‘Soube que está havendo muita corrupção’

‘Soube que está havendo muita corrupção’

Em interrogatório nesta quarta-feira, 6, o ex-ministro Antonio Palocci disse que, em 2007, o então presidente Lula o questionou sobre práticas ilícitas na Petrobrás

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Luiz Vassallo

06 Setembro 2017 | 19h27

Antonio Palocci. Foto: Reprodução

Interrogado pelo juiz federal Sérgio Moro, na Operação Lava Jato, nesta quarta-feira, 6, o ex-ministro Antonio Palocci afirmou que, em 2007, o então presidente Lula o questionou sobre corrupção na Petrobrás. ‘Eu soube que na área de Serviços, de Abastecimento está havendo muita corrupção’, teria dito Lula na época.

Palocci está preso desde setembro de 2016. O ex-ministro, que já foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro na Lava Jato a 12 anos e 2 meses de prisão, está tentando fechar um acordo de delação premiada.

O Ministério Público Federal aponta neste processo que propinas pagas pela Odebrecht chegaram a R$ 75 milhões em oito contratos com a estatal. Este montante, segundo a força-tarefa da Lava Jato, inclui um terreno de R$ 12,5 milhões para Instituto Lula e cobertura vizinha à residência de Lula em São Bernardo de R$ 504 mil.

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Antonio Palocci disse a Moro no interrogatório que ‘a Odebrecht, em particular, tinha uma relação fluida com o governo em todos os aspectos’.

“Diria partindo dos aspectos de realização de projetos assim como participação em campanhas. As participações em campanhas se davam de todas as maneiras, a maior parte com caixa 1, mas o caixa 1 muitas vezes originário de atitudes e de contratos ilícitos”, afirmou.

Moro perguntou a Palocci se ele teria exemplos de ‘contratos ilícitos que eventualmente geraram créditos’.

Palocci respondeu. “Ah, diversos. Os da Petrobrás quase todos geraram créditos.”

O ex-ministro disse que ‘tinha conhecimento disso’. “Não participei de todos, Dr, porque a Petrobrás não era minha área de atuação direta, mas conhecia a relação da Odebrecht com a Petrobrás, os ilícitos da Petrobrás. Na área de Serviços, na área de Abastecimento e na área Internacional eram bastante conhecidos na época e eu os conhecia.”

“Como funcionava”, questionou Moro.

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“Essas diretorias, elas foram nomeadas e ao longo do tempo se desenvolveu através delas, na diretoria de Serviços, o PT, na diretoria Internacional o PMDB e na diretoria de Abastecimento o PP se desenvolveu uma relação de intenso financiamento partidário, de políticos, pessoas, empresas, né? Foi um ilícito crescente na Petrobrás, até porque as obras cresceram muito e com elas os ilícitos. Então, eu sabia disso, eu acompanhei algumas coisas, mas não era minha área de atuação direta, é verdade?”

“Como o sr sabia disso?”, quis saber o juiz da Lava Jato.

GLAUCO DA COSTAMARQUES

“Por que eu era da cúpula do governo, Dr. Não posso esconder o fato de que eu participava das principais reuniões de articulação do governo. Não era a pessoa mais importante, nem a segunda, nem a quinta, mas eu participava das questões centrais do governo, então, eu conhecia essas relações. Conversava com o presidente Lula sobre essas relações. Por exemplo. Quando o presidente foi reeleito em 2007, ele me chamou no Palácio da Alvorada e me perguntou, me falou ‘soube que na área de Serviços e de Abastecimento…’, a área Internacional, era menos nessa época, era o Nestor Cerveró na época, era menos, mas ele falou ‘eu soube que na área de Serviços, de Abastecimento está havendo muita corrupção’. Eu falei: ‘é verdade, tá havendo sim’. Ele falou: ‘que que é isso?’. Eu falei: ‘é aquilo que foi destinado para esses diretores, operar para o PT num caso e para o PP no outro’. E ele falou: ‘você acha que isso está adequado?’. Eu falei: ‘não, eu acho que isso está muito exagerado’. Ele falou que estava pensando em tomar providências, não estava gostando que a coisa estava repercutindo de forma muito negativa. Mas logo após veio o pré-sal, e o pré-sal pôs o governo em uma atitude frenética em relação a Petrobrás e aí esses assuntos de ilícitos e de diretores ficaram para terceiro plano. E aí as coisas correram, continuaram correndo do jeito que era.”

COM A PALAVRA, A DEFESA DE LULA

“Palocci muda depoimento em busca de delação

O depoimento de Palocci é contraditório com outros depoimentos de testemunhas, réus, delatores da Odebrecht e com as provas apresentadas.

Preso e sob pressão, Palocci negocia com o MP acordo de delação que exige que se justifiquem acusações falsas e sem provas contra Lula.

Como Léo Pinheiro e Delcídio, Palocci repete papel de validar, sem provas, as acusações do MP para obter redução de pena.

Palocci compareceu ato pronto para emitir frases e expressões de efeito, como “pacto de sangue”, esta última anotada em papéis por ele usados na audiência.

Após cumprirem este papel, delações informais de Delcídio e Léo Pinheiro foram desacreditadas, inclusive pelo MP.

Cristiano Zanin Martins”

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