PMDB ordenou propina a Delfim Netto por Belo Monte, afirma delator

PMDB ordenou propina a Delfim Netto por Belo Monte, afirma delator

Luiz Carlos Martins, da Camargo Corrêa, apontou pagamento de R$ 160 mil, em quatro parcelas, ao ex-ministro, via sobrinho Luiz Appolonio Neto

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

15 Junho 2016 | 05h00

O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, citado em delação da Lava Jato

O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, citado em delação da Lava Jato

Em depoimento à Polícia Federal, o engenheiro Luiz Carlos Martins, delator da Operação Lava Jato ligado à Camargo Corrêa, afirmou que o PMDB determinou propina de 10% ao ex-ministro Delfim Netto sobre valor de contratos das obras da Usina de Belo Monte. O executivo declarou que pagou R$ 160 mil em quatro parcelas.

Luiz Carlos Martins fechou seu acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal em meados de 2015. O executivo continuou prestando depoimentos este ano.


Em 25 de junho do ano passado, o engenheiro relatou que durante uma reunião, em 2012, o então presidente da Andrade Gutierrez Energia, Flávio Barra, ‘informou que do valor de 1% da propina que deveria ser dividida entre as empresas, ao invés de ser 50% para o PT e 50% para o PMDB, seria na verdade 45% para cada, e 10% seria destinado a Delfim Netto’.

“Todos reclamaram disso, mas Flávio informou que era uma determinação do agente político do PMDB”, declarou o executivo.

Nota fiscal de pagamento à Aspen, apresentada pela Camargo. Foto: Reprodução

Nota fiscal de pagamento à Aspen, apresentada pela Camargo. Foto: Reprodução

Na semana passada, a PF intimou Delfim Netto para depor e explicar o motivo de ter recebido R$ 240 mil da Odebrecht, que também fez parte do Consórcio de Belo Monte. Delfim foi ministro da Fazenda (1967/1974) e criador do ‘milagre econômico’ da ditadura militar. O nome do economista, também ex-deputado federal, foi citado na delação premiada da empreiteira Andrade Gutierrez pelo suposto recebimento de valores ainda não explicados no empreendimento da Usina de Belo Monte.

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À PF, Luiz Carlos Martins, da Camargo Corrêa, citou o advogado Luiz Appolonio Neto, sobrinho de Delfim Neto. “Flávio disse que uma pessoa chamada Luiz Appolonio, secretário de Delfim iria procurar cada empresa, e que teria dado o contato dos participantes da reunião; que efetivamente Luiz Appolonio ligou para o declarante e lhe chamou para “tomar um cafezinho”; que o declarante se encontrou com o mesmo, e no encontro foi informado de que Delfim tinha auxiliado na formação do consórcio de investidores, confirmando o quanto já dito por Flávio Barra”, relatou.

O executivo afirmou que, no encontro, Luiz Appolonio perguntou ao a ele quanto poderia ser pago. Luiz Carlos Martins disse que sugeriu pagar R$ 160 mil em quatro parcelas, até o fim de 2012.

Luiz Carlos Martins entregou quatro notas fiscais e o contrato firmado pela Camargo Corrêa com a Aspen Assessoria e Planejamento, empresa controlada pelo ex-ministro. Nos recibos, de R$ 40 mil, o serviço é discriminado como ‘prestação de serviço de consultoria econômica e empresarial’. As notas foram emitidas, todas para 2012, nas datas de 6 de junho, 5 de julho, 6 de agosto e 10 de setembro.

“Os pagamentos foram feitos à própria empresa de Delfim Netto, chamada Aspen Assessoria e Planejamento”, declarou. “Depois disso nenhum outro contrato fictício ou pagamento foi feito.”

Lembrança. Luiz Appolonio Neto foi conduzido coercitivamente na Operação Xepa, 26ª fase da Lava Jato, em 22 de março deste ano. A Lava Jato achou o nome do sobrinho de Delfim Netto em uma planilha secreta de propina da Odebrecht. O documento foi apreendido na casa da secretária de altos executivos da empreiteira, Maria Lúcia Guimarães Tavares, suspeita de ser responsável por parte da distribuição da “rede de acarajés” – que seria referência a propina.

Na planilha, o nome do advogado estava ligado ao codinome ‘professor’ e à informação ‘entrega no endereço Alameda Lorena, em São Paulo, a ser liquidado nas datas de 22 de outubro de 2014 no valor de R$ 240 mil’.

Em depoimento à Operação Lava Jato, em 22 de março, Appolonio havia sido questionado sobre os valores e informou, na ocasião, que ‘não se recordava’ dos R$ 240 mil. Semanas depois, em petição anexada aos autos da Lava Jato, Luiz Appolonio deu a nova versão.

“Embora não tenha se lembrado na data da sua oitiva a respeito de detalhes do referido recebimento, realizou levantamentos posteriores e verificou que referidos valores não lhe pertencem, apenas foram recebidos no endereço acima mencionado a pedido do economista Antonio Delfim Netto, o qual por motivos particulares e em razão de sua avançada idade, não quis receber em seu escritório. O montante foi integralmente repassado a ele”, informou a petição.

A reportagem fez contato com PT e PMDB, que não retornaram. Quando foram citados anteriormente, os partidos negaram taxativamente a prática de ilícitos.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO EX-MINISTRO DELFIM NETTO

Os advogados Ricardo Tosto e Maurício Silva Leite, defensores de Delfim Netto, informaram que o ex-ministro recebeu por serviços de consultoria. “Delfim Netto, por meio de seus advogados, informa que prestou serviços de consultoria na área econômica e que recebeu os respectivos honorários pelo trabalho realizado.”

COM A PALAVRA, LUIZ APPOLONIO NETO

A defesa de Luiz Appolonio Neto informou que ‘ele exerce atividade de consultoria empresarial nos moldes da legislação vigente e refuta a pratica de qualquer irregularidade’.