Trump: ‘mas ninguém pode tocar: foi uma merda’

Trump: ‘mas ninguém pode tocar: foi uma merda’

Maristela Basso

12 Janeiro 2018 | 16h48

Maristela Basso. Foto: Arquivo Pessoal

Informaram os jornais ‘The Washington Post’ e ‘The New York Times’ que, em reunião com legisladores nesta quinta-feira (11), o presidente Donald Trump reclamou da imigração, fez críticas à política americana de recepção dos estrangeiros e se referiu a localidades africanas, ao Haiti e a El Salvador como ‘países de merda’.

A declaração foi reproduzida tendo por base o relato de pessoas presentes à reunião e, pasme-se, confirmada pelo Secretário de Imprensa da Casa Branca, Raj Shah, ao afirmar que “alguns políticos escolhem lutar por países estrangeiros; Trump sempre lutará pelo povo americano”.

Trump está longe de ser um homem educado e desconhece o significado do imperativo “noblesse oblige”. Contudo, desta vez atingiu patamares inimagináveis para um chefe de estado e, ademais, inadmissíveis.


 

Sabe-se que a administração Trump tem enrijecido as políticas de imigração e, recentemente, revogou a permanência de mais de 200 mil salvadorenhos que estavam nos Estados Unidos, com entrada autorizada após a Centro-América ter sido devastada por terremotos, em 2001.

O mesmo foi feito contra os haitianos que estavam no país por razões humanitárias. E não é tudo. O republicado pretende por fim à ‘loteria dos vistos’, que sorteia ‘green cards’ para cidadãos de países com baixa representatividade nos EUA, e também restringir a chamada ‘cadeia de migração’ que permite aos familiares de residentes se juntarem em solo americano.

Sustenta Trump que são ilegais, que roubam empregos dos americanos e acabam cometendo delitos. Segundo ele, os Estados Unidos deveriam abrir suas portas para outro tipo de gente, por exemplo, os noruegueses: brancos, louros, ricos, saudáveis.

Por outro lado, as entidades de defesa dos imigrantes afirmam que a maioria deles preenche vagas que não são ocupadas pela mão de obra local, e que sua deportação maciça causaria danos à economia do país e prejuízos humanitários à imagem dos americanos.

Como se vê, estamos diante de uma ‘comédia de equívocos’, tal qual a primeira escrita por Willian Shakespeare, será desprestigiada, como mera farsa, e sua verdadeira complexidade, efeitos, múltiplos sentidos e mensagens serão estudados pelo direito internacional no futuro próximo como o marco temporal no qual os Estados Unidos abriram mão do “smart power”, tornado popular nas administrações Clinton e, mais recentemente, na de Obama.

A noção de ‘smart power’ se popularizou com o cientista político Joseph Samuel Nye Jr, professor da Universidade de Harvard, que, partindo da teoria da interdependência complexa das relações internacionais, cunhou, inicialmente, a expressão ‘soft power’, isto é, a capacidade que um estado tem de, por meio de sua política, especialmente de seu Presidente, empregar um poder brando e influenciar os outros países para que, juntos, construam uma política mundial que valorize as sutilezas das diferentes culturas, os valores, ideais, comportamentos e necessidades uns dos outros.

Do exercício do ‘soft power’ os americanos migraram para o que ficou conhecido como “smart power”, deixando para atrás o “hard power” (o emprego de recursos militares e econômicos) tão conhecido pelos EUA.

Depois de Clinton, Obama imprimiu uma política de relações internacionais que foi além do “soft power”. Ele marcou sua passagem pela Casa Branca inaugurando uma nova era nas relações internacionais: a da persuasão e da projeção do poder por meio de políticas sociais e legítimas, cujos efeitos extrapolavam o território dos EUA. O valorizado “smart power”.

Frente às últimas declarações de Trump, voltam os Estados Unidos apenas ao velho ‘hard power’, péssimo exemplo para o mundo. E às organizações internacionais e não governamentais incumbe a tarefa importante e estratégica de cuidar das pessoas – onde quer que estejam. Pelo que tudo indica, ao término do governo Trump, vamos lembrar do poeta Marcus Valerius Martialis (38-104 d.C) quando dizia: ‘Sed nemo potuit tangere: merda fuit’ (‘mas ninguém pode tocar: foi uma merda’).

*Maristela Basso, professora de Direito Internacional da Faculdade de Direito (Largo São Francisco) da USP; sócia do Nelson Wilians & Advogados Associados (responsável pelo núcleo de Direito Internacional)

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