Sr. João Muniz, o contador que sabe de Lula

Elo dos advogados do ex-presidente foi ao hospital Sírio-Libanês em novembro de 2015 e teria pedido ao empresário Glaucos da Costamarques para assinar recibos do aluguel do apartamento vizinho à residência do petista, em São Bernardo do Campo

Luiz Vassallo, Julia Affonso e Ricardo Brandt

29 Setembro 2017 | 05h00

O contador João Muniz Leite, evocado por Glaucos da Costamarques em processo na Lava Jato envolvendo supostas propinas da Odebrecht a Lula, já admitiu à Polícia, em 2008, sua ligação com o compadre e advogado do ex-presidente, Roberto Teixeira. Ele é apontado pelo primo de José Carlos Bumlai como o intermediário de Teixeira que o visitou no hospital Sírio Libanês, em São Paulo, para que assinasse recibos de aluguel do apartamento vizinho à residência do ex-presidente, em São Bernardo. O imóvel é uma das supostas vantagens indevidas da empreiteira em benefício do ex-presidente e Glaucos é tido pela força-tarefa como ‘laranja’ na ocultação da real titularidade do apartamento. O contador prestou depoimento em que mencionou Teixeira no âmbito de investigações sobre o advogado que ocorreram há nove anos.

Para a força-tarefa da Lava Jato, a Odebrecht custeou a compra do apartamento, em nome de Glaucos da Costamarques, primo do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente. Na mesma ação, ele responde por também ter supostamente recebido da empreiteira terreno onde seria sediado o Instituto Lula, no valor de R$ 12,5 milhões.

A denúncia da Procuradoria da República sobre o apartamento 121, no edifício Hill House -vizinho à residência de Lula, em São Bernardo do Campo – ainda aponta que propinas pagas pela Odebrecht, no esquema que seria liderado pelo ex-presidente, chegaram a R$ 75 milhões em oito contratos com a Petrobrás.

A Lava Jato afirma que não houve pagamento de aluguel entre fevereiro de 2011 e pelo menos novembro de 2015. Nesta segunda-feira, 25, a defesa do ex-presidente apresentou recibos do recebimento de aluguel assinados por Glaucos da Costamarques neste período.

Nesta quinta-feira, 28, a defesa de Glaucos reiterou a Moro que só passou a receber efetivamente os pagamentos após visita que recebeu do advogado de Lula, em 2015. No dia seguinte, ele diz ter recebido a visita do contador João Muniz Leite que o entregou para assinar os recibos dos quatro anos de pagamentos de uma vez.

O próprio Muniz já havia admitido, sete anos antes visita narrada por Glaucos, seu envolvimento com Teixeira. À época, ele foi ouvido pela Polícia Civil de São Paulo sobre investigação em torno da empresa Health Translating Ltda, suspeita de envolvimento na conexão Brasil-Angola do tráfico internacional de cocaína. De acordo com o inquérito, a Health é a origem da Voloex Participações e Investimentos, criada a pedido do empresário Lap Chan para exercer a opção de compra das ações dos então sócios brasileiros da VarigLog.

A operação teria contado com a participação do advogado Roberto Teixeira, o compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O inquérito indicava que, mais do que atuar para que a Varig fosse vendida à VarigLog, o escritório de Teixeira teria arquitetado contrato que transformou a Health Translating em Voloex Participações.

À época, Muniz disse que foi procurado em agosto de 2007 por Larissa Teixeira, filha de Roberto. Segundo ela, “um cliente queria constituir uma empresa no Brasil com a maior brevidade possível, não especificando o ramo”.

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