Doleiro operou R$ 28 mi da OAS fora do esquema na Petrobrás

Doleiro operou R$ 28 mi da OAS fora do esquema na Petrobrás

Youssef afirmou em delação premiada que planilha apreendida pela PF servia para contabilidade paralela da empreiteira e que dinheiro não tinha relação com esquema de desvios na estatal

Redação

18 Fevereiro 2015 | 18h36

Por Mateus Coutinho

Alberto Youssef movimentou cerca de R$ 28 milhões do que chamou de “caixa 2” da empreiteira OAS entre janeiro de 2013 e janeiro de 2014. Em sua delação premiada, Youssef afirmou que esses recursos foram movimentados à parte do esquema de desvios na Petrobrás. A quantia registrada consta de planilha apreendida na sétima etapa da operação, realizada em novembro do ano passado, quando foram presos executivos de construtoras acusadas de integrar um cartel que atuava na estatal.

Na planilha apreendida estão indicados valores, datas e os locais para onde o doleiro enviava ou até mesmo buscava dinheiro em espécie.

Youssef admitiu que operava o caixa paralelo da OAS e de outras empreiteiras, recebendo 3% de cada operação. Ao ser confrontado com a planilha de pagamentos, confirmou que algumas das siglas fazem referência a sedes da construtora e endereços residenciais em diferentes Estados para onde ele ou pessoas indicadas levaram dinheiro. O doleiro ressaltou, contudo, que “pelo que sabe” essas movimentações irregulares não têm relação com a estatal petrolífera.

Foto: Geraldo Magela/Estadão - 30.01.2006

Foto: Geraldo Magela/Estadão – 30.01.2006

Em seu depoimento, Youssef explica que os valores entre parênteses (conferir na planilha abaixo) indicam a “saída” de dinheiro da contabilidade paralela, isto é, a entrega de dinheiro em espécie, e os demais valores indicam a entrada de receita. Levantamento feito pelo Estado, considerando apenas os valores de entrada, mostra que a contabilidade paralela da OAS operada pelo doleiro recebeu durante todo ano de 2013 e até 15 de janeiro de 2014, R$ 28 milhões, dos quais ao menos R$ 23 milhões “saíram”, ou seja foram entregues em diferentes regiões do País.

VEJA TRECHO DA PLANILHA APREENDIDA PELA PF:

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“Vista da referida planilha,esclarece que pode identificar valores entregues na sede da OAS, o que é representado pela sigla ‘SP’; que a sigla RJ representa valores entregues pelo policial Jayme ‘Careca'(Jayme Alves de Oliveira, um dos ‘mulas ‘do doleiro e também réu na Lava Jato) junto a sede da empresa na capital fluminense”, detalha Youssef em sua delação.

Ainda segundo o delator, “a sigla POA refere-se a entrega de valores junto ao estádio do Grêmio Futebol Porto Alegrense onde a OAS mantinha um escritório e onde entregou R$ 66.000 e R$ 500.000”. A sigla, que aparece várias vezes na planilha, também faz referência a um “endereço residencial”, segundo o doleiro.

Youssef confirmou que seus carregadores de dinheiro também fizeram entregas em Minas Gerais, Salvador (BA), Maceió (AL), Natal (RN) e Recife (PE). O delator explicou que “dentre os locais de entrega também existiam endereços de destinatários desses recursos, e não de sedes da OAS”.

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O doleiro explicou em sua delação que a planilha foi elaborada por “José Ricardo, diretor ou gerente da empresa OAS ligado a área financeira e a fim de estabelecer um controle sobre os recursos movimentados pelo declarante”. O executivo da OAS José Ricardo Nogueira Breghirolli foi preso na Lava Jato e é réu na ação penal contra ele e outros cinco dirigentes da empreiteira. Procurada, a OAS afirmou por meio de nota que “nega veementemente” as acusações de Youssef.

A PF identificou várias conversas de telefone entre Youssef e Breghirolli, identificado no aparelho do doleiro como J.Ricardo, além disso, o executivo da OAS esteve 26 vezes no escritório de Youssef no centro da capital paulista, segundo os registros de entrada e saída utilizados pela PF para pedir a prisão preventiva de Breghiroli. A última visita do executivo ao local foi em 12 de março de 2014, poucos dias antes da deflagração da Lava Jato.

‘Assembleia’. O depoimento do doleiro reforça que o esquema operado por Youssef ia muito além da Petrobrás e que a planilha apreendida pelas autoridades ajuda a detalhar como eram distribuídos os recurso do caixa de propinas da OAS, uma das maiores empreiteiras do País. A própria PF já suspeitava do documento ao constatar que, em uma interceptação telefônica de 7 de agosto de 2013, Youssef fala com Jayme Careca que o “outro da assembleia” mudou o horário para as 11h30min. No dia seguinte, consta na planilha a entrega (“saída”) de R$ 150 mil ao lado da sigla “RJ”.

Operação. Na delação Youssef também explica como funcionava o esquema de lavagem de dinheiro no exterior que permitia a ele trazer os recursos ao Brasil. Ele admite que operava valores para OAS e outras empresas utilizando as contas da companhia Santa Tereza Services no banco suíço PKB, que ficam em nome de João Procópio, operador de contas de Youssef e réu na Lava Jato.

Por meio dessa conta, Youssef repassava a quantia para contas de outros operadores, como Leonardo Meirelles, apontado como testa de ferro do doleiro, que traziam o dinheiro de forma ilícita ao Brasil para que Youssef distribuísse nos endereços indicados pela OAS. O doleiro afirmou ainda que cobrava 3% do valor dos depósitos para trazer o dinheiro ao Brasil e entregar “em quaisquer lugares que fossem determinados pela empreiteira”, no País. Na planilha, as porcentagens recebidas pelo doleiro aparecem seguidas das siglas “conta corrente B” e “despesa de entrada”.

ABAIXO, O RESTANTE DA PLANILHA:

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