Um novo modelo de infraestrutura para o Brasil

Um novo modelo de infraestrutura para o Brasil

Norman Anderson*

08 Setembro 2017 | 04h00

Norman Anderson. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Brasil está diante de uma oportunidade para desenvolver um novo modelo de infraestrutura, que utilize a alta demanda atual como combustível para crescer e as novas tecnologias disponíveis para fomentar o investimento para entre 4% e 5% do PIB nos próximos dez anos.

Como fazer isso é uma questão que passa por alguns pontos. A começar por saber o que vem a ser infraestrutura. Pesquisa inédita desenvolvida pela Ipsos e que será apresentada no 15º Fórum Latino Americano-Brasileiro de Liderança Estratégica em Infraestrutura, este mês, em São Paulo, mostra que 24% dos entrevistados não sabem o significado de se investir em infraestrutura. Ao todo, 12% responderam que investir no setor é simplesmente “criar empregos”. É uma distorção que ocorre no mundo todo – usa-se no cotidiano o termo “infraestrutura”, mas não se tem clareza do seu amplo significado.

Na verdade, a infraestrutura de um país é um símbolo de como o governo enxerga seu povo e o que ele acredita que esse povo possa realizar. Uma infraestrutura sofisticada e cara, disponível apenas para alguns, diz uma coisa aos cidadãos. Uma infraestrutura esteticamente adequada e disponível a todos, com ótimo design e preços razoáveis, comunica algo diferente. Uma infraestrutura deficiente em design e alimentada por corrupção, diz ainda outra coisa à sua comunidade. Mas todas as formas de infraestrutura passam uma mensagem poderosa, visível e duradoura.

Por que construir obras de infraestrutura é outra questão importante a ser respondida. Num estudo recente que o Fórum produziu com o Boston Consulting Group, mostramos que 50 projetos prioritários nos EUA poderiam criar até 6 milhões de empregos em todo o país, com bens e serviços necessários para manter essa infraestrutura funcionando por 30 ou 40 anos. Em outras palavras, construir infraestrutura visando os benefícios que ela traz para nós agora e, também, para as gerações futuras. Infraestrutura gera empregos, negócios, receitas fiscais e oportunidades em escala.

Apesar disso, o mundo sofre um sub-investimento em infraestrutura da ordem de cerca de 50%, o que é estimado em US$ 1 trilhão anuais. Esse déficit está causando, segundo a revista The Economist, uma queda na produção global de US$ 1,6 trilhão por ano. Embora o mundo esteja inundado de dinheiro, só 1% dos US$ 27 trilhões mundiais de poupança de longo prazo são investidos em infraestrutura. Os responsáveis por essa decisão são os gestores do setor público, as elites em organizações de alto nível e empresários privados.

Essa lógica pode ser alterada.

A tecnologia já permite que indivíduos possam tanto investir diretamente em infraestrutura quanto agregar valor a sua cadeia de valor. Os cidadãos podem decidir quais projetos serão construídos, qual será a concepção de cada um e quanto querem investir diretamente neles. Afinal, se um fundo de pensão pode ser dono de parte do projeto, por que não um comerciante na vizinhança? Em São Francisco, na Califórnia, a Golden Gate Bridge, ponte mais fotografada do mundo, teve seu design e engenharia definidos por crowdsourcing – o vencedor foi um poeta e seu preço final foi de 14% do estimado por profissionais. É um bom exemplo.

O Brasil está diante da oportunidade para dar um salto. Basta pensar na pergunta certa. Em vez de “como a tecnologia criará estradas, pontes, sistemas de trânsito e geração de eletricidade”, deve perguntar o que veículos sem motorista, big data, modelagem de informações de construção (BIM) e blockchain significam para o tipo de infraestrutura que precisamos e como priorizar essa nova geração de infraestrutura.

É necessário envolver os cidadãos nessa discussão e estimulá-los a expressar seus desejos e necessidades. Na pesquisa do Ipsos citada acima, 37% dos entrevistados em todo o Brasil responderam que investir em infraestrutura significa gerar mais “saúde” e 36% disseram que significa “mobilidade urbana”. Para 2% representa novos “trilhos, portos e aeroportos” e 5% disseram que ela traduz “habitação”. Eles enxergam a infraestrutura como algo que melhorou sua experiência pessoal de vida.

Por isso, é essencial ter uma conversa nacional sobre as prioridades.

Visão é a característica mais importante desse processo. É necessário imaginar como será o mundo dentro de 20 ou 30 anos e como obter os investimentos necessários para nos prepararmos para o futuro, ao mesmo tempo em que criamos oportunidades reais para os cidadãos no presente. A internet de alta velocidade é um bom exemplo de preparação. O Brasil precisa de internet de alta velocidade agora para aproveitar o futuro. É preciso criatividade para fazer isso acontecer.

Não se pode desprezar, por outro lado, o papel do setor público. Em Singapura, ministros de Estado recebem vencimentos de US$ 2 milhões por ano cada um. Eles são bem pagos para garantir que o setor público tenha os melhores profissionais e para evitar a corrupção. Essa escolha passa por outra pergunta: preferimos um governo competente ou incompetente supervisionando os bens públicos que a infraestrutura cria e otimiza?

Selecionar projetos prioritários e construir um pipeline dessas ideias, mesmo que por um período de 10 anos em direção ao futuro e, em seguida, executá-los é a discussão que queremos provocar no 15o Fórum Latino Americano-Brasileiro de Liderança Estratégica em Infraestrutura, em São Paulo, reunindo os segmentos privado, estatal e possíveis investidores. O objetivo é que esses projetos aconteçam o mais rápido e com a maior qualidade possível.

*CEO e presidente da CG/LA Infrastructure; presidirá em São Paulo o 15º Fórum Latino Americano-Brasileiro de Liderança Estratégica em Infraestrutura

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