PF busca elo entre mensalão e Lava Jato em negócios da Schahin com amigo de Lula e Petrobrás

PF busca elo entre mensalão e Lava Jato em negócios da Schahin com amigo de Lula e Petrobrás

Força-tarefa encontra indícios de ligação entre a quitação de dívida de R$ 60 milhões do PT com empresa por campanha presidencial de 2006, citada por delator, e o empréstimo do Banco Schahin a José Carlos Bumlai, em 2004, em episódio que envolveria pagamento de suposta chantagem no caso Celso Daniel

FAUSTO MACEDO, RICARDO BRANDT E JULIA AFFONSO

28 Outubro 2015 | 05h00

O pecuarista José Carlos Bumlai, que é o novo alvo da Lava Jato / Foto: Gabriela Bilo / Estadão

O pecuarista José Carlos Bumlai, que é o novo alvo da Lava Jato / Foto: Gabriela Bilo / Estadão

A força-tarefa da Operação Lava Jato apura se existe relação entre a suposta dívida de R$ 60 milhões da campanha de reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006, com o Grupo Schahin e o empréstimo de R$ 12 milhões feito pelo banco do grupo, em 2004, para o pecuarista José Carlos Bumlai – novo alvo das investigações, em Curitiba.

As apurações partem da revelação dos novos delatores da Lava Jato, o ex-gerente de Internacional da Petrobrás Eduardo Musa e o lobista Fernando “Baiano” Soares. Segundo eles, contrato de US$ 1,6 bilhão da estatal foi dirigido em 2011 para a Schahin, com intermediação de Bumlai e Baiano, como forma de compensar o grupo pela dívida eleitoral.

A ligação de Bumlai nesses dois episódios obscuros envolvendo as finanças do PT e empresas do cartel acusado de corrupção na Petrobrás pode unificar dois dos maiores escândalos das administrações petistas, a Lava Jato e o mensalão, avaliam investigadores do caso.


Um dos caminhos desse apuração é um documento apreendido pela Polícia Federal, em março do ano passado – quando foi deflagrada a Operação Lava Jato – no escritório da contadora do doleiro Alberto Youssef, Meire Pozza.

É um contrato de mutuo, no valor de R$ 6 milhões, de 2004 envolvendo a a empresa 2S Participações Ltda, do publicitário Marcos Valério, a Expresso Nova Santo André, do empresário Ronan Maria Pinto, de Santo André, investigado na morte do prefeito petista de Santo André, em 2002, e a Remar Agenciamento e Assessoria. Assinam os representantes da 2S e da Remar.

CONTATO 2S E RONAN

CONTATO 2S E RONAN 2

No mesmo ano, 2004, o Banco Schahin concedeu um empréstimo para Bumlai de R$ 12 milhões. O pecuarista diz que o dinheiro seria usado para negócios na área rural. “Fiz um empréstimo para meus negócios, meus agronegócios que envolvia R$ 12 milhões. Isso aí já serviu para tudo, para pagar aquele caso de Santo André, para pagar não sei quem.” O valor foi quitado. “Liquidei. Em 2005, R$ 12 milhões viraram R$ 19 milhões, um absurdo, não é?.”

Chantagem. O Ministério Público Federal sabia, desde 2012, da existência de um negócio que envolveria R$ 6 milhões e os investigados do mensalão. O publicitário mineiro Marcos Valério, operador de propinas no mensalão, afirmou em tentativa de delação premiada naquele ano – quando seria condenado – que dirigentes do PT pediram a ele R$ 6 milhões. O dinheiro seria destinados ao empresário Ronan.

Segundo Valério, isso serviria para que o empresário de Santo André parasse de “chantagear” o ex-presidente Lula, o então secretário da Presidência, Gilberto Carvalho, e o então ministro da Casa Civil, José Dirceu – preso desde março, pela Lava Jato, em Curitiba.

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Ronan tentava relacionar Lula, Carvalho e Dirceu a suspeitas de corrupção na cidade que teriam motivado o assassinato do prefeito Celso Daniel, em 2002 – a conclusão da polícia paulista é de que ele foi vítima de um crime comum, não político. Bumlai teria sido uma das pessoas que teria atuado nesse episódio de suposta compra do silêncio do empresário de Santo André.

O empresário negou qualquer relação com o caso, e disse não conhecer nem Bumlai nem Marcos Valério.

Contrato confidencial. Dois anos depois das afirmações de Valério, em delação que acabou não sendo fechada, o contrato dos R$ 6 milhões da empresa do publicitário envolvendo empresa de Ronan foi apreendido no escritório da contadora de Youssef durante as buscas da Lava Jato.

O material intitulado “Enivaldo confidencial” seria um contrato “referente a um proprietário de uma empresa de ônibus de Santo André/SP” que era guardado a “sete chaves”, contou Youssef em seu termo de delação 25, prestado em 26 de outubro de 2014.

“(Youssef) sabia que Enivaldo Quadrado tinha os documentos guardados no escritório de contabilidade de Meire Pozza, a pedido daquele, por uma questão de resguardo pessoal”, explicou Youssef. Questionado pela força-tarefa da Lava Jato sobre o que ele temia, o doleiro disse não saber, mas era algo que guardava “a sete chaves”.

“Enivaldo Quadrado disse que preparou a triangulação de pessoas que figurariam em tal contrato”, explicou Youssef. “O contrato foi feito entre a empresa de Marcos Valério, istó é, a 2S Participações Ltda, e uma outra empresa que Enivaldo indicou.” A empresa, para os investigadores, é a Remar. Para isso, o ex-dono da Bônus-Banval “receberia dinheiro ou algum outro favor”, contou.

Segundo o doleiro, quem pediu para que Enivaldo Quadrado fizesse o documento “era uma pessoa ligada ao Partido dos Trabalhadores – PT, chamada Breno Altiman”. “Sabe que Breno Altiman é ligado ao PT, pois o declarante (Youssef) foi a Cuba duas vezes realizar negócios e o mesmo estava presente. O pai de Breno foi um dos fundadores do PT”, registra a força-tarefa, no termo de delação.

TERMO 25 YOUSSEF SOBRE CASO CELSO DANIEL

Breno Altman é jornalista e consultor internacional, com relação próxima com o ex-ministro José Dirceu. Ele nega qualquer envolvimento no caso, diz nunca ter visto Bumlai.

“Indagado sobre o que motivou Breno a realizar tal operação, foi o fato de que o PT estaria sendo ameaçado por conta do caso ‘Celso Daniel’, de maneira que a documentação foi preparada para atender a determinada pessoa, que seria o proprietário de uma empresa de ônibus.”

O doleiro disse que não poder especificar o tipo de chantagem estaria envolvida, mas que ela “objetivava que tal pessoa ‘ficasse quieta’ em relação ao Caso Celso Daniel”.

Contrato da Petrobrás. As novas revelações dos delatores Fernando Baiano e Eduardo Musa, feitas entre setembro e outubro, levaram os investigadores do MPF e da Polícia Federal a buscarem uma conexão entre esses dois episódios suspeitos que tem como personagens Bumlai, o PT e os esquemas de corrupção alvos da Lava Jato e do mensalão.

TRECHO DELAÇÃO MUSA SOBRE 60 MILHÕES CAMPANHA 2006

Bumlai foi citado em depoimentos colhidos entre agosto e setembro pela força-tarefa da Lava Jato como intermediário da Schahin, junto com o lobista Fernando Baiano, da contratação da empresa pela Petrobrás em 2011, para operação do navio-sonda Vitória 10000. A contratação seria uma compensação pela dívida do PT, por gastos na campanha de reeleição de Lula.

Em 2012, quando tentou um acordo com a Procurador, dois anos antes da Lava Jato, Marcos Valério mencionou que, pelo empréstimo dado ao pecuarista no episódio da chantagem contra o PT, a Schahin seria recompensada com contratos da Petrobrás.

COM A PALAVRA, O PECUARISTA JOSÉ CARLOS COSTA MARQUES BUMLAI

Em entrevista ao Estado, o pecuarista José Carlos Bumlai negou qualquer envolvimento com pagamentos envolvendo chantagem e disse que sua relação com a Schahin foi legal.

Estado – O sr. pode nos explicar sua participação nas campanhas do PT e de Lula, o sr emprestou dinheiro?
Bumlai – Desconheço que eu tenha feito esse empréstimo para financiar campanha de Lula. Fiquei sabendo depois, foi questão de uns dois anos atrás, que o Schahin teria crescido no setor de sondas por causa disso, uma baita de uma mentira, eu não fiz nada.

Estado – O que foi o negócio com a Schahin em 2004?
Bumlai – O Sandro Tordin, presidente do banco (Schahin), em 2004 fez um empréstimo para meus negócios, meus agronegócios que envolvia R$ 12 milhões, isso aí já serviu para tudo, para pagar aquele caso de Santo André, para pagar não sei quem.
Em 2012, esse negócio que eu fiz, eu tenho contrato, o que eu fiz desse dinheiro, passei para a compra de um empreendimento, para uma pessoa, que era uma empresa. Não conseguiu juntar todos os documentos, para escriturar para mim, me devolveu o dinheiro. Do jeito que foi, voltou contabilizado. Eu sou vítima dessa coisa toda para mim.

Estado – O sr liquidou esse empréstimo?
Bumlai – Liquidei. Em 2005, R$ 12 milhões viraram R$ 18, R$ 19 milhões. Um absurdo. Fui para o Cadin (cadastro nacional de inadimplentes), fiquei sem poder fazer negócio com banco. Estou falando de 2005, olha como eu venho tropeçando aí. O mal que essas coisas todas fazem. Não posso ficar no Cadin. Como todo meu negócio é estruturado na pessoa física, tem que sair. Peguei uma empresa nossa, fiz a novação. Dei uma fazenda em garantia. O ano virou dia 6 ou 7 de janeiro de 2006, eu fiz isso aí. A PJ (pessoa jurídica) fez a novação para mim, deu uma fazenda em garantia, hipotecada. Não tem como hoje, ontem, há 2 anos, fajutar uma hipoteca de 9 anos. Não existe essa possibilidade. E paguei. Eles venderam minha operação, operação não ficou no Schahin e eu paguei.

Estado – Conhece operação para pagamento de uma dívida do PT com a Schahin de R$ 60 milhões pela campanha de Lula em 2006?
Bumlai – Eu não conheço. Da mesma forma que eu fui honesto com você, estou sendo absolutamente verdadeiro, se eu falar que eu conheço, é mentira minha. Não conheço. Não peguei conta de ninguém para passar para ninguém, para passar dinheiro para ninguém.

Estado – O sr. conhece o ex-gerente da Petrobrás Eduardo Musa, que citou seu nome em delação?
Bumlai – Não, nunca vi.

Estado – Os demais personagens desta operação?
Bumlai – Não tenho relação com nenhum.

Estado – Conhece o doleiro Alberto Youssef?
Bumlai – Nunca vi. Nunca vi Alberto Youssef na minha vida.

Estado – O sr. conheceu Marcos Valério?
Bumlai – Não.

COM A PALAVRA, O EMPRESÁRIO RONAN MARIA PINTO
“Aguardo com tranquilidade as investigações que vêm sendo feitas no âmbito da Operação Lava Jato, e que devem encerrar de vez esse assunto em que toda hora tentam me envolver. A propósito: não conheço José Carlos Bumlai; não conheço Marcos Valério e não tenho qualquer relação com esses fatos”.

COM A PALAVRA, BRENO ALTMAN

Breno Altman afirmou que não tem relação algum com os fatos e disse
não conhecer o pecuarista José Carlos Bumlai. “Não tenho nada a ver
com essa história. Nunca vi Bumlai na minha vida.”

Altman, filiado ao PT desde a década de 1980, explicou que nunca foi
da estrutura partidária.

Ele criticou a delação de Alberto Youssef. “É a delação do comentário,
do comentário. Ele ouviu falar do Enivaldo, que ouviu falar de não sei
quem. É um negócio doido.”

COM A PALAVRA RUI FALCÃO, PRESIDENTE NACIONAL DO PT
“Esta é uma história totalmente falsa, pois a suposta dívida mencionada na delação nunca existiu. É mais uma mentira divulgada de maneira irresponsável, sem base em provas, na tentativa de comprometer o PT. Nas campanhas eleitorais, o PT jamais delegou a terceiros a responsabilidade de arrecadar fundos. A arrecadação do partido sempre foi feita em obediência à lei, através de transações bancarias, todas elas declaradas à justiça eleitoral.”