Caso Volkswagen: nasce uma fábula

Caso Volkswagen: nasce uma fábula

REDAÇÃO

13 Outubro 2015 | 17h14

Aron Belinky é Coordenador do Programa Desempenho e Transparência do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da EAESP/FGV.

Assistimos nas últimas semanas ao surgimento de um marco na história da gestão empresarial: o caso da instalação, pela Volkswagen, de um software destinado a falsear os níveis de poluentes detectados em testes oficiais. Estamos diante de uma fábula empresarial a ser lembrada e relembrada, por anos a fio. O que torna esse caso excepcional não são apenas os números envolvidos mas o fato de reunir, num enredo único e emblemático, contundentes evidências de que o mundo dos negócios entrou em uma nova era, e que ignorar isso pode custar muito caro.

Comecemos pelos fatos: em 23 de setembro/2015, o CEO mundial do Grupo Volkswagen, Prof. Dr. Martin Winterkorn (é assim que o site da empresa se refere a ele), renunciou ao cargo, três dias após ter admitido publicamente que agências ambientais dos Estados Unidos “ao testar veículos diesel do Grupo Volkswagen haviam detectado manipulações que violam os padrões ambientais Norte Americanos”. Um dia antes, ele havia divulgado um vídeo em que se desculpava e pedia a compreensão e paciência dos consumidores.

No vídeo, o CEO também se dirige aos empregados do grupo, afirmando “não ser justo que os malfeitos cometidos por uns poucos lancem suspeitas e riscos sobre o trabalho honesto de nossos 600.000 trabalhadores”. No mesmo dia, nota da empresa informa que o software em questão foi instalado em algo como 11 milhões de veículos em todo o mundo, mas que ele interfere apenas em testes de bancada, não afetando a segurança, dirigibilidade, consumo ou emissões. Na mesma nota, a empresa informa que planeja provisionar 6,5 bilhões de euros para lidar com o problema, abatendo esse montante de seus resultados.

Nesses mesmos três dias, as ações da Volkswagen despencaram mundo afora, perdendo praticamente um terço do seu valor. Ou seja, a erosão na credibilidade da empresa e as expectativas sobre as consequências do caso fizeram sumir algo como US$ 28 bilhões dos bolsos de investidores e poupadores (para comparar, US$ 24 bilhões era o valor de mercado da Petrobrás, na mesma semana). Avaliações iniciais de especialistas estimam que os custos do gigantesco recall para “conserto” do software, somado às multas e indenizações decorrentes da fraude, podem custar entre US$ 6 e 18 bilhões.

Por que uma empresa do porte e reputação da Volkswagen criou um esquema assim? O que permitiu colocá-lo em prática? Como foi descoberta? O que isso nos ensina?

Aparentemente, o esquema foi um atalho para conquista de mercado: alguns motores diesel usados na Europa não atendem às exigências, mais restritivas, das autoridades ambientais e de saúde pública dos EUA. A regulagem dos seus sistemas antipoluição para os níveis americanos implicaria em perdas no desempenho dos veículos, diminuindo sua competitividade.

Desenvolver nova tecnologia seria um caminho incerto, caro e demorado. Mas a empresa encontrou uma saída: a regulagem “flexível” do sistema problemático, feita por um software proprietário da montadora, uma caixa preta não sujeita a inspeções externas. A solução foi dar ao software uma certa malandragem: ao detectar a situação de teste, ele muda automaticamente o sistema para o “modo limpo”. Passada a prova, volta ao “modo sujo”, entregando ao consumidor desavisando a potência prometida, mas ilusoriamente limpa. Em outras palavras, a empresa mentia seletivamente, para agradar diferentes públicos. Com tanta sofisticação, não há como alegar acidente ou descuido.

O esquema ruiu, ironicamente, pela ação de uma entidade que desejava promover o uso desses motores, entusiasmada com sua ótima combinação de limpeza e desempenho: o International Council on Clean Transportation, que com meros U$ 50.000 bancou uma pequena pesquisa na West Virginia University. Para provar como os veículos eram mesmo bons, os entusiastas realizaram um teste diferente, avaliando seu desempenho não nas bancadas habituais, mas na vida real, enquanto o veículo rodava por ruas e estradas. Encontrando discrepâncias enormes na emissão de poluentes, tentaram entender o que estava acontecendo e consultaram as autoridades do Estado. O novelo então se desenrolou, levando as autoridades a agir e forçando a empresa a admitir a fraude. Entre os testes iniciais e a eclosão do escândalo, se passaram 28 meses.

Nesta curta história, encontra-se um resumo da agenda focada pelo movimento da sustentabilidade empresarial. Movimento esse que, não por acaso, ganhou impulso no contexto da globalização e do estabelecimento da sociedade em rede. Para os desavisados que ainda o tratam como modismo, é hora de aprender com as fábulas.

Corporações e as pessoas que nelas trabalham são movidas pela busca de resultados, mas não podem (ou nem conseguem) obtê-lo a qualquer custo. Aproveitando-se de um privilégio tecnológico (a caixa-preta do software proprietário) dirigentes de uma grande empresa buscaram mostrar desempenho (ganho de mercado) burlando leis ambientais (uma conquista da sociedade em prol da saúde e bem-estar) e o direito do consumidor (que exige fazer escolhas bem informadas). O esquema foi descoberto por simples universitários (informação e tecnologia são cada vez mais acessíveis) apoiados por uma ONG articulada com as autoridades competentes (a sociedade em rede combinada ao poder do Estado). A divulgação do caso exigiu o posicionamento da empresa (não há como escapar da transparência) e gerou perdas vultosas no que ela tem de mais valioso (ativos intangíveis, como sua marca, reputação e confiança dos stakeholders). Os reflexos disso tudo destruíram valor (externalizaram perdas) para os investidores (ações desvalorizadas), empregados (risco de desemprego e perda de bem-estar), consumidores (veículos mais poluentes e desvalorizados) e para a sociedade (cuja saúde sofre com a maior poluição).

Pensando nas tantas iniciativas pela sustentabilidade empresarial que temos ajudado a construir ao longo dos anos, lembro da conhecida moral: “Quem avisa, amigo é”.

Hoje, mais que nunca, é bom para executivos, empresários e investidores conhecer o que dizem ferramentas como o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE/BM&FBOVESPA),  ISO 26000, Global Reporting Initiative (GRI), Indicadores Ethos e Relato Integrado, para ficar só nas mais conhecidas.