PF investigava “lobista” da JBS

PF investigava “lobista” da JBS

Antes da delação dos irmãos Batista, PF mapeou atuação de supostos lobistas da empresa na investigação da operação Bullish

Fabio Serapião

18 Maio 2017 | 12h06

Foto: Jonne Roriz/Estadão

O diretor de Relações Institucionais da Holding J&F Ricardo Saud era visto pelos investigadores da operação Bullish como lobista da empresa junto a políticos brasileiros. No entendimento do Ministério Público e da Polícia Federal, Saud atuaria “corriqueiramente” na corrupção de agentes públicos em busca de lucro mesmo que por meio da prática de fraudes fiscais e financeiras em detrimento do erário.

Saud é um dos diretores da empresa que assinaram um acordo de delação premiada com a Procuradoria-geral da República. Ele foi o responsável pelas quatro entregas de R$ 500 mil ao primo do senador Aécio Neves, Frederico Pacheco, e também pela negociação e entrega de valores para o ex-assessor de Michel Temer, o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB).

A holding J&F é dona da JBS (Seara, Friboi, Swift) e de empresas dos setores de calçado, celulose, energia, financeiro e de produtos de limpeza. Os donos da J&F são os irmãos Wesley e Joesley Batista. Além da Bullish, o dois são investigados na Greenfiled e na Sépsis.


Para os investigadores, a atuação de Saud era indispensável para a inserção e aproximação de diretores da JBS no meio político. O diretor da empresa é visto como o “Cláudio Melo Filho” da holding J&F. Melo Filho é ex-diretor da relações Institucionais da Odebrecht e assinou acordo de colaboração premiada no qual relatou o pagamento de propina para diversos políticos.

No caso da Bullish, o objetivo da investigação é saber se por meio de Saud e Assis e Silva os irmãos Batista pagaram propina para agentes públicos e políticos para facilitar o aporte de R$ 8,1 bilhão na JBS. Até o momento, o ex-ministro Antonio Palocci é o único político mapeado na teia de relações da empresa. Entretanto, a partir do mapeamento das relações da J&F com operadores como Lúcio Bolonha Funaro, os investigadores procuram alcançar novos nomes.

O Estado revelou ontem que Ricardo Saud saiu do Brasil com destino aos Estados Unidos no mesmo avião que Joesley Batista, dias antes da deflagração da Bullish. Por conta da ausência dos dois, a Polícia Federal não cumpriu as medidas cautelares impostas a eles pelo juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Criminal Federal de Brasília.

Chama a atenção dos investigadores a proximidade de Saud com os irmãos Batista. MPF e PF juntaram na investigação que deu origem à operação Bullish a informação sobre Saud ter sido, em 2015, suplente de Joesley no Conselho de Administração da Eldorado Celulose.

Empresa do ramo de celulose da Holding J&F, a Eldorado é investigada, assim como seus acionistas, na operação Greenfield. Também neste caso os investigadores apuram se uma suposta organização criminosa, formada por empresários, lobistas, agentes públicos e políticos, atuou para viabilizar os aportes milionários dos fundos de pensão Funcef e Petros na Eldorado.

Os investigadores também sabem da passagem de Saud pelo Ministério da Agricultural quando o ministro era Wagner Rossi. Informações colhidas preliminarmente pela polícia mostram que Saud foi diretor Departamento de Cooperativismo e Associativismo Rural do Ministério da Agricultura, em 2011, e se envolveu em um dos escândalos que resultaram na saída de Rossi do governo de Dilma Rousseff (PT).

Saud trabalhava com Rossi no ministério e teria emprestado o jatinho de uma empresa na qual teria participação, a Ourofino Agronegócios, para viagens de seu chefe. Tanto Rossi como Saud negaram qualquer irregularidade à época.

O Estado questionou a holding J&F e abriu espaço para que ela e os dois diretores citados pudessem se posicionar sobre os fatos narrados na reportagem. A empresa informou que não irá se manifestar.

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