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OPERAçãO LAVA JATO

Silvinho Pereira ganhava ‘cala boca’ de R$ 50 mil mensais de empreiteiros, diz delator

Fernando Moura, réu na mesma ação em que é acusado ex-ministro José Dirceu, afirmou a procuradores que os pagamentos começaram quando petista cumpria pena alternativa imposta no mensalão

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

30 Janeiro 2016 | 17h00

O ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira. Foto: Jamil Bittar/Reuters

O ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira. Foto: Jamil Bittar/Reuters

O empresário ligado ao PT Fernando de Moura, um dos delatores da Operação Lava Jato, afirmou aos procuradores da força-tarefa, na quinta-feira, 28, que Silvio Pereira, ex-secretário-geral do PT, recebia “um cala boca” de dois empreiteiros denunciados no esquema de corrupção na Petrobrás.

“Teve o processo todo do mensalão, quando ele cumpriu pena de serviço comunitário. Me parece que o Silvio recebia da OAS e da Ultratec, que (hoje) é a UTC”, afirmou Moura, interrogado pelo Ministério Público Federal em um procedimento para apurar quebra do acordo de delação premiada.

Ele diz ter ouvido que os pagamentos ocorreram quando Silvio Pereira, conhecido no PT como Silvinho, cumpria pena alternativa. Os pagamentos teriam durado até recentemente. “Parece que o Silvio estava recebendo, que era o Leo (Pinheiro, da OAS) e o Ricardo (Pessoa, da UTC).

Questionado pelo procurador da República Roberson Pozzobon, da força-tarefa da Lava Jato, sobre detalhes dos recebimentos de Silvinho Pereira, o empresário disse saber que eram R$ 50 mil “em dinheiro vivo”. “Parece que foi até mais para frente, deve ter acabado quando prenderam o Léo e o Ricardo”, disse Moura.

Os dois empreiteiros foram presos em 14 de novembro de 2014, alvos da 7ª fase da Lava Jato – batizada de Juízo Final.

Interrogado após ter colocado sob risco o acordo de delação premiada que firmou em agosto de 2015 com a força-tarefa do Ministério Público Federal, Moura confirmou que ele próprio recebia mesada de R$ 30 mil do esquema do PT na Petrobrás, desde que estourou o escândalo do mensalão (entre 2004 e 2005). “O ‘cala boca’ eram valores para não revelar o esquema.”

Moura foi ouvido pela Procuradoria após dizer em interrogatório na sexta-feira, 22, ao juiz federal Sérgio Moro – que conduz a Lava Jato em primeiro grau – que não havia dito que saiu do País após receber “dica” do ex-ministro José Dirceu.

Segundo o delator, “era um cala-boca, uma renda fixa paga pela Hope”, empresa que presta serviços para a Petrobrás. “Determinada pelo ex-diretor de Serviços Renato Duque e Milton Pascowitch”, espécie de caixa e contador da propina de Dirceu, segundo ele.

Questionado se Dirceu foi consultado, ele disse acreditar que sim. “O Milton (Pascowitch) não disporia de dinheiro sem ter autorização para isso.”

Também delator da Lava Jato, Pascowitch confessou cuidar da propina do ex-ministro e ter bancado reformas em imóveis da família de Dirceu.

O empresário delator afirmou também que durante o período em que esteve preso ouviu do ex-assessor de Dirceu, Roberto Bob Marques, pedido para que “protegesse” Silvio Pereira. “Quando eu estava na custódia, é que tinham pedido para eu não falar do Silvio.” “Quem pediu?”, quis saber o procurador. “O Bob.” “Roberto Marques?” “Sim. ‘Olha, não fala do Silvio’. Foi nos dois primeiros dias que a gente foi preso, que eu decidi fazer a delação.”

Moura foi questionado sobre o motivo do pedido de Bob. “Não sei, o problema do Sílvio com o PT é muito forte porque todo esse processo que foi feito de Petrobrás, quem começou foi o Silvio.”

O Estado não conseguiu localizar Silvio Pereira na sexta-feira e no sábado.

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