Rizoma mira suposto operador de Renan Calheiros

Rizoma mira suposto operador de Renan Calheiros

Milton Lyra já foi alvo de outras fases da Lava Jato e seria operador do ex-presidente do Senado. Investigadores mapearam repasses de fundos com ligação com Postalis para firmas do empresário

Fabio Serapião e Fausto Macedo

12 Abril 2018 | 07h44

Um dos alvos da operação Rizoma, deflagrada nesta quinta-feira, 12, pela Lava Jato do Rio de Janeiro é o empresário Milton Lyra, apontado como operador do senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Lyra é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) no mesmo inquérito em que Calheiros por suposta atuação em investimentos fraudulentos do Postalis. Em relatório anexado ao inquérito, o MPF aponta que Lyra recebeu R$ 13,8 milhões de fundos de investimentos em que o Postalis é cotista – R$ 3,5 milhões do Atlântica Real Sovereign e R$ 10,3 do Brasil Sovereign II.

“A partir da análise documental do Relatório de Inteligência Financeira nº 20044, pode-se verificar que Milton Lyra teve movimentação financeira de forma indireta com o Postalis no montante de R$ 13.898.693,85 por meio de recebimento de valores dos Fundos de Investimento da Atlântica Real Sovereign Fundo de Investimento e da Brasil Sovereign II Fundo de Investimento de DI, visto que ambas tem a Postalis como cotista”, diz o pedido de abertura da investigação feito pelo então ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot.

Na Rizoma, segundo o MPF, é investigado o envio de valores oriundos dos fundos para empresas no exterior gerenciadas por um operador financeiro brasileiro. As remessas, apesar de aparentemente regulares, referiam-se a operações comerciais e de prestação de serviços inexistentes.

Sigilo. Janot, ao pedi investigação contra Renan e Lyra, também apontou que a quebra de sigilo telemática de Lyra mostra que há nada menos que seis números de telefone e um e-mail constantes em seu celular como sendo de Alex Predtechensky, ex-presidente do Postalis e denunciado por desvios no fundo.

Em setembro de 2017, o Estado mostrou que o contador José João Appel Mattos aparece como sócio da empresa contábil responsável pelo ML Group Participações, de Milton Lyra. A informação consta em relatório do Ministério Publico Federal que investiga o ex-presidente do Senado Renan Calheiros. Appel Mattos também é ligado a Renan.

Em 2007, o senador por Alagoas levou Appel Mattos como seu contador em seu depoimento no Conselho de Ética. A presença do contador tinha como finalidade explicar as transações de Renan para pagar a pensão da jornalista Mônica Veloso.

O senador, à época, era suspeito ter os gastos da pensão devida à jornalista pagos por uma empreiteira.

Anotação.  Na quebra de sigilo telemático do empresário Lyra, a PF encontrou uma anotação com citação a sua “amizade” com Calheiros (PMDB-Al). “Surpreende-se anotação aludindo ao esquema do Panamá Papers, à amizade com Rena Calheiros e ao contato com o banco UBS”, escreveu o então procurador-geral Rodrigo Janot em pedido de abertura do inquérito contra Calheiros, Lyra e empresário  Arthur Pinheiro Machado – este último também preso na Rizoma.

COM A PALAVRA, OS CRIMINALISTAS PIERPAOLO BOTTINI E ALEXANDRE JOBIM, DEFENSORES DE MILTON LYRA
“A defesa do empresário Milton Lyra informa que seu cliente já havia se colocado à disposição da Justiça do Distrito Federal, que apura o caso, para esclarecimento dos fatos. Ao tomar conhecimento da decisão da Justiça do Rio de Janeiro, prontamente, por meio de seus advogados, o empresário entrou em contato com a Polícia Federal para apresentar-se. A defesa assevera ainda que as atividades profissionais do empresário são lícitas, o que já foi comprovado em diversas oportunidades, e que seu cliente está e sempre esteve à disposição para colaborar com a Justiça e com a investigação.”
Pierpaolo Bottini e Alexandre Jobim

COM A PALAVRA, A DEFESA DE ARTHUR PINHEIRO MACHADO E PATRÍCIA IRIARTE

“A defesa de Arthur Pinheiro Machado e de Patricia Iriarte refuta, de forma veemente, qualquer relação entre os empresários e atos ilícitos. Informa que ambos sempre agiram no mais absoluto respeito à legislação e que não compactuam com práticas ilegais.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO AFONSO DESTRI, QUE DEFENDE SERENO

O advogado de Marcelo Sereno, Afonso Destri, negou as acusações contra seu cliente e criticou a conduta do juiz Marcelo Bretas de decretar a prisão de Sereno. “Existem ilações do Ministério Público, então é natural que se investigue. Mas a investigação é embrionária, está só começando, e não deveria começar com a decretação da prisão, que é a medida mais dura do Direito Penal”, afirmou o advogado. “A prisão é a pior medida, é medieval, e não pode ser usada como instrumento de produção de provas”, criticou. Destri afirmou estar tomando ciência da decisão judicial para em seguida impetrar habeas corpus em favor de seu cliente.