‘Se não pagarem o que devem, vamos suprimir novamente qualquer emenda, de qualquer MP’

‘Se não pagarem o que devem, vamos suprimir novamente qualquer emenda, de qualquer MP’

Anotações de consultor alvo da Operação Zelotes apontam referências à suposta propina de R$ 6 milhões ao ex-presidente Lula e o ex-ministro Gilberto Carvalho

Fábio Fabrini, de Brasília, e Luiz Vassallo

12 Setembro 2017 | 05h00

Ex-presidente Lula. FOTO: GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

Anotações do consultor João Batista Gruginski, alvo da Operação Zelotes, revelam referências à suposta propina de R$ 6 milhões ao ex-presidente Lula e o ex-ministro Gilberto Carvalho, alvo de denúncia do Ministério Público Federal em Brasília nesta segunda-feira, 11. Os petistas são acusados de cobrar vantagens indevidas em troca de benefícios a empresas do setor automotivo na edição da Medida Provisória 471, que prorrogou incentivos fiscais a montadoras instaladas no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste.

Segundo a Procuradoria, os valores a agentes públicos eram repassados pela montadora CAOA à empresa M&M, que atuou em parceria com outros dois intermediários do esquema: o ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), José Ricardo Silva e o lobista Alexandre Paes dos Santos.

De propriedade Mauro Marcondes – que também integram a lista de denunciados – a empresa M&M foi o canal utilizado para viabilizar o recebimento e a distribuição da propina. Além de garantir a edição e aprovação da MP no Congresso, os recursos também foram usados para comprar o cancelamento de um débito de R$ 265 milhões que era objeto de um recurso no Carf. Este fato, no entanto, é objeto de outra ação penal em tramitação na 10ª vara da Justiça Federal em Brasília. Do total recebido pela M&M, R$ 6 milhões foram prometidos ao ex-presidente Lula e a Gilberto Carvalho, segundo as investigações.

Anotações apreendidas do consultor João Batista Gruginski comprovam o repasse de R$ 6 milhões, segundo o Ministério Público Federal.

“Daí desviou com a história de que a MP a que se destinou a emenda, segundo os parceiros de SP custou seis mi (para a campanha). Querem os de SP aumentar as despesas para tirar do nosso”, consta em um dos papéis.

Segundo os procuradores, ‘GRUGINSKI ainda fala da “emenda” da MMC/CAOA que “salvou o contrato” e faz referência ao que parece ser uma frase dita na reunião, por algum dos presentes, aparentemente uma ameaça de retirada de emendas à MP em caso de inadimplência’.

“Fala o JR que o Mário (aquele que preside Anfavea e que negociava com Lula) viria ao Palácio, ‘amanhã, para audiência marcada para a parte da manhã’. Assunto da Anfavea. Mas, terminada a reunião, haveria a possibilidade de almoçarmos juntos.  – – Então o assunto MMC-CAOA volta à pauta, sem que tenha sido agraciado com nenhuma palavra… Mas, certamente é o caso da emenda que salvou o contrato… & ” … porque se não pagarem o que devem, vamos suprimir novamente qualquer emenda, de qualquer MP”, escreve o consultor.

COM A PALAVRA, LULA, GILBERTO CARVALHO E CAOA

O Estado entrou em contato com as defesas ou as assessorias de imprensa de Lula, de Gilberto Carvalho e de Carlos Alberto de Oliveira Andrade, mas ainda não obteve resposta.

COM A PALAVRA, MAURO MARCONDES MACHADO

O advogado Roberto Podval, que defende Mauro Marcondes Machado, disse que a denúncia repete imputações já feitas pelo MPF em outra ação contra seu cliente. “Há um excesso de acusação”, criticou.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE JOSÉ RICARDO DA SILVA

A defesa de José Ricardo da Silva informou, em nota, que só vai se pronunciar depois de citada, caso a denúncia seja aceita pela Justiça e aberta uma ação penal.

COM A PALAVRA, PAULO ARANTES FERRAZ

A advogada Carla Domênico, de de Paulo Arantes Ferraz, informou que ainda não pode comentar a peça de acusação, pois não teve tempo de examiná-la integralmente.

COM A PALAVRA, ALEXANDRE PAES DOS SANTOS

O advogado Daniel Gerber, que representa Alexandre Paes dos Santos, afirmou ter “a mais absoluta convicção” de que a denúncia é fruto de um “Estado acusatório”, e não do efetivo envolvimento de seu cliente em ilícitos. Ele acrescentou que, no curso de ação penal (caso seja aberta), a inocência de Paes será provada.

 

 

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