Preso na Carne Fraca diz que peemedebista recebeu ‘muito dinheiro’ de fiscal corrupto

Preso na Carne Fraca diz que peemedebista recebeu ‘muito dinheiro’ de fiscal corrupto

Grampo da Operação flagrou ex-superintendente regional do Paraná Gil Bueno de Magalhães relatando que atual presidente da Comissão de Agricultura na Câmara Sérgio Souza (PMDB-PR) teria recebido recursos de Daniel Gonçalves Filho, apontado como líder do esquema de corrupção no Ministério da Agricultura

Mateus Coutinho, Fábio Serapião e Julia Affonso

23 Março 2017 | 14h58

O deputado federal Sérgio Souza (PMDB-PR). Foto: Lucio Bernardo/Agência Câmara

O deputado federal Sérgio Souza (PMDB-PR). Foto: Lucio Bernardo Junior/Agência Câmara

Eleito por unanimidade nesta quinta-feira, 23, presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara, o deputado federal Sérgio Souza (PMDB-PR) tem seu nome citado em grampos da Operação Carne Fraca como tendo recebido “muito dinheiro” do fiscal apontado como líder do esquema criminoso no Ministério da Agricultura e preso pela PF, Daniel Gonçalves Filho. Na conversa, o representante de uma cooperativa agrícola chega a afirmar ainda que o parlamentar teria “rabo preso”.

O próprio deputado aparece, segundo relatório da PF, em uma conversa com um advogado sobre as possibilidades jurídicas para reverter uma suspensão de 90 dias a que Gonçalves Filho teria sido condenado por conta de irregularidades no MAPA. O ex-assessor do deputado, Ronaldo Troncha, também aparece em conversas da interceptadas pela Carne Fraca e foi alvo de condução coercitiva expedida pela Justiça Federal do Paraná. Ele se apresentou nesta quinta-feira, 23, à PF para depor.

O nome de Souza surgiu em um diálogo de 11 de abril de 2016 entre o ex-superintendente regional do Paraná e que estava lotado no Serviço de Vigilância Agropecuária no Porto de Paranaguá (PR) até a deflagração da operação, Gil Bueno de Magalhães, e um interlocutor identificado como Francisco e que representa a Cooperativa Agroindustrial Castrolanda, em Castro (PR).


Em um determinado momento da conversa, Francisco pergunta a Gil sobre o deputado:

“Francisco: Gil, aquele, aquele Sérgio Souza, pelo que me falaram, ele tá, ele tá a favor do PT nessa história do impeachment, impeachment?

Gil: Hã han. Tá ele recebe, ele recebeu muito dinheiro do suspenso aí (em referência ao fiscal Daniel Filho, que na época havia sido suspenso devido a um processo administrativo no Ministério da Agricultura)

Francisco: Ah…ah, ele tá com o rabo preso

Gil: É (ininteligível) com ele é, entende?

Francisco: Humm

Gil: Então eu não sei o que ele vai

Francisco: Tá louco, quem escapa hoje em dia não?

Gil: É, é complicado, tá?

Francisco: É”

 

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O diálogo ocorreu na véspera da votação na Câmara sobre a continuidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Na ocasião, o governo tentava conseguir os votos do PMDB, que foi eleito na chapa de Dilma e seu vice Michel Temer (PMDB) em 2014, mas acabou abandonando o governo na reta final do processo de afastamento da petista. No dia 17 de abril daquele ano, a Câmara aprovou, por unanimidade, a continuidade do processo de impeachment, que seguiu para o Senado.

Apesar das menções aos parlamentares, a PF não identificou suspeitas de crimes envolvendo os políticos com foro privilegiado. Desde novembro, a Procuradoria da República no Paraná compartilhou com o procurador-geral da República Rodrigo Janot os resultados dos grampos.

Briga. Não é a primeira vez que o nome do deputado, que agora vai presidir a comissão responsável por discutir a política agrícola do País, é citado como relacionado ao fiscal preso na Operação Carne Fraca. Na terça-feira, 21, a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) afirmou da tribuna do Senado que foi pressionada no ano passado por Sérgio Souza e Serraglio para manter Daniel Gonçalves no cargo. Até o impeachment, a senadora era ministra da Agricultura no governo Dilma.

A versão vai de encontro aos diálogos interceptados pela PF na Carne Fraga. Em um deles, por exemplo, a chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal, Maria do Rocio afirma ao funcionário da Seara Flávio Cassou que Souza havia prometido “segurar, segurar, segurar”, Daniel no cargo.

O diálogo ocorreu em 12 de abril de 2016, quando Flávio informou Maria sobre o afastamento de Daniel na época devido a um processo administrativo no Ministério.

“Flavio: Isso, é que agora ontem suspenderam e hoje exoneraram

Maria: Tá brincando

Flávio: Foi ele, foi Tocantins, foi São Paulo. PMDB FOI TUDO. Dai eu queria saber com o deputado pra ver se precisa dar um toque, dar uma mexida, mexer na empresa, mas ele não me atende o desgraçado

Maria: Tá brincando”.

Deflagrada na sexta-feira, 17, a Carne Fraca levou ao afastamento de 33 servidores da Agricultura após identificar que haveria um esquema de corrupção nas regionais do Ministério da Agricultura nos Estados do Paraná, Minas Gerais e Goiás.

Na lista de irregularidades identificadas pela PF estão o pagamento de propinas a fiscais federais agropecuários e agentes de inspeção para comercialização de certificados sanitários e aproveitamento de carne estragada para produção de gêneros alimentícios. Os pagamentos indevidos teriam o objetivo de atender aos interesses de empresas fiscalizadas para evitar a efetiva e adequada fiscalização das atividades, segundo a investigação.

Ronaldo Troncha, que trabalhou com o peemedebista entre abril de 2015 e outubro de 2016, também aparece na investigação da Carne Fraca e teria proximidade com Daniel Gonçalves Filho. Ronaldo teria recebido duas transferências de R$ 10 mil entre 2009 e 2011. O fiscal agropecuário nega que tenha cometido qualquer irregularidade.

Atualmente, Daniel Filho, Maria do Rócio e Gil, que aparecem nos grampos, estão presos.

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DO PMDB:

O PMDB não autoriza ninguém a falar em nome do partido e está à disposição da justiça para qualquer esclarecimento.

COM A PALAVRA, A JBS:

“A JBS não compactua com qualquer desvio de conduta de seus funcionários e tomará todas as medidas cabíveis.”

COM A PALAVRA, A CASTROLANDA:

“A Castrolanda tem entre seus principais valores a transparência e o diálogo divulgado entre o investigado e o representante da cooperativa é de caráter informativo da mudança na superintendência do MAPA. ”

COM A PALAVRA, O DEPUTADO SÉRGIO SOUZA:

Segundo o deputado, ele não sabia do processo administrativo de Gonçalves Filho e não recebia informação. “Não lembro se falei com o advogado do processo. Se foi, foi para tratar do processo administrativo dele”. De acordo com o deputado, quando o fiscal recebeu a punição de 90 dias, ele teria ligado para dizer que a suspensão era uma perseguição política da ministra Kátia Abreu por conta da posição favorável de Sérgio Souza ao impeachment da presidente Dilma Rousseff(PT).

O peemedebista explica que á época do impeachment, o atual ministro da Justiça, Osmar Serraglio, e ele eram de um grupo antagonista ao formado pelos correligionários Kátia Abreu e Roberto Requião. Essa disputa política, pelo fato do apoio à cassação de Dilma, diz o deputado, teria resultado até no congelamento de suas emendas parlamentares empenhadas.

Embora confirme a “perseguição política” argumentada por Gonçalves Filho, o deputado afirma o aconselhou a procurar um advogado para resolver o problema da punição.

SOUZA