Sibá almoçou no Rio com almirante da Eletronuclear alvo da Lava Jato

Sibá almoçou no Rio com almirante da Eletronuclear alvo da Lava Jato

Relatório da Polícia Federal afirma que líder da bancada do PT na Câmara encontrou-se na praia do Flamengo com Othon Luiz Pinheiro da Silva, 25 dias antes de ex-presidente da estatal ser preso por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

08 Outubro 2015 | 17h51

Deputado Sibá Machado. Foto: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados

Deputado Sibá Machado. Foto: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados

Relatório da Polícia Federal informa que o deputado federal Sibá Machado (PT-AC), líder do partido na Câmara, almoçou com o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, ex-presidente da Eletronuclear em um tradicional restaurante no Rio, em 3 de julho deste ano – 25 dias antes de o militar ser preso por ordem da Justiça Federal. Na ocasião, Othon Luiz estava licenciado da estatal por suspeita de recebimento de propina sobre contratos das obras da Usina de Angra 3. Ele foi capturado na Operação Radioatividade, desdobramento da Lava Jato, em 28 de julho.

“Não se sabendo ainda precisar o motivo do referido encontro nem o assunto específico que foi tratado na ocasião”, afirma o documento da PF, subscrito pela delegada Erika Mialik Marena. “Cabe salientar que no encontro também esteve presente o assessor da presidência da Eletronuclear, Delman Sérgio Ferreira, este que já foi, durante o período de abril de 2002 a junho de 2009, assessor técnico da liderança do Partido dos Trabalhadores.”

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A Lava Jato afirma que Othon recebeu propinas de pelo menos R$ 4,5 milhões nas obras de Angra3 – o dinheiro teria sido repassado por empreiteiras do consórcio contratado na usina para uma empresa de fachada do almirante, a Aratec Engenharia.

Na semana passada, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou o juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba, remeter à Corte máxima os autos da Operação Radioatividade, que revela corrupção no setor elétrico. A medida foi tomada porque um executivo da Andrade Gutierrez Energia, Flávio David Barra – preso com Othon na Radioatividade – citou em depoimento que o senador Edison Lobão (PMDB-MA) teria sido destinatário de propina.

Othon Luiz Pereira da Silva. Foto: André Dusek/Estadão

Othon Luiz Pereira da Silva. Foto: André Dusek/Estadão

Um dia antes do almoço de Sibá na praia do Flamengo, em 2 de julho, a PF grampeou duas ligações de Othon Luiz para uma interlocutora identificada como ‘Socorro’. Na primeira, ambos confirmam o encontro.

“Doutor Othon, alguma restrição quanto a presença de Delman no almoço amanhã?”, perguntou Socorro.

Othon respondeu. “Não. Não tenho nenhuma..nenhuma restrição não.”

“Tá tranquilo pro senhor?”, diz a interlocutora apontada como secretária de Sibá Machado.

“Por mim não tem. O que for bom pro deputado, tá bom pra mim”, disse o almirante.

O segundo telefonema dura menos de dois minutos.

“Tudo bem? Então, pra avisar que o Sibá, que a gente vai chegar aí no Rio, no voo de onze e quarenta e dois”, avisa Socorro. “E aí, segundo o Delman, o senhor já tinha previamente combinado num restaurante no Flamengo chamado Alcaparras, não é isso?”

“Alcaparras. Exatamente!”, responde Othon Luiz.

“Isso! Delman já sabe onde que é”, diz Socorro.

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Em 5 de agosto, uma semana depois da prisão de Othon Luiz, o deputado divulgou no site ‘PT na Câmara’ nota de solidariedade ao então presidente licenciado da Eletronuclear, destacando o papel do almirante no processo de desenvolvimento cientifico e tecnológico do País, especialmente no campo nuclear.

‘Temos convicção de que o almirante provará sua inocência e continuará a contribuir para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil, num momento em que as nações que se destacam no mundo são justamente as que dominam tecnologias de ponta, inclusive a nuclear’, disse Sibá Machado na ocasião, na nota em nome da Bancada do PT na Câmara.

Em seu site, o deputado afirma que foi conselheiro administrativo no Consórcio Energia Sustentável do Brasil/AS (Hidrelétrica de Jirau), entre 2008 e 2010. Em 2004, ele recebeu a medalha de Ordem ao Mérito Aeronáutico, do Ministério da Defesa – Comando da Aeronáutica.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO SIBÁ MACHADO, LÍDER DO PT NA CÂMARA

A assessoria de imprensa da liderança do PT informou que o deputado não vai fazer nenhum comentário sobre o relatório da PF.

A ÍNTEGRA DA ‘NOTA DE APOIO E SOLIDARIEDADE’ DE SIBÁ MACHADO, PUBLICADA QUANDO O ALMIRANTE OTHON LUIZ FOI PRESO NA LAVA JATO

NOTA DE APOIO E SOLIDARIEDADE AO ALMIRANTE OTHON LUIZ PINHEIRO DA SILVA

Em nome da Bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara, manifesto apoio e solidariedade ao Vice-Almirante R1 Othon Luiz Pinheiro da Silva, detido dia 28 de julho na 16ª fase da Operação Lava Jato.

Diretor-presidente licenciado da Eletronuclear (subsidiária da Eletrobras), que hoje gera cerca de 3% da energia elétrica consumida no País, o almirante Othon é um nacionalista, patriota e tem papel que já passou para a história no tocante ao nosso desenvolvimento científico e tecnológico, notadamente no campo nuclear.

Tem atuação comparável à do almirante Álvaro Alberto, outro nacionalista que abriu as portas para o Brasil avançar no campo da pesquisa nuclear, contrariando todas as pressões externas para que o País ficasse à margem das conquistas nessa área.

Othon formou-se pela Escola Naval em 1960 e em engenharia naval pela Escola Politécnica de São Paulo em 1966, e obteve em 1978 sua especialização em engenharia nuclear no Massachussetts Institute of Technology (MIT), nos EUA.

Foi Diretor de Pesquisas de Reatores do IPEN entre 1982 e 1984 e foi fundador e responsável pelo Programa de Desenvolvimento do Ciclo do Combustível Nuclear e da Propulsão Nuclear para Submarinos entre 1979 e 1994. Exerceu o cargo de Diretor da Coordenadoria de Projetos Especiais da Marinha (COPESP), atual Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), de 1986 a 1994.

É o autor do projeto de concepção de ultracentrífugas para enriquecimento de urânio e da instalação de propulsão nuclear para submarinos. O desenvolvimento da tecnologia de ultracentrifugação de urânio é um marco de sucesso na história tecnológica do Brasil.

O projeto concebido pelo almirante inclui o Brasil no seleto grupo de países detentores do ciclo nuclear e é, por isso mesmo, objeto de cobiça internacional. Dada a sua natureza estratégica, de interesse de Estado, é cercado de sigilo.

A Marinha é uma instituição séria que sabe zelar pelos interesses estratégicos do Brasil. A busca de autonomia na área nuclear encaixa-se no projeto de desenvolvimento nacional com autonomia e soberania. A construção de um submarino nuclear eleva o Brasil a um novo patamar na comunidade internacional.

Apoiamos o espírito empreendedor do almirante e repudiamos qualquer tentativa de julgamento prévio dele – assim como de outras pessoas detidas no âmbito da Operação Lava-Jato – com base apenas em delações. Temos convicção de que o almirante provará sua inocência e continuará a contribuir para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil, num momento em que as nações que se destacam no mundo são justamente as que dominam tecnologias de ponta, inclusive a nuclear.

O almirante Othon passou a se destacar na história brasileira ao lutar, nos anos 80 e 90, contra o bloqueio do Ocidente ao acesso ao conhecimento na área nuclear. Enfrentou pressões, foi vigiado no Brasil e no exterior por buscar acesso a um conhecimento que garantisse ao País outro lugar no concerto das nações.

A prisão do almirante pode ser comemorada por setores antinacionais, que ignoram a importância da soberania e dos interesses nacionais. Mas os que pensam num Brasil próspero e soberano, com autonomia tecnológica para fins pacíficos, só podem lamentar sua prisão.

O nosso projeto estratégico, construído com a valiosa cooperação do almirante Othon, não pode ser prejudicado e nem atacado por setores antinacionais em razão da Operação Lava-Jato, que tem gerado questionamentos de renomados juristas. Não cabe a nenhum juiz, de nenhuma instância, o direito de prejudicar o interesse de Estado – que por sua natureza é sigiloso – e destruir um patrimônio nacional construído ao longo de décadas.

O Brasil precisa avançar e pessoas como o almirante Othon são imprescindíveis, pois ele, como outros nacionalistas, guia-se pelo lema do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo: “Tecnologia Própria é Independência”.
Brasília, 5 de agosto de 2015

Dep. Sibá Machado – PT/AC
Líder da Bancada na Câmara”