritos o condenavam simplesmente por pertencer ao PT.

No último domingo (25/10), em Divinópolis (MG), uma jovem adolescente, portanto uma faca, furou o “Pixuleco”, um boneco do ex-presidente Lula, criado por grupos antipetista, que usa roupa de presidiário e ostenta o número 171. Vale lembrar que esse mesmo boneco, que circula em manifestações pelo país,  já havia sido levado a mobilizações antipetista no viaduto do Chá, área central de São Paulo, e também foi alvo de ação semelhante no último mês agosto. Naquele momento, a ação também de uma jovem adolescente simpática ao PT quase desencadeou um conflito de rua generalizado entre simpatizantes e detratores do ex-presidente da República, caso a polícia não intervisse rapidamente.

Evidentemente o primeiro fato, dado o tom agressivo, e pelo que soubemos não de debate racional e divergência de ideias, é mais grave do que a simbólica facada. Mas calma, o segundo fato também é grave. Reich apresenta um amplo argumento, na sua ambição de cientificamente (como ele dizia) analisar o fascismo com base na psicanálise. Sem o saber, fez um clássico de psicologia social, mesmo que se critique um pouco o exotismo de sua abordagem centrada na sexualidade como pulsão (embora concordemos em muitas coisas com ele). Mas o que fica para nós aqui desta obra é a mensagem básica de que uma democracia deve se basear na independência do indivíduo, liberdade individual, de desejos e responsabilidade, curiosamente tudo o que o fascismo tira das pessoas. Sim, inclusive a responsabilidade, pois autonomia não é valor neste sistema de mentalidades. Outro aspecto deste sistema de mentalidades: a violência contra outros indivíduos pode ser legitimada pelo Estado ou pelo status quo, como no caso extremo do maoísmo na Revolução Cultural ou dos nazistas civis mesmo, contra outros, o mal, os tortos, os errados, os “que não estão conosco”. Pois é, sim, mentalidades. Por isso também Reich é importante aqui. Os dois episódios encerram o trivial: ódio e mentalidade fascista. Não que à esquerda, entre petistas, alguns, não haja esse ódio. Erro também do outro lado. Quando não há diálogo racional, demonização e decodificação do mundo de forma maniqueísta, nós e eles, branco e preto, reprime-se a diversidade baseada no que deveria realmente ser fortalecido, o dégradé ideológico racional, a zona cinzenta que somente a modéstia dos que não são donos da verdade e dos fatos é capaz de ver. Pessoas que cospem ódio normalmente se acham donas da verdade absoluta. Elas, sem saber e movidas pelo não respeito à individualidade, pela mentalidade coletiva construída com base no zero e um, binária, podem estar a criar o ovo da serpente. Facadas em bonecos rapidinho viram em pessoas. Isso é prenúncio de guerra civil moçada! Suplicy, concorde ou discorde dele, é a antítese do totalitário. Ir na Livraria Cultura e não debater com ele é perder uma oportunidade de um bom papo; já o agredir, é chocar mais um pouco o ovinho esverdeado do ódio. Reich, sexualidade a parte, observa que a construção de dicotomias estereotipadas, com a demonização da liberdade individual em prol de “um bem maior” (Brasil Verde Oliva!?) é o primeiro passo para a organização de massas acéfalas. Outro aspecto de destaque em Psicologia de Massas do Fascismo: quando a sociedade normaliza as agressões. Ocioso dizer como isso funcionou de forma eficiente na Shoah do Século XX – ninguém previa campos de extermínio em 1930….. À esquerda e à direita, militâncias tradicionais e as nefelibatas, perigosamente “apolíticas”, podem estar a criar torcidas organizadas, na pior acepção do termo. Resta saber quando engendrarão o “Pacaembú 1995” nas ruas (quem não sabe o que foi isso, pesquise).

Está mais do que no momento de organizar um grande movimento público pelo respeito à crítica democrática. É preciso desarmar espíritos e isso começa com o combate ao uso de termos que suscitam o ódio político como “coxinhas e petralhas” e, com isso, estimular o debate construtivo. Não custa lembrar que a política é o espaço da construção de acordos e não da eliminação mútua como apontam alguns episódios que começaram a se avolumar mais recentemente na nossa história política. Nós, que escrevemos nas redes sociais, em jornais e fazemos comentários nas mais diferentes mídias, também temos que nos vigiar em defesa da diversidade de pensamento e da liberdade de pensar, confrontar posições e, se for o caso, mudar de ideia, é algo que apenas a democracia e a crítica democrática podem permitir.