‘Torre levou ao chão um capítulo importante da história da PF’

‘Torre levou ao chão um capítulo importante da história da PF’

Na sede da Antônio de Godói, polícia protagonizou passagens de impacto e repercussão, como a prisão do vencedor do Nobel da Paz

Fausto Macedo

02 Maio 2018 | 04h50

Edifício Wilton Paes de Almeida, antigo prédio da PF. FOTO ICARO LIMAVERDE/ESTADÃO

A torre envidraçada que ruiu na madrugada desta terça, 1.º, levou ao chão uns poucos pertences de uma gente carente de tudo e um capítulo importante da história da Polícia Federal em São Paulo, que pude acompanhar de perto. Por muitos anos, quase diariamente, frequentei o prédio de mais de 20 andares – aquela fachada esverdeada e traços arrojados para o seu tempo – que dominava a esquina da Rio Branco com a Rua Antônio de Godói.

O edifício central dos federais alojou algumas das principais unidades da corporação. O gabinete da superintendência ficava instalado no 18.º andar. A Entorpecentes no terceiro. A Fazendária alguns andares mais acima.

Nos anos 1970 e 1980, como repórter do Jornal da Tarde, do Grupo Estado, dividia minha rotina entre a cobertura no Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), o Dops (Departamento de Ordem Política e Social), extinto em 1982 por Montoro, e a PF – afora os distritos policiais, os batalhões e as companhias militares…

Eu era feliz e sabia.

Na sede da Antônio de Godói, a PF protagonizou passagens de impacto e repercussão, como naquela noite em 1981, quando seus agentes prenderam o argentino Adolfo Pérez Esquivel, vencedor do Nobel da Paz.

Durante palestra em uma universidade na capital paulista, Esquivel fez críticas à Lei da Anistia brasileira (de agosto de 1979) e teria defendido o revanchismo. Aquilo irritou o regime dos generais – era o governo João Figueiredo, o último deles.

Esquivel foi detido e conduzido à Rua Antônio de Godói. Uma multidão logo se aglomerou à porta da PF. Até d. Paulo Arns, o corajoso cardeal arcebispo de São Paulo, se empenhou em convencer os federais da repercussão que aquela “cana” trazia para um País que vendia ao mundo a ideia da busca pela redemocratização.

Em 1983, já sob comando do delegado Romeu Tuma – ex-chefe do Dops paulista, mais tarde, senador da República- a PF capturou o mafioso italiano Tommaso Buscetta, na Operação Nível Brasil.

Buscetta, como os outros prisioneiros, não ficou na sede. Ele foi removido para a Custódia da PF, no porão de um casarão assobradado da Rua Piauí, em Higienópolis, que também abrigava a Delegacia de Ordem Política e Social.

Levado para os EUA, o mafioso fez delação premiada e entregou as organizações mais poderosas do crime.

Eram tempos em que uma prosaica apreensão de 10 quilos de cocaína dava manchete na certa.

O delegado José Augusto Bellini era o chefe do combate ao narcotráfico. Um dia ele e sua equipe fisgaram peixe grande com carregamento que impressionava, coisa de 100 quilos. Um feito para os padrões de então.

Edifício Wilton Paes de Almeida, que abrigou sede da PF. FOTO: SERGIO NEVES/ESTADÃO

Os federais convocaram a coletiva para o 3.º andar. Em meio ao burburinho na sala do doutor delegado, furtivamente, alguém pegou uma “bola” de coca, envolta em fita crepe, e socou no fundo da pasta de couro de um repórter de rádio.

Findo o quebra-queixo, os jornalistas foram saindo. Na portaria, o repórter foi barrado. Quase chorou, jurou que não era dado ao consumo das drogas. O mal-entendido foi desfeito e o doutor Bellini o liberou.

Quando a ossada do carrasco nazista Josef Mengele foi encontrada em um cemitério no Embu, nos arredores de São Paulo, em 1985, o prédio da Antônio de Godói ganhou as atenções do planeta.

Jornalistas americanos, israelenses e alemães, muitos deles, hospedaram-se no antigo Hilton Hotel da Avenida Ipiranga. Eles passavam o dia na PF. Era uma correria infernal.

Chegou o dia mais importante do caso Mengele. Tuma providenciou uma sala especial para os repórteres estrangeiros, no 17.º andar. O delegado mandou instalar na grande mesa de vidro retangular uma sequência de telefones com linha direta para os correspondentes se comunicarem com seus países.

A coletiva foi uma festa. Exames de computador, uma revolução da perícia, atestavam que a ossada era mesmo do nazista.

Quando a turba agitada desceu para a transmissão urgente, surpresa! Alguém havia arrancado uma peça de metal do bocal de todos os aparelhos telefônicos que, assim, ficaram mudos.

“Hello?, hello?”, eles gritavam, mas lá do outro lado do mundo ninguém ouvia nada.

Tuma mandou investigar a sabotagem. As peças foram encontradas, afinal, no dia seguinte, no cesto de lixo do banheiro feminino do 6.º andar. O autor da desgraça nunca foi identificado.

A cobertura na PF exigia atenção redobrada. Inquéritos sensíveis, como agora e desde sempre, alvos emblemáticos.

Por ali passaram para depor Pedro Collor, que delatou o próprio irmão, e PC Farias, no escândalo que levou Fernando Collor à lona, em 1992.

Nicolau dos Santos Neto, o juiz, deu trabalho para os federais. Ficou foragido por longos meses. Os repórteres davam plantão na Antônio de Godói dia e noite, também nos fins de semana porque corria o boato que a qualquer momento ele iria se entregar.

Num sábado gelado e garoento, era inverno de 2000, um grupo de resistentes estava lá, em formação indiana, na calçada do outro lado da rua, ao abrigo da marquise.

Eis que surge um tipo com um saco nas costas. Sem prolações, abordou o primeiro repórter da fila, cabelos rabo de cavalo. “Ô companheiro, é aqui que tão servindo o sopão hoje?”