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João Vaccari Neto

Vaccari assumiu controle de propina quando virou tesoureiro, diz delator

Por Alberto Bombig e Ricardo Brandt

22/01/2016, 04h00

   

De acordo com depoimento de Milton Pascowitch, controle da operação de arrecadação de propinas coincide com a ascensão de ex-tesoureiro na estrutura do partido

Ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto foi criminalmente acusado por levar propinas ao partido. Foto: André Dusek/Estadão

Ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto foi criminalmente acusado por levar propinas ao partido. Foto: André Dusek/Estadão

As operações de arrecadação de propinas atribuídas pelo delator da Operação Lava Jato Milton Pascowitch ao ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto coincidem com a ascensão dele na estrutura do partido e reforçam as suspeitas de que o esquema de desvios e de corrupção na Petrobrás foi montado e sistematizado para atender também a interesses eleitorais e políticos.

Em interrogatório na Justiça Federal, o lobista Pascowitch afirmou anteontem, em Curitiba, que Vaccari assumiu o controle do pagamento de propinas ao PT dentro do esquema no mesmo ano em que foi escolhido para comandar as finanças da Executiva Nacional petista.

Segundo Pascowitch, no fim de 2009, ele foi apresentado a Vaccari pelo então diretor de Serviços da Petrobrás, Renato Duque, indicado pelo PT ainda na primeira gestão Lula (2003-2006). Na época, se deu a assinatura de um contrato de US$ 3 bilhões da empresa Engevix com a estatal.

Em novembro de 2009, a ala majoritária do PT, à qual pertence Vaccari, ganhou a eleição para a presidência do partido e o indicou para o cargo de tesoureiro da nova Executiva. Em janeiro de 2010, quando José Eduardo Dutra (morto no ano passado) assumiu o cargo de presidente do PT ele afirmou: “Ele (Vaccari) vai administrar o dinheiro do partido e aplicá-lo de acordo com as orientações. E estará em contato com o comitê financeiro de campanha”.

Com base na lei, em 2010 era quase impossível separar a conta eleitoral dos recursos do partido porque os empresários priorizavam as contribuições às siglas, o que impedia a identificação de beneficiários. Naquele mesmo ano,Vaccari passou a arrecadar para a campanha eleitoral que levou Dilma ao Planalto, em parceria com o ex-­prefeito de Diadema José de Filip­pi Júnior.

Pascowitch afirmou que naquele ano o grupo político influente no setor não era mais representado pelo ex-ministro José Dirceu, “apesar de (ele) poder indiretamente ter (tido) participação”. Segundo o lobista, Dirceu comandou o esquema do início da gestão Lula até aquele momento.

Pascowitch disse que o grupo passou a ser representado por Vaccari. “A liquidação das comissões do contrato dos cascos se deu exclusivamente com o João Vaccari”, relatou. “Isso coincide com as eleições de 2010 e com a necessidade de recursos na data zero. O contrato dos cascos se desenvolveria em sete anos. Foi feito um acordo e se diminuiu esse porcentual para que ele pudesse ser liquidado durante o ano de 2010. Não foi bem assim, porque ultrapassou, passou 2011 também. Mas foi fechado um valor de R$ 14 milhões como comissões a serem pagas em referência ao contrato dos cascos”, afirmou ele.

Vaccari assumiu oficialmente o cargo de tesoureiro em janeiro de 2010. De acordo com petistas consultados pelo Estado e que fizeram parte das negociações para a montagem da Executiva Nacional naquele ano, ele foi indicado por Dirceu com aval da cúpula e tinha como missão ajudar na arrecadação da campanha eleitoral que elegeu Dilma Rousseff presidente da República.

Em 3 de novembro de 2015, o diretório paulista do PT divulgou o convite para um ato em apoio a Vaccar – que já estava preso. “Não é atividade oficial do PT, mas alguns petistas fazendo ato para denunciar a situação do Vaccari”, disse na época o presidente do PT em São Paulo, Emídio de Souza. “Vaccari não está sozinho. Vaccari é preso político”, dizia o convite do ato. Do evento, realizado no dia 7 daquele mês no Sindicato dos Bancários, em São Paulo, participaram o presidente do PT, Rui Falcão, e sindicalistas ligados à CUT.

‘Malinha de rodinhas’. Segundo Pascowitch, ele entregou propinas em “uma malinha de rodinha” a Vaccari no Diretório Nacional do PT, em São Paulo. O dinheiro, relatou, saiu do total de R$ 14 milhões de “comissão ao grupo político” sobre um contrato de US$ 3 bilhões de “cascos replicantes” (unidades de produção, armazenamento e transferência de petróleo e gás) da Engevix na Petrobrás.

Pascowitch é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. “Eu fazia (as entregas) através de uma malinha que eu tenho, com rodinhas. R$ 500 mil cabiam. (Entregava) dentro do diretório nacional do PT, na sala dele (Vaccari)”, declarou.

No depoimento, Pascowitch disse que os valores da propina seriam repassados “conforme a disponibilidade ou o faturamento do contrato dos cascos”.

Defesa. Para o criminalista Roberto Podval, que defende Dirceu, o depoimento do delator “foi confuso”. Podval nega que o ex-ministro tenha recebido recursos ilícitos. O criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, que defende Vaccari, tem reiterado que o ex-tesoureiro jamais arrecadou valores ilícitos para o partido. “Todas as captações foram absolutamente legais e repassados ao PT, com declaração à Justiça Eleitoral”, afirma D’Urso.

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