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Operação Lava Jato

‘Se homem não tem saco, quem sabe uma mulher corajosa possa fazer o que os homens não fizeram’, diz Lula sobre Rosa Weber

Por Fabio Fabrini, Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

17/03/2016, 08h47

   

Ex-presidente pediu ao então chefe da Casa Civil Jaques Wagner para falar com Dilma sobre ministra do Supremo Tribunal Federal

Ministra Rosa Weber. Foto: Carlos Humberto/SCO/STF

Ministra Rosa Weber. Foto: Carlos Humberto/SCO/STF

As interceptações telefônicas da Polícia Federal que pegaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelam pelo menos quatro conversas em que é citada a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Rosa Weber.

Numa delas, o petista fala com a presidente Dilma Rousseff, após ser levado coercitivamente para depor, alvo da Operação Aletheia, no dia 4 de março.

“Como é que pode um delegado da Polícia Federal dá uma declaração contra a mudança de Ministro?”, queixa-se Lula à Dilma em determinado momento.

Dilma responde: “Eu nunca vi isso, eu também nunca vi isso!”.

O ex-presidente comenta que acredita que a Operação Aletheia teria sido deflagrada naquele dia para “antecipar o pedido” junto ao STF.

“Eu acho que eles quiseram antecipar o pedido nosso que tá na Suprema Corte, que tá na mão da Rosa Weber.” A conversa foi gravada às 13 horas, logo após Lula terminar seu depoimento no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

LULA E DILMA DIA 4 ROSA

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Após o diálogo com a presidente, Lula fala com o então ministro da Casa Civil Jaques Wagner e solicita que ele converse com Dilma sobre o “negócio da Rosa Weber”.

“Mas viu querido, ‘Ela’ tá falando dessa reunião, ô Wagner eu queria que você visse agora, falar com “Ela”, já que “Ela” tá aí, falar o negócio da Rosa Weber, que tá na mão dela pra decidir. Se homem não tem saco, quem sabe uma mulher corajosa possa fazer o que os homens não fizeram”.

O ministro responde a Lula: “Tá bom, falou! Combinado”.

Na decisão em que levantou o sigilo das escutas, o juiz federal Sérgio Moro – que conduz os processos da Lava Jato em primeiro grau – escreveu que “um dos casos citados” nos grampos que revelam tentativa de interferência no Judiciário envolve a ministra do STF.

“Há, aparentemente, referência à obtenção de alguma influência de caráter desconhecido junto à Exma. Ministra Rosa Weber do Supremo Tribunal Federal, provavelmente para obtenção de decisão favorável ao ex-Presidente na ACO 2822, mas a eminente Magistrada, além de conhecida por sua extrema honradez e retidão, denegou os pleitos da Defesa do ex-Presidente.”

No pedido, a defesa de Lula queria que as investigações da Lava Jato sobre ele fossem suspensas.
Outros diálogos. Há outros diálogos que antecedem a data da condução coercitiva que levaram a PF a concluir que Lula buscava no governo influir na decisão da ministra.

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No dia 26 de fevereiro, às 17h12 há um diálogo entre o assessor de Lula e o advogado Roberto Teixeira, compadre do ex-presidente. Na interpretação da PF, Teixeira “pede que Moraes informe que o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva (Lils) deve entrar em contato imediatamente com o ministro da Casa Civil, Sr. Jaques Wagner, para avisá-lo que o ‘nome do assunto é Rosa Weber’”.

Moraes pede para falar com Roberto Teixeira. “Dr. Roberto ele esteve aqui no Rio e está indo para Salvador vai passar o final de semana lá.”

O compadre responde: “Ai meu Deus do céu”. “Meu deus do céu. Ele está indo? Já saiu?”

O segurança de Lula responde: “Tá, o ajudante de ordem falou que ele tava indo em direção ao aeroporto. Então, dá pra você conversar com ele pra ele esperar uma ligação de “nosso amigo”…

Teixeira então manda um recado: “Fala pra ele, fala pro ‘nosso amigo’ aí que o nome daquele assunto é Rosa Weber”.
No mesmo dia 26, às 17h15, há um diálogo entre Lula e Teixeira em que o ex-presidente é avisado que “o processo de Lils caiu com Rosa Weber”.

“Lils diz que o ‘baianinho está indo embora’, referindo-se ao fato de que Jaques Wagner está no Rio de Janeiro, porém vai viajar naquele dia para Salvador”.

Lula pergunta a Teixeira: “Só para lembrar. O que é essa pessoa, esse nome que você falou?”.
O compadre responde: “Aquela ‘coisa’ caiu com ‘ela’”.

“Caiu com ela? Tá bom”, responde Lula.

Teixeira fala sobre o “baianinho” que para a PF seria o ex-ministro da Casa Civil e ex-governador da Bahia Jaques Wagner. “Agora eu sei que aquele ‘baianinho’ está indo embora. Eu acho que ele que é o caminho para falar com ela.”

Lula responde: “Eu vou tentar falar com ele”.

Na sequência, Lula liga para Jaques Wagner e diz que precisa de um encontro com ele.

No dia seguinte, 27 de fevereiro, há uma conversa entre Lula e o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), além de Jaques Wagner e Valmir Moraes da Silva. “No referido, Lils avisa JW que ‘Paulinho’ – referindo-se ao deputado Paulo Teixeira – precisa falar urgente com JW”.

“É urgente de urgente de urgente de urgente”. Para a PF, possivelmente trata-se do pedido já especificado em ligações anteriores, nas quais LILS pede que JW interceda junto a Exma. Sra. Presidente Dilma Rousseff a respeito do assunto definido como ‘Rosa Weber’”.

Para os investigadores da Lava Jato, “há indícios de que o ministro da Casa Civil Jaques Wagner tivesse conhecimento de que os telefones utilizados por LILS fossem objeto de monitoramento telefônico autorizado pela 13ª Vara Federal de Curitiba”.

Isso porque o deputado Paulo Teixeira “solicita um encontro pessoalmente com Jaques Wagner para tratarem do assunto”. “JW orienta Paulo Teixeira a efetuar uma ligação a partir do telefone PABX do hotel onde estavam para evitar serem monitorados: “Faz ligação pelo PABX de hotel, acho impossível ter algum problema”.

 

 

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