‘Tinha muita gente pagando e muita gente recebendo’, diz ex-gerente da Petrobrás sobre propinas

Pedro Barusco confirmou a juiz da Lava Jato acerto de 1% de corrupção em contratos de 28 navios-sondas que envolveu estaleiro da Odebrecht; valores teriam sido destinados ao PT e executivos da estatal

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Mateus Coutinho

29 Outubro 2015 | 19h16

Ex-gerente da Petrobrás Pedro Barusco guardou prova envolvendo a Odebrecht. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Ex-gerente da Petrobrás Pedro Barusco guardou prova envolvendo a Odebrecht. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Atualizado às 20h21

O ex-gerente de Engenharia da Petrobrás Pedro Barusco confirmou nesta quinta-feira, 29, à Justiça Federal, em Curitiba, que os cinco estaleiros contratatos para construção de 28 navios-sonda, em 2011, acertaram o pagamento de 1% de propina para o PT e para executivos da estatal e da empresa Sete Brasil. Ele foi interrogado como réu no processo contra o presidente da Odebrecht, Marcelo Bahia Odebrecht, e executivos do grupo por corrupção, lavagem de diheiro e organização criminosa.

“Tinha muita gente pagando e muita gente recebendo. Era uma coisa bastante complexa esse financeiro”, afirmou Barusco – delator da Operação Lava Jato – na manhã desta quinta. O ex-gerente, que era uma espécie de contador da propina arrecadada na área de Serviços, controlada pelo PT, disse que todos os cinco estaleiros, incluindo o da Odebrecht (Enseada Paraguaçu), contratados para projeto de 28 plataformas fecharam o pagamento de 1%.

Eram cinco estaleiros que ganharam todas as encomendas das plataformas, um pacote de US$ 22 bilhões, que envolveu ainda a empresa Sete Brasil, criada pela Petrobrás com bancos privados e fundos de pensão.

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“Então estava combinada uma propina de 1%.” Barusco voltou a contar que esses valores seriam divididos em três partes: uma para o partido, outra para a “Casa 1” (referência a executivos da Petrobrás, Renato Duque e Roberto Gonçalves, e a ‘Casa 2’ (supostamente executivos da Sete Brasil, entre eles os delatores João Carlos Ferraz, ex-presidente da empresa, e Eduardo Musa, ex-diretor).

“Foi feita uma divisão de quem pagaria para quem, de acordo com os procedimentos”, explicou Barusco ao ser questionado por Moro. “Porque dois terços ficaram para o partido e um terço ficou para as duas Casas.”

O delator contou que ele, o ex-diretor de Serviços Renato Duque e o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto combinaram a seguinte divisão de pagamentos. “O Keppel (Fels, estaleiro) paga uma parte para o partido até R$ 4 milhões e meio, depois paga Casa 1 e 2. O Enseada do Paraguaçu, o Atlântico Sul e o da Engevix pagam para o partido e o Jurong paga integralmente para as Casa 1 e 2.”

VEJA A ÍNTEGRA DO DEPOIMENTO DE BARUSCO NESTA TARDE:

Propina nos navios-sonda é foco de outra apuração, mas foi citada no interrogatório por uma das defesas. Barusco confirmou saber dos acertos entre o cartel e o recebimento de propina no esquema. Ele apontou Rogério Araújo, ex-executivo da Odebrecht preso pela Lava Jato, como um dos responsáveis pelo acerto do pagamento do 1% de propina pelos contratos.

O juiz da Lava Jato quis saber então do delator se o executivo fazia referências aos seus superiores para atuar nesses esquemas. Barusco respondeu ‘sim’.

“No caso que o sr conversou com o sr Rogério Araujo, ele disse que tinha que consultar os superiores?”, perguntou Moro.

“Isso ele sempre falava.”

COM A PALAVRA, A ENSEADA INDÚSTRIA NAVAL S. A:

“A Enseada Indústria Naval S.A. nunca participou de oferecimento ou pagamento de propina em contratos com qualquer cliente público ou privado, o que obviamente inclui a Sete Brasil. A empresa reafirma que todos os seus contratos foram celebrados na mais estrita conformidade com a lei.”