“Sinto que a gente vai ganhar dinheiro pra caramba”, disse aliado de Richa, segundo delator

“Sinto que a gente vai ganhar dinheiro pra caramba”, disse aliado de Richa, segundo delator

Empresário Eduardo Lopes de Souza, dono da Construtora Valor, afirmou em colaboração premiada que ex-diretor da Educação no Paraná o 'orientou' a ganhar licitações da área

Luiz Vassallo, Julia Affonso e Fábio Serapião

03 Setembro 2017 | 10h00

Campanha de Beto Richa é investigada no STJ. Foto: Pedro Ribas/ANPr

O dono da construtora Valor, Eduardo Lopes de Souza, relatou, em delação premiada, ter sido orientado sobre como ganhar licitações para obras na Secretaria de Educação do Estado do Paraná pelo ex-diretor da Pasta, Maurício Fanini, na gestão do governo Beto Richa (PSDB). Em contrapartida, Fanini, que teria dito ‘prestar contas somente ao governador’, pediu R$ 10 mil, ainda segundo o delator.

O empresário afirmou que durante a execução da obra da escola Oscar Geyer, em Bituruna, a construtora reparou haver um ‘furo no projeto’ e que ‘seria necessário um aditivo para solucionar o problema’.

A delação do empresário foi obtida pela reportagem da RPC (afiliada da TV Globo) no Paraná e confirmada pelo Estadão.

Para resolver o tal ‘problema’, em meados de 2011, Souza alega ter recorrido a Eduardo Paim,  chefe de gabinete do então deputado Valdir Rossini (PSDB) atualmente à frente da Casa Civil de Richa.

Segundo o acordo de colaboração, o parlamentar o teria apresentado ao ex-diretor da Secretaria de Educação, Maurício Jandoi Fanini Antonio, responsável pela aprovação do aditivo.

“Na reunião o Fanini disse que já me conhecia da época da prefeitura de Curitiba, quando foi diretor de pavimentação da secretaria municipal de obras e eu trabalhava com saneamento básico com a EGC. Falamos sobre o aditivo de Bituruna. então o deputado Rossoni perguntou “então Mauricio, não vai ter mais obras lá?”, no que o Fanini disse que teriam várias licitações na Sude para construção e reformas de escolas em todo o Estado. O deputado Rossoni então me “carimbou” como um empreiteiro da confiança dele, no que o Maurício Fanini disse que era para eu ir conversar com ele”, afirmou.

No dia seguinte à reunião, o delator diz ter ido até a Secretaria.

“Assim que abri a porta o Fanini esfregou os braços e disse: ‘Nossa, cheguei a me arrepiar quando você entrou, sinto que a gente vai ganhar dinheiro pra caramba’”, relatou.

O empreiteiro relatou ter ouvido de Fanini que trabalhou por cinco meses na pasta sem ser nomeado e que o próprio governador teria o orientado, em encontro, que fosse ‘ao palácio no dia seguinte que seria resolvido’.

Na mesma reunião, o diretor da Pasta teria dito a ele que estava com ‘dificuldades financeiras’ e que pediu, ‘de cara’, R$ 10 mil. “o Fanini dizia: “quer rir, tem que fazer rir”. Ele me mostrou uma pilha de processos parados num canto da sala dele e disse “esse aí é o pessoal que não quer me ajudar”.

“Ele disse que teriam várias licitações e me orientou a elaborar propostas com descontos agressivos, de forma a garantir minha vitória nas licitações. posteriormente acertariam tudo através de aditivos contratuais. a cada licitação ele dizia qual era o desconto que eu tinha que dar para ganhar (18%, 20%, etc.). Ele me indicava quais eram as obras “boas”, ou seja, aquelas onde não iria faltar recursos, e me orientava a participar. mesmo assim teve algumas poucas licitações que eu perdi, mas eu soube depois que ele tinha feito o mesmo acerto com outras empresas, tendo, em alguns casos, orientado a dar um desconto maior que o meu”, contou.

Segundo o delator, Fanini teria dito que ‘não queria mexer no esquema’ que ele teria com o ‘o deputado rossoni em bituruna/pr, mas insistiu que precisava daqueles R$ 10 mil’.

“Quando a coisa começou a acontecer mesmo na Secretaria da Educação, eu me afastei um pouco do deputado Rossoni, porque o Fanini disse que só tinha uma pessoa para quem ele prestava contas, que era o governador Beto Richa. Ele dizia ‘eu só tenho um senhor’.”

COM A PALAVRA, BETO RICHA

“O governador Beto Richa classifica as declarações do delator como afirmações mentirosas de um criminoso que busca amenizar a sua pena. Tais ilações sequer foram referendadas pela Justiça. E suas colocações são irresponsáveis e sem provas. O governador afirma que nunca teve qualquer contato com o senhor Eduardo Lopes de Souza e sequer fez ou pediu para alguém fazer qualquer solicitação a essa pessoa para a campanha eleitoral de 2014. Todas as doações eleitorais referentes à eleição de 2014 seguiram a legislação vigente e foram aprovadas pela Justiça Eleitoral.

O governador lembra ainda que foi a própria Secretaria de Estado da Educação que, em abril de 2015, detectou disparidades em medições de algumas obras de escolas e abriu auditoria interna sobre o caso. De imediato, o governador determinou a demissão de todos os envolvidos. As informações levantadas internamente também foram repassadas à Polícia Civil, Ministério Público e Tribunal de Contas do Estado para que tomassem as medidas cabíveis. É importante salientar ainda que a Polícia Civil do Paraná investigou e prendeu os suspeitos na denominada Operação Quadro Negro, a qual jamais teve qualquer tipo de informação antecipada.

Cabe lembrar ainda que, conforme despacho do govenador Beto Richa, a construtora Valor e seus responsáveis foram punidos administrativamente pelo Governo do Estado. Nesse despacho do governador, a empresa foi declarada inidônea para participar de licitações com a administração púbica e foi aplicada uma multa de R$ 2.108.609,84.

Seguindo determinação do governador, a Procuradoria Geral do Estado também entrou com ações civis públicas na 1.ª, 4.ª e 5.ª Varas da Fazenda Publica por dano ao erário contra a construtora Valor e pessoas ligadas à empresa, incluindo o senhor Eduardo Lopes de Souza. Os pedidos de indenização pelos danos causados ao Estado somam R$ 41.091.132,80. Há ainda ações de improbidade administrativa contra os envolvidos, que também buscam ressarcimento dos cofres públicos.

Ou seja, todas as medidas cabíveis foram tomadas para reparação e ressarcimento do erário público e punição dos envolvidos”.