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Testemunhas contradizem delator do cartel dos trens na PF

faustomacedo

28 junho 2014 | 05:00

Presidente e ex-diretor da CPTM e ex-prefeito de Mairiporã negaram saber de pagamento de propinas para os deputados Rodrigo Garcia (DEM-SP) e José Aníbal (PSDB-SP)

As quatro testemunhas arroladas na investigação sobre o suposto envolvimento dos deputados Rodrigo Garcia (DEM-SP) e José Aníbal (PSDB-SP) com o cartel metroferroviário prestaram depoimento na Polícia Federal em Brasília nesta sexta feira, 27, e negaram ter conhecimento do pagamento de propinas aos parlamentares por multinacionais do setor.

Garcia e Aníbal, ex-secretários do governo Geraldo Alckmin (PSDB), estão sob investigação do Supremo Tribunal Federal porque detêm foro privilegiado perante a Corte. Os relatos das testemunhas contradizem denúncias do delator do cartel, engenheiro Éverton Reinheimer, ex-diretor de Transportes da multinacional alemã Siemens.

Por ordem do ministro Marco Aurélio Mello, do STF, que acatou requerimento do procurador-geral da República Rodrigo Janot, a PF ouviu o presidente da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), Mário Manuel Bandeira, o ex-secretário estadual de Transportes Jorge Fagali Neto (governo Fleury Filho), o ex-diretor administrativo e financeiro da CPTM (2003-2006) Antonio Kanji Hoshikawa, e o ex-vice prefeito de Mairiporã (SP) Silvio Antonio Ranciaro.

Eles desmentiram o acusador do cartel, Éverton Reinheimer, ex-diretor da Siemens. Em delação premiada, por meio da qual busca se livrar de eventual punição judicial, Reinheimer afirmou que o cartel vigorou no setor de transporte de massa em São Paulo e em Brasília no período entre 1998 e 2008.

Foto: Helvio Romero/Estadão

As audiências foram realizadas separadamente na Corregedoria-geral da PF. Os depoimentos foram tomados pelos delegados da Rômulo Teixeira Cavalcante e Milton Fornazari Junior.

Em outubro de 2013, em depoimento à PF, o delator disse que José Aníbal “sempre o mandava procurar Silvio Ranciaro”. Segundo ele, o ex-prefeito de Mairiporã “assessorava José Aníbal informalmente em relação ao pagamento de propinas nos projetos”.

Reinheimer disse, ainda, que agendou reunião com Rodrigo Garcia, “à época deputado estadual e presidente da Comissão de Transportes da Assembleia Legislativa de São Paulo”. O delator afirmou que “falou algumas vezes (com Garcia) sobre o pagamento de comissões, rotuladas como propina, em relação aos projetos seguintes ao da Linha 5 do Metrô de São Paulo”.

Contou também que após a saída de Garcia da presidência da Comissão de Transportes, Mário Bandeira, presidente da CPTM, o avisou que deveria passar a tratar com José Aníbal, “responsável pelos contatos políticos e com os pagamentos de propinas pela empresa (Siemens), em substituição a Rodrigo Garcia”.

“Nunca assessorei José Aníbal, formalmente ou informalmente”, declarou Silvio Ranciaro, filiado ao PSDB desde a fundação do partido.

Ele disse que conhece Aníbal desde 1989 e foi “simpático” à candidatura do tucano ao governo do Estado, em 2006. Negou ter auxiliado Aníbal “para o recebimento de propinas das empresas do setor metroferroviário”.

“Não tenho conhecimento que José Aníbal recebeu propinas da Siemens e de outras empresas”, declarou Ranciaro. “Nunca trabalhei no setor metroferroviário, não me lembro de ter tido contato com diretores e funcionários da Alstom, Siemens, CAF e Bombardier (empresas do cartel).”

Segundo Ranciaro, o próprio José Aníbal lhe pediu para ir depor na PF. O ex-prefeito declarou que pagou as despesas da viagem a Brasília, “mas gostaria de ser restituído por ele (Aníbal)”.

Mário Bandeira rechaçou as informações do delator. Disse que conheceu em 2003 Rodrigo Garcia, então presidente da Comissão de Transportes da Assembleia. “Nunca tive qualquer envolvimento com o pagamento de propinas”, afirmou.

Bandeira disse que conheceu Aníbal em 2011, quando o tucano assumiu o cargo de secretário de Estado de Energia de Alckmin. Ele foi categórico. “Nunca tratei de propinas com o deputado, tampouco com Silvio Ranciaro.” Explicou que conhece o ex-vice prefeito “apenas de vista, sei que ele é do partido, mas o que ele faz não sei”.

O presidente da CPTM disse que conheceu os engenheiros Arthur Gomes Teixeira e Sérgio Teixeira – apontados pela PF como lobistas do cartel –, “pois eles participavam de reuniões de gestão de contratos como consultores das empresas”. Bandeira afirmou que “nunca participou de reunião ou jantares na casa de Arthur Teixeira”.

Bandeira disse, ainda, que nunca fez doação para o PSDB, “mas pode ter contribuído com a compra de convites para jantares do partido”.

O ex-diretor administrativo e financeiro da CPTM Antônio Kanji relatou “contatos esporádicos” com executivos da Alstom, Siemens, CAF, Mitsui, TTrans e Bombardier. “Os contatos eram para tratar da parte financeira e orçamentária das licitações.”

Disse que conversou com Reinheimer “umas duas vezes, para tratar dos pagamentos do contrato de manutenção de trens, assinados antes da sua chegada à CPTM”.

Ele contou que teve contatos com Rodrigo Garcia entre 2003 e 2006 na Comissão de Transportes e na presidência da Assembleia, e que conhece o deputado estadual Campos Machado (PTB) e o deputado federal licenciado Edson Aparecido (secretário chefe da Casa Civil de Alckmin).

“Não tenho conhecimento se eles (Campos Machado e Edson Aparecido) e Rodrigo Garcia receberam propinas das empresas do setor metroferroviário que tratavam com a CPTM”, disse Antônio Kanji.

Ele disse que foi a “um ou dois jantares do PSDB, mediante compra de convites para arrecadar fundos para campanhas políticas”. Jorge Fagali Neto, ex-secretário de Transportes (gestão Fleury), disse que “não conhece e nunca teve contato com José Aníbal e Rodrigo Garcia, apenas os viu na mídia em razão de serem deputados federais”.