Testemunha-chave da My Way relata propinas de até 10% na BR Distribuidora

Testemunha-chave da My Way relata propinas de até 10% na BR Distribuidora

Ex-funcionária do financeiro de empresa de Santa Catarina aponta operador ligado a Renato Duque em negócios suspeitos que perduraram até novembro em subsidiária da Petrobrás

Redação

06 Fevereiro 2015 | 15h37

Atualizada em 11/3, às 9h19

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo e Julia Affonso

Uma ex-funcionária da área financeira da Arxo Industrial do Brasil – novo alvo da Lava Jato no esquema de corrupção na Petrobrás – afirmou ao Ministério Público Federal que constatou saques em espécie de até R$ 7 milhões para pagamentos suspeitos que perduraram na Petrobrás Distribuidora S/A (BR Distribuidora) mesmo depois da descoberta da existência de cartel de empreiteiras e pagamentos de propinas a políticos na estatal petrolífera. A BR Distribuidora é subsidiária da Petrobrás, responsável pela rede de postos de vendas de derivados.

“Em data de 24 de setembro de 2014, o senhor Sérgio (Maçaneiro, diretor Financeiro da Arxo) fez a retirada do caixa da empresa um total de R$ 7.088.304,57, para a realização de pagamentos suspeitos”, afirmou ela ao apontar quatro movimentações suspeitas, registradas por ela.

A Arxo, com sede em Santa Catarina, fornece tanques aéreos e subterrâneos e caminhões tanques para a BR Distribuidora. A ex-gerente financeira trabalhou na empresa de janeiro de 2012 e novembro de 2014. Nesse período, a testemunha afirma ter presenciado pagamentos de propina de 5% a 10% e registrou boa parte das movimentações suspeitas.

“Para obter os contratos, a Arxo receberia informações privilegiadas da Petrobrás e efetuaria o pagamento de vantagem indevida de 5 a 10% do total do contrato a empregados da referida empresa (BR Distribuidora)”, informou a ex-funcionária.

A figura central dessa nova frente de investigação procurou a força-tarefa do Ministério Público Federal em 15 de janeiro. Ela apontou e reconheceu o operador da propina no caso dos contratos da Petrobrás, Mário Goes.

“Mario Goes seria o intermediador das propinas, conforme reconhecimento fotográfico efetuado pela testemunha e identificação de seu nome na contabilidade informal da empresa (“GOIS”)”, registrou o MPF ao pedir a prisão preventiva do acusado.

Foto: Fábio Motta/AE

Foto: Fábio Motta/AE

Foi através dele que a Lava Jato estabeleceu a conexão entre o esquema investigado nas Diretorias de Serviço, Abastecimento e Internacional, que arrecadaria propina para os partidos da base do governo – PT, PMDB e PP. Goes foi um dos operadores de propina do ex-diretor de Servios Renato Duque, segundo apontou o ex-gerente de Engenharia Pedro Barusco, que era seu braço direito e fez delação premiada com a Lava Jato.

A ex-funcionária afirmou ainda que “nos dias anteriores a vinda dele (Mário Goes) procediam-se todas as movimentações na empresa para gerar dinheiro em espécie”. “Inclusive a depoimento auxiliava a colocar o dinheiro em envelope, sendo que algumas oportunidades viu que Goes saia da empresa com, este envelope debaixo do braço”.

Segundo a testemunha, o suposto operador ligado a Duque e Barusco foi visto por ela pela última vez em outro do ano passado. Goes foi o único a ter prisão preventiva decretada e está foragido. A ex-gerente financeira montou para a força-tarefa da Lava Jato um quadro da divisão de tarefas no esquema de propina envolvendo a Petrobrás, que teria atuado até 2014.

Os sócios-dirigentes da Arxo Gilson João Pereira e João Gualberto Pereira Neto eram quem coordenavam o pagamento da propina. Os valores seriam entregues “a cada dois ou três meses, a Mario Goes, na própria Arxo.”

“Eventualmente, o dinheiro seria levado pelo diretor financeiro Sérgio Ambrósio Marçaneiro até Mario Goes no Rio de Janeiro”, contou a ex-funcionária.

Em detalhes ela apontou a “responsável pela movimentação das contas da empresa” que “teria conhecimento da propina”, indicou o “programa contabilidade Proteus da empresa, com registro, no caixa 2, das movimentações ilícitas” e os funcionários responsáveis por ele. Ela também encaminhou a lista de notas frias emitidas pela empresa para justificar a propina.

Propina e medo. As revelações da ex-gerente, que espontaneamente procurou a força-tarefa da Lava jato e foi ouvida no dia 15 de janeiro, apontam um esquema de propina em outras áreas, sonegação fiscal e medo de ameaças.

A testemunha afirmou ainda que “foi diversas vezes enviada a lugares que não na empresa, inclusive na Receita Federal de Florianópolis, para levar pacotes ou malas contendo dinheiro”. “Sempre acompanhada de um policial civil, na função de segurança.”

A ex-gerente afirmou ter sido ameaçada. “Devido a questionamentos referentes a pagamentos em espécie a pessoas que não faziam parte da folha de pagamento de funcionários ou fornecedores, fui advertida a ficar calada, como continuei a questionar, passe a ser ameaçada de morte.”

Lavanderia. Com base nas revelações da testemunha e com apoio da Receita Federal a Lava Jato chegou às empresas usadas para “disfarçar os pagamentos” de propina com “notas fiscais frias”: RPK Comercial Eireli- ME, Transportadora Cedense Ltda., Linkcom Comercial Ltda., Metalsinter Indústria e Comércio de Filtros e Sintetizados Ltda., RTN – Consultoria e Representações, MTX Equipamentos, PL Costa Serviços Administrativos Ltda. e AFB Sistemas Ambientais e Informática Ltda – ME.

COM A PALAVRA, A BR.

“A Petrobrás Distribuidora informa que está encaminhando aos responsáveis pelas investigações os documentos referentes à relação comercial com a Arxo Industrial do Brasil Ltda. A empresa reafirma seu compromisso de colaborar com as autoridades.”

COM A PALAVRA, A ARXO.

“O sócio proprietário da Arxo, João Gualberto Pereira Neto, apresentou-se no final da tarde desta sexta-feira na Polícia Federal, em Curitiba, para prestar esclarecimentos sobre a empresa.

As informações declaradas pela ex-gerente e responsável da área financeira e contábil da Arxo são infundadas. Ela foi demitida em novembro de 2014, quando foi instaurada uma auditoria interna para apurar indícios de desvio de valores que podem ultrapassar R$ 1 milhão por parte da ex-gerente. As apurações apontam que a mesma utilizava-se de empresas de terceiros para recebimento dos valores, incluindo uma das empresas citadas por ela na denúncia. A Arxo está tomando todas providências legais para indicação dos envolvidos.

Nenhum membro da diretoria ou colaborador da empresa teve qualquer ligação com tratativa ou pagamento de propina à Petrobras. Da mesma forma, todos desconhecem o citado Mário Góes.

A direção da empresa reafirma a disposição de contribuir com o trabalho das autoridades, ajudando-os com todo e qualquer esclarecimento necessário. A Arxo é uma empresa que está no mercado desde 1967, líder em seu segmento, o que garante que todas as atividades da empresa e compromissos com os clientes e fornecedores sejam mantidos. A ação da Polícia Federal em nada impede o andamento do processo fabril e administrativo e todos os prazos de entrega de equipamentos, carregamento e pagamento estão assegurados.”

 COM A PALAVRA, CINTIA FRANCISCO.

Cintia Provesi Francisco, a testemunha-chave da My Way, afirma que não é sua a assinatura grafada na página do e-mail enviado para a Secretaria da Fazenda de Santa Catarina. Ela enviou à reportagem no dia 25 de fevereiro cópia do e-mail que alega ter encaminhado para a Secretaria. O documento enviado por Cintia não contém assinatura de punho próprio.

Cintia confirma que enviou o e-mail para a Secretaria, mas é taxativa ao dizer que a assinatura ali inserida não é dela. Segundo ela, sua assinatura foi falsificada.