Por 40 a 1, Câmara engata ré no transporte público carioca

Leandro Lyra

07 Dezembro 2017 | 04h35

Na quinta-feira 23 de novembro, a Câmara de Vereadores aprovou, por 40 votos favoráveis a 1 contrário, a obrigatoriedade dos cobradores nos ônibus cariocas. Votei contra.

A motivação daqueles que foram favoráveis ao retorno dos cobradores gira em torno de dois pontos: fim da dupla função dos motoristas e criação de empregos.

Em cidades que são referência em mobilidade no mundo, o problema da dupla função é solucionado pelo uso ativo do bilhete eletrônico.

Os sistemas mais modernos empregam apenas bilhetagem eletrônica ou estratégias de diferenciação tarifária para estimular a população a utilizar menos dinheiro em espécie, acabando com os efeitos negativos da dupla função.

Não é preciso ir a Paris ou Nova York; aqui no Brasil, a cidade de Goiânia não tem cobradores há 20 anos. Assim, caminhamos para um atraso de 20 anos em relação ao próprio Brasil.

Ao incentivarmos o uso do bilhete eletrônico, teremos um transporte público mais eficiente, transparente, seguro e moderno.

Mais eficiente, porque reduziremos o tempo de embarque e permitiremos uma maior integração entre modais.

Mais transparente, porque teremos registros eletrônicos das passagens pagas nos coletivos, dificultando lavagem de dinheiro e sonegação.

Mais seguro, porque reduziremos os valores em espécie dentro dos coletivos e, consequentemente, o ímpeto para assaltos.

Mais moderno, porque, com as informações do sistema de bilhete eletrônico, poderemos construir uma malha de transporte mais inteligente e adequada às necessidades da cidade.

E quanto aos empregos? É fato que, ao se optar pelos cobradores ao invés do bilhete eletrônico, criar-se-ão empregos no Rio.

Porém se empregos nascessem facilmente assim, de uma simples votação na Câmara dos Vereadores, por que, dada nossa situação atual, não criamos o dobro colocando um segundo cobrador em cada ônibus? Porque, nesses casos, apenas metade da história foi contada e quem pagará a conta dos salários e da readaptação dos ônibus é, justamente, quem anda neles.

O Secretário de Transportes do Rio declarou, quando ocorreu a primeira votação do projeto, que a medida aumentaria, no mínimo, em 4% o valor da passagem, à época em R$ 3,80, resultando em um acréscimo de 15 centavos.

Há aqueles que dizem que a tarifa foi superfaturada e que, por isso, a medida é aceitável. Mas então que se reduza a tarifa!

O que, inclusive, já foi feito (hoje pagamos R$ 3,40).

O que não podemos aceitar é que o carioca passe a pagar um valor mais caro em virtude de uma escolha errada da Câmara dos Vereadores. Deveríamos, ao invés disso, aumentar o número de pontos de recarga e ampliar a concorrência no serviço de bilhetagem eletrônica.

Fui o único voto contrário ao projeto que obriga o retorno dos cobradores por ter a convicção de que este não é o melhor nem para o transporte público do Rio, nem para o bolso do cidadão carioca.

*Leandro Lyra é engenheiro e vereador, pelo Partido NOVO, no Rio de Janeiro.

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