Testes de integridade devem ter caráter educativo, e não julgador

Testes de integridade devem ter caráter educativo, e não julgador

Renato Santos*

31 Março 2018 | 05h00

Renato Santos. FOTO: Celso Doni /Cordel Imagens

Os testes de integridade caíram na boca do povo de alguns meses para cá. A razão para isso foi uma polêmica que se estabeleceu com o debate das 10 Medidas Contra a Corrupção, do Ministério Público Federal, que sugere a possibilidade da realização de teste de integridade dos agentes públicos sem o seu consentimento.

Esta interpretação da 1.ª medida contra a corrupção parte do princípio que testes de integridade seguem a linha do antigo Teste do Polígrafo: o entrevistado é julgado como culpado ou inocente. Na verdade, os testes de integridade não são um processo com integridade questionável como a mídia tem demonstrado e têm muito mais um caráter educativo do que julgador.

Teste de integridade: separando o joio do trigo

Um teste de integridade deve ser fundamentado na dimensão humana do risco, tendo o objetivo de construir e fortalecer uma cultura ética na empresa ou instituição onde está sendo aplicado. Esse princípio humano surgiu muito em função dos estudos realizados para a criação do Pentágono da Fraude.

Pentágono da Fraude criado para predizer e combater tanto fraudes quanto o assédio dentro das organizações

Algumas interpretações distorcem o sentido e propósito de um teste de integridade, desconsiderando a necessidade de desenvolver e educar os colaboradores para que saibam agir quando confrontados com um dilema ético.

Recentemente, um candidato ao cargo de gerente comercial apresentou baixa resiliência quanto à manipulação de resultados, pois ele acreditava que podia “guardar um bom resultado deste mês para o próximo como garantia”, isto sem a ciência e anuência da empresa.

Quando apresentamos as implicações desta manipulação de resultados para a organização, ele se deu conta de que fazia isso há anos por acreditar ser o certo, mesmo porque ele aprendeu isso do seu antigo gestor.

Se entrássemos em uma discussão do que é “certo ou errado” de maneira binária, teríamos que ficar em um processo exaustivo de convencimento do que é ético nesta ou naquela organização, cultura e contexto. Mas, quando entendemos a visão do profissional e deixamos claro que aquela atitude não será aceita, saímos da subjetividade e aplicamos na prática o que esperamos do comportamento dele, mitigando assim uma possível fraude ou mesmo assédio.

A análise deve ser profunda e consistente, mas a aplicação deve ser a mais simples possível para facilitar a sua implantação e dinâmica suficiente para não afastar bons profissionais pelo cansaço.

Agentes de compliance, profissionais de RH e gestores não devem apenas conhecer um verdadeiro teste de integridade, precisam também estar atentos para saber identificar características do que um teste de integridade não é. Por isso, detalhei alguns fatores importantes para ajudar a fazer essa diferenciação.

Ter uma abordagem policialesca

Vivemos uma época de colaboração e compartilhamento. Nada fica oculto e o perfil dos novos colaboradores e funcionários é de abertura e transparência. Neste contexto, uma abordagem não humanizada deve ser, de imediato, descartada.

Um teste de integridade não pode partir de uma premissa investigativa com o objetivo de construir uma prova contra determinada pessoa e, em conseguinte, puni-la. Esta prática não atua no cerne da problemática, sendo assim pouco ou nada contribui na construção de uma cultura ética que evite fraudes, assédios e corrupções.

Realizado sem o expresso consentimento

A preservação dos direitos individuais e da privacidade são inquestionáveis, logo a aplicação de um teste de integridade necessita do consentimento do participante.

Simular situações para testar a conduta moral, e a predisposição para atitudes antiéticas, de um colaborador sem o seu irrestrito conhecimento consiste em uma tática rudimentar e não eficaz, pois não age no âmbito da educação ética.

Ser uma simples ferramenta de triagem

Um teste de integridade pode e deve ser um aliado relevante de recrutadores no momento da seleção de novos colaboradores, no entanto isto não significa utilizá-lo simplesmente como uma ferramenta de triagem. O objetivo central não está em punir candidatos que apresentem um grau de integridade menor do que os demais, mas em proporcionar um plano de desenvolvimento que ajude o participante na conscientização e reflexão de comportamentos que devem ser revistos. É importante destacar que as pessoas apresentam vícios organizacionais, repetem comportamentos aprendidos sem questionar porque estão fazendo tal ato.

Carimbar pessoas em éticas e antiéticas

Evidentemente cada participante de um teste de integridade terá um resultado único, apontando maior ou menor resiliência ao lidar com situações eticamente questionáveis. Mas a função primordial de um teste nesse sentido deve ser educativo, buscando soluções que ajudam a pessoa se desenvolver nos aspectos de sua resiliência, jamais catalogando indivíduos em éticos e antiéticos, ou qualquer outra nomenclatura.

Essas características apontadas acima distinguem, pela essência, o que deve ser considerado e utilizado como um teste de integridade, e o que devemos descartar. Mas alguns outros pontos também merecem atenção, tais como:

*Sócio da S2 Consultoria, empresa especializada em prevenir e tratar atos de fraude e assédio nas organizações

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