‘Temer nunca mencionou os R$ 10 milhões, mas obviamente sabia’, afirma empreiteiro

‘Temer nunca mencionou os R$ 10 milhões, mas obviamente sabia’, afirma empreiteiro

Marcelo Odebrecht disse, em delação premiada, que jantar no Palácio do Jaburu teria sido apenas um 'shake hands' e que os valores já haviam sido acertados entre o executivo da construtora Cláudio Melo Filho e o ministro Eliseu Padilha

Luiz Vassallo, Ricado Brandt, Julia Affonso e Fábio Serapião

12 Abril 2017 | 21h36

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Foto: Dida Sampaio/Estadão

O executivo Marcelo Odebrecht confessou, em sua delação premiada à Lava Jato, que acertou com o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, um repasse de R$ 10 milhões para candidatos do grupo de apoio ao então candidato a vice-presidente Michel Temer, em 2014. O ex-presidente da maior empreiteira do país ainda revelou ter feito ‘um acordo’ com Padilha para que R$ 6 milhões do total doado fossem repassados à campanha de Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), ao governo do Estado.

Inicialmente, antes da campanha eleitoral, Odebrecht disse ter sido procurado pelo executivo da empreiteira Cláudio Melo Filho, que contou que Padilha o procurou. “O Eliseu estava pedindo a ele, pelo grupo do Temer, R$ 10 milhões, dentro daquela lógica de que, apesar de não serem candidatos, os caciques dos partidos pediam pelos seus grupos de apoio”, relatou.

Odebrecht disse ter recebido uma solicitação de R$ 6 milhões de Skaf. O empresário, no entanto, disse que não conseguiria ‘internamente transitar’ a verba. “Porque se eu for avisar para um diretor que vou dar R$ 6 milhões para você, ele vai criar uma referência e imagine: o cara vai ficar com essa referência para outros candidatos. Eu não consigo.”


O delator, então, propôs ao presidente da Fiesp uma ‘solução’. “O Temer está pedindo 10 milhões para o grupo dele e uma das candidaturas que ele está apoiando é a sua. Então, se esse dinheiro for para o Temer e ele concordar para repassar parte para você, não tem problema.”

Em um encontro com Temer, Skaf teria ligado para Marcelo Odebrecht e colocado o peemedebista na linha para dar a entender que estaria autorizada a divisão dos valores. Segundo Odebrecht, entretanto, o peemedebista não teria sido claro na ligação e apenas pediu ‘apoio’ a Skaf.

“Aí eu disse: ‘Paulo, não é isso, eu preciso que ele diga que aceita que dos dez que vão para ele, seis vão para vocês’.”, relatou o delator, sobre conversa conversa com o presidente da Fiesp.

Ainda durante a campanha, em um jantar marcado entre o executivo da Odebrecht Cláudio Mello Filho, Marcelo, Eliseu Padilha e Michel Temer no Palácio do Jaburu, o acordo teria sido confirmado. A construtora doaria R$ 10 milhões a Michel Temer, dos quais R$ 6 milhões seriam destinados pelo peemedebista à campanha de Paulo Skaf.

“Temer nunca mencionou para mim os 10 milhões, mas obviamente que no jantar ele sabia. Acertei com isso e acertei com o Padilha que dos 10, 6 iriam para o Paulo”, afirmou Marcelo Odebrecht, que ainda avaliou que ‘Temer não falaria de dinheiro’, nem com ele, ‘nem com a esposa, nem com ninguém’.

Em determinado momento do jantar, o vice-presidente se retirou, segundo Marcelo Odebrecht, e ficaram à mesa somente o delator, Cláudio Mello Filho e Eliseu Padilha, quando foi acertado o repasse de R$ 10 milhões para o grupo de apoio de Temer, desde que R$ 6 milhões fossem repassados posteriormente a Skaf.

Marcelo Odebrecht relatou que, antes do jantar, os repasses já haviam sido combinados entre Eliseu Padilha, e o executivo Cláudio Mello Filho, e que o evento “foi apenas um ‘shake hands’, uma formalização, um agradecimento”. “No final, quis apenas escutar do Eliseu que seis milhões eu iria levar para o Paulo”.

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