Pela fraternidade e paz no futebol

Marcos Lúcio Barreto*

19 Dezembro 2016 | 16h20

 

Passados os maiores impactos emocionais decorrentes do trágico evento que vitimou o time de futebol da Chapecoense, reputamos válido resgatarmos a experiência que envolveu iniciativa nossa promovendo a sempre almejada paz entre as torcidas organizadas.

Indicados a compor um grupo de Promotores de Justiça, em 2010, criado para combater a violência no futebol no estado de São Paulo, tivemos a oportunidade de prestar nossa colaboração nesse sentido.

Cientes de que era chagada a hora de se pensar em algo novo e que pudesse contribuir significativamente na melhoria do quadro de selvageria e primitivismo que permeava e ainda permeia o “convívio” entre dezenas ou centenas das chamadas torcidas organizadas, pensamos em algo inusitado e impactante, apto a trazer maior reflexão àqueles que gravitam em torno do esporte mais popular deste país.

Assim, surgiu a ideia de lançarmos uma campanha contra a violência no futebol, fazendo com que os 22 jogadores da partida ficassem intercalados, naquele momento em que as equipes se posicionam perfiladas para a execução do hino nacional, ao mesmo tempo em que se abraçassem, segurando, ainda, uma grande faixa com os dizeres “PELA FRATERNIDADE E PAZ NO FUTEBOL”.

Entendendo tratar-se de iniciativa inovadora, até onde sabemos, sem precedentes nos quase 150 anos de história do futebol, imaginávamos que, pelo ineditismo da ideia e com o apoio dos principais atores desse espetáculo, conseguiríamos provocar o impacto necessário a uma maior reflexão e conscientização dos torcedores de que, a despeito da rivalidade e do espírito de disputa que envolvem esse esporte e a ele são inerentes, o futebol poderia ser exercitado de maneira civilizada, respeitosa e pacífica.
Assim, juntamente com os demais integrantes do Plano de Ação Integrada (PAI) do Futebol, criado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, nos reunimos, no dia 25.04.2011, com os presidentes e representantes das cinco principais equipes do nosso estado (São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Santos e Portuguesa), além da Federação Paulista de Futebol e da Polícia Militar.

Após a exposição desse nossa ideia, obtivemos o apoio de todos os presentes à reunião, condicionado, porém, a um trabalho de convencimento a respeito que deveríamos desenvolver diretamente junto a todos os jogadores das quatro equipes então envolvidas nas semifinais do Campeonato Paulista de Futebol (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo).

Dois dias após, iniciamos nosso ciclo de palestras, realizadas nos dias 27 (Corinthians), 28 (Santos) e 29 (São Paulo e Palmeiras), recebendo de todos os envolvidos apoio à iniciativa.

Assim, nos dias 30.04 e 01.05, respectivamente, nos jogos São Paulo x Santos e Palmeiras x Corinthians, tivemos, pela primeira vez na história do futebol profissional, 22 jogadores, mais os 5 integrantes do grupo de arbitragem, abraçados no campo da partida, ostentando, ainda, uma faixa de apoio à paz no futebol, demonstrando, assim, de uma forma reconhecidamente marcante, o comprometimento de todos eles com essa causa tão nobre.

Esse gesto inédito veio a se repetir nos dois jogos das finais do campeonato, entre Santos e Corinthians, realizados nos dias 8 e 15 de maio.

Tínhamos a crença, a propósito, de que, com a importância do futebol na sociedade brasileira e com a representatividade do nosso futebol no cenário mundial, esse abraço pela paz seria repetido e copiado em muitos lugares que, assim como aqui em São Paulo ou no Brasil, convivem com a violência nesse esporte.
Ressaltamos a todos os jogadores nas palestras realizadas que talvez nunca um gesto tão simples e singelo (um abraço de poucos segundos) tivesse representado tanto.

Lembramos, também, que eles mesmos se beneficiariam com os almejados resultados dessa iniciativa, na medida em que, imperando-se um maior clima de serenidade e tranquilidade, o próprio desempenho dos jogadores tenderia a ser melhor. É assim em qualquer ramo de atividade, haveria de ser assim também no exercício do futebol… Sem falar que estariam zelando ainda pelo próprio bem estar de seus familiares, frequentadores, igualmente, dos campos de futebol.

Não deixamos de reconhecer, ao mesmo tempo, que não tínhamos a ilusão de que o problema da violência no futebol fosse resolvido com essa iniciativa; mas registramos que se, com esse simbólico e marcante abraço dos jogadores, nós conseguíssemos evitar um único espancamento ou uma única morte, já teria compensado muito esse “esforço”.

Esperávamos, assim, que essa mensagem de paz, de alguma maneira, ecoasse na consciência das pessoas que acompanham o futebol, ao mesmo tempo em que servisse de exemplo para outras praças desportivas ou não, e, numa espécie de círculo virtuoso, num futuro próximo, conseguíssemos enxergar um mundo melhor…

Tal, infelizmente, não se verificou, mediante a constatação de que o enfrentamento violento entre as diversas torcidas organizadas ainda persistem em níveis preocupantes.

Verificado, no entanto, agora, que tivemos um movimento espontâneo de fraternidade, união e solidariedade em torno daqueles atingidos por esse tão doloroso episódio trágico, tendo como ápice o encontro, no último dia 4, de integrantes das principais torcidas organizadas, na Praça Charles Miller, em frente ao Estádio do Pacaembu, irmanados em promover todos esses sentimentos nobres, exsurge novamente em nós a esperança e a expectativa de que o clima de paz e harmonia ali verificado possa proliferar e prevalecer nos nossos próximos eventos futebolísticos.

Que assim seja…

*MARCOS LÚCIO BARRETO, promotor de Justiça do Meio Ambiente de São Paulo

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