Veterano da Lava Jato diz que procuradores municipais que vaiaram Moro ‘têm por dever a defesa do patrimônio’

Veterano da Lava Jato diz que procuradores municipais que vaiaram Moro ‘têm por dever a defesa do patrimônio’

Carlos Fernando dos Santos Lima, da força-tarefa do Ministério Público Federal em Curitiba, base e origem da grande investigação, reage em sua página no Facebook à manifestação de quatro procuradores municipais durante palestra do juiz federal nesta terça-feira, 21

Ricardo Brandt, Luiz Vassallo e Julia Affonso

22 Novembro 2017 | 18h05

Reprodução do Facebook de Carlos Lima.

As vaias de quatro procuradores municipais ao juiz federal Sérgio Moro, ovacionado de pé por outros 800 em palestra sobre corrupção no Teatro Ópera de Arame, em Curitiba, nesta terça-feira, 21, provocaram forte reação de procuradores federais, promotores de Justiça e outros membros do Ministério Público, inclusive integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato.

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“Diante dos inegáveis fatos criminosos envolvendo a dilapidação do patrimônio público, fico preocupado com essa manifestação de procuradores que têm por dever a defesa desse mesmo patrimônio”, anotou em sua página no Facebook o procurador regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima, veterano da força-tarefa que desvendou cartel e propinas bilionárias na Petrobrás.

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“Sérgio Moro é um grande juiz. Ele engrandece a carreira do Judiciário”, seguiu Carlos Lima.

Os quatro vaiaram Moro durante o XIV Congresso dos Procuradores Municipais na noite de terça, 21. O juiz falou sobre o combate à corrupção. Ele foi avisado sobre a presença dos manifestantes no evento e não se opôs.

O coordenador-geral do evento, Miguel Kalabaide, procurador do município de Curitiba, disse que ‘apenas quatro vaiaram e 800 aplaudiram de pé o juiz Moro’.

“Desde o momento em que Moro confirmou sua presença no evento, quatro pessoas, com nome e sobrenome, anunciavam que queriam fazer a manifestação. “Não proibimos, eles (os quatro) entraram.”

O coordenador disse que comentou com Moro sobre a presença dos quatro e que poderia haver algum tipo de manifestação. “O doutor Moro não se opôs, desde que não atrapalhasse sua palestra.”

O site O Antagonista publicou a foto de um procurador municipal, Guilherme Rodrigues, que foi à manifestação a favor de Lula no dia em que o ex-presidente foi interrogado por Moro, em março.

Em sua página no Face, o procurador da República Carlos Lima escreveu. “Uma frase supostamente atribuída a Voltaire diz: ‘Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lá’. Concordo com ela e acho a liberdade de manifestação e de pensamento essencial à democracia. Isso, contudo, não me impede de dizer a esses procuradores de município que estão equivocados por misturarem suas preferências ideológicas com o combate à criminalidade.”

Carlos Lima escreveu. “Mas Sutherland já falava em identificação de segmentos sociais com criminosos do colarinho branco. Isso é exacerbado em nosso país pelo contexto político das investigações da Lava Jato.”

“Mas diante dos inegáveis fatos criminosos envolvendo a dilapidação do patrimônio público, fico preocupado com essa manifestação de procuradores que tem por dever a defesa desse mesmo patrimônio. Em outras palavras, lamentável!”