Voz que não pode calar

Voz que não pode calar

*Eloisa Arruda

16 Março 2018 | 16h34

Foto: Arquivo Pessoal

Marielle Franco, 38 anos, vereadora executada a tiros no centro do Rio de Janeiro. Teve o rosto desfigurado pelas balas. Seu motorista, Anderson Pedro Gomes, também morreu, vítima do mesmo ataque.

O assassinato a sangue frio de uma parlamentar, eleita por 46 mil pessoas – e, portanto, representante legítima da sociedade brasileira – é chocante sob qualquer aspecto. Se torna ainda mais ultrajante quando passamos a compreender o que os autores do crime pretendiam com essa morte tão estúpida.

Daí nosso espanto com parte das reações que tal crime provocou nas redes sociais.

Marielle, uma vítima da ação de bandidos, teve a morte celebrada por alguns. Foi citada como “merecedora” do crime, pois era “militante de direitos humanos” e “quem defende os direitos humanos gosta de bandido”, entre outras das muitas agressões que encontramos em toda a internet – postagens nas redes sociais, comentários de notícias, ataques diretos a quem estava chocado com o ocorrido e pedia justiça imediata.

Sim, Marielle era defensora e militante dos direitos humanos. Que são, basicamente, os direitos de qualquer pessoa. De todos nós, brasileiros, latino americanos, cidadãos de todo o mundo. São os direitos básicos de todos os seres humanos – como o direito à vida, à liberdade em todos os níveis, a não ser submetido a tortura ou castigo cruel.

São os direitos humanos que pregam que todos nós somos iguais perante a lei e, portanto, temos os mesmos direitos e deveres. A necessidade de se existir militantes e instituições de defesa dos direitos humanos decorre justamente de, ainda hoje, muitos desses direitos serem ignorados e violentados, por pessoas e autoridades que se julgam melhores do que os outros.

Marielle lutava por causas básicas da população, como a extensão do horário de funcionamento das creches municipais (para atender mães que trabalham até de noite) e pelo fim do assassinato puro e simples de jovens da periferia, baseadas – na maior parte das vezes – apenas na cor da pele. Denunciava abusos de policiais e outras forças militares. Questionava a matança indiscriminada nas comunidades, cotidianamente ignorada por todos. Era a voz que se erguia, ecoando a dos menos favorecidos.

A execução da vereadora é a morte de uma mulher negra, moradora da favela, escolhida como representante legítima por 46 mil pessoas e que lutava pelo bem de todos os moradores não só da região da Maré, mas de todo o Rio de Janeiro. Sua morte representa o desprezo aos menos favorecidos e a execução de todos os ideais e normas que fazem com que possamos ser considerados uma sociedade civilizada.

Hoje, assim como tantas outras vozes que se levantam, nós também depositamos confiança na investigação policial que está sendo realizada. Esperamos pela descoberta, veloz e eficaz, dos autores desse crime. E clamamos por justiça e por um basta! a esse ciclo de violência insana que se espalha por todo o nosso país e que nos vitima – a todos.

A luta de Marielle Franco, agora, precisa se tornar a luta de todos nós.

Sua morte não pode ter sido em vão.

*Eloisa Arruda é Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo, professora de Direito da PUC-SP e procuradora de Justiça aposentada do Ministério Público de São Paulo.