A erosão da democracia e suas vítimas

REDAÇÃO

23 Março 2018 | 22h23

Rafael R. Ioris é professor de História Latinoamericana na Universidade de Denver e autor de Qual Desenvolvimento? Os Debates, Sentidos e Lições da Era Desenvolvimentista.

 

Marielle Franco não viverá para ver o retorno ‘a plena democracia no Brasil. Marielle é a mais nova vítima da erosão da convivência democrática em nosso país. E embora as investigações sobre o assassinato ainda estejam somente começando, tudo indica que se trate de uma execução, muito provavelmente de viés político.

Lembremos que Marielle tinha uma longa, combativa e importante carreira na área da defesa dos direitos humanos, especialmente frente ‘as comunidades da zona norte do Rio de Janeiro. Mas recentemente, já como uma das vereadoras mais votadas, Marielle tinha se declarado de maneira altiva contra a intervenção militar na cidade e iria encabeçar a comissão de monitoramento dos agentes da intervenção no que se refere ao respeito aos direitos humanos.

Sejam os algozes membros de grupos de extermínio, das milícias que afligem tantas comunidades locais, ou mesmo membros das forças policiais militares, civis ou federais, é quase certo de que alguns desses atores estejam envolvidos no crime. E ainda que não console em nada ‘a familia de Marielle, assim como a de seu motorista, Anderson Gomes, assim como seus colegas de luta e militância, é urgente que os eventos envolvidos nessa chacina sejam apurados da forma mais pronta e rigorosa possível.

Para além da dimensão legal dos fatos colocam-se também, de maneira loquaz, os aspectos políticos que afloram dessa tragédia. E´aqui que a perspectiva histórica se coloca como importante.

Ainda que não qualquer comparação para com o regime civil-militar dos anos 60, 70 e início dos 80 em nosso país possa ser feita de forma linear, é inegável que temos presenciado uma crise sem precedentes do regime estabelecido na chamada Nova República. O nivel de legitimidade dos atuais mandatários é baixíssimo e percebemos uma disseminada sensação de quase inexistente representatividade das vontades e desejos da maioria da população.

Da mesma forma, junto ao alheiamento crescente da representação democrática, vimos ao aumento do viés autoritário do sistema político, assim como no debate da esfera pública e mesmo da própria convivência civil mais difusa. Frente a esse quadro de deterioração democrática, como entender os significados dos eventos do assassinato de Marielle e Anderson?

Lembremos que em março de 1968 o regime autoritário de então se encontra em uma importante encruzilhada, especialmente após o brutal assassinato do estudante Edson Luis de Lima Souto no restaurante Calabouço, no centro do Rio de Janeiro. O evento motivou uma eclosão de demonstrações contra o autoritarismo crescente, culminando na passesta dos cem mil, liderada pelo movimento estudantil, em junho do mesmo ano. A partir daí, o impasse entre a crescente mobilização civil e popular e o regime se aprofunda, culminando na decretação do AI-5, em dezembro e a longa marcha dos chamados anos de chumbo dos próximos anos.

Outro episódio simbólico do período, ocorrido na mesma cidade, foi a tentativa de atentado ao RioCentro, em abril de 1981, por mililtares contrários ao processo de abertura em curso. Nesse caso, e ainda que não sucedido, o evento gerou tal revolta na sociedade civil que ajudou a alicerçar mobilizações pelo retorno ‘a vivência democrática.

Vimos no dia de ontem que a morte de Marielle levou milhares de pessoas ‘as ruas demandando justiça ‘as vítimas, assim como maior transparência, participação e controle dos atores do estado, ou seja, maior democracia!

Será essa tragédia o novo RioCentro ou o novo crime do Calabouço? Será Marielle a vítima que fortalecerá a sociedade civil na restauração plena da nossa democracia ou será sua morte apagada pelo discurso de que precisamos ainda mais manu dura?

A resposta ainda não está dada. Esperemos que seja a primeira!